Revista Rua

2020-06-26T16:05:30+00:00 Cultura, Pintura

Ianara Mota Pinto: o espiritual da cor e da matéria

Rothko é uma das mais relevantes referências da artista plástica Ianara Mota Pinto.
Helena Mendes Pereira
Helena Mendes Pereira26 Junho, 2020
Ianara Mota Pinto: o espiritual da cor e da matéria
Rothko é uma das mais relevantes referências da artista plástica Ianara Mota Pinto.

“Definimos beleza, portanto, como um certo tipo de exaltação emocional que resulta do estímulo
exercido por certas características que 
são comuns a todas as grandes obras de arte.
Aplicando esta definição às nossas ideias de plasticidade,

podemos afirmar que a soma de toda a plasticidade numa pintura tem que constituir
o potencial para um sentido de belo.”

ROTHKO, Mark – a realidade do artista. Filosofias da Arte. Lisboa: Cotovia, 2007. Páginas 153 e 154.

Nunca, como hoje, o silêncio nos pareceu tão ensurdecedor. Não temos memória de pensar o espaço público sem a azáfama dos dias feitos de gente a correr, na labuta ou no ócio da existência. Nunca, como hoje, nos pareceu tão difícil o silêncio a que somos votados no isolamento social que nos exigem os tempos pandémicos que vive a nossa comunidade global. Ouvia Silence (2015) da Hindi Zahra ao mesmo tempo que procurava em Mark Rothko (1903-1970) a aprendizagem do silêncio que este dizia ser o mais acertado quando lhe pediam para falar das suas obras. Rothko é uma das mais relevantes referências da artista plástica Ianara Mota Pinto (n.1971) sobre a qual hoje reflito. Rothko também é um dos artistas da minha mais profunda predileção e talvez tenha sido esta a primeira partilha que nos uniu. Ou então não foi pois quando visitei o atelier de Ianara Mota Pinto, em Lisboa, imediatamente senti evocado dentro de mim o sentido do belo e, sobretudo, do espiritual e do emocional da sua pintura. Vi tanta matéria como emoção e senti que no jogo dos pincéis, das espátulas e das tintas havia a catarse da mulher que não pode conter dentro a inquietação. E então questionei-me e questionei-a se era catarse ou a afirmação da solidão e do devaneio da pintura, recordando Gaston Bachelard (1884-1962):

“A correlação do sonhador ao seu mundo é uma correlação forte.
É esse mundo vivido pelo devaneio que remete mais diretamente ao ser do homem solitário.
O homem solitário possui diretamente os mundos por ele sonhados.
Para duvidar dos mundos do devaneio, seria preciso não sonhar, seria preciso sair do devaneio.”

BACHELARD, Gaston – A Poética do Devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 2009. Página 152.

Pintar é devanear, é sonhar e é ser livre. É estar em silêncio consigo mesma e expurgar o que está dentro, o que não se resolve. A plasticidade de Ianara Mota Pinto, dada pela cor e pela forma como exagera no uso da matéria, fez-me levitar e mergulhar num silêncio pensante, comigo mesma. Encontrei naquela pintura, não Rothko, mas a mim mesma e quando a criação de alguém nos parece biografia, estamos perante o belo, encontramos a Arte que fica, que permanece.

Dona de um exotismo e de um belo feminino risonho, a brasileira Ianara Mora Pinto conta-nos que muito cedo, com a mãe (que pintava as paisagens de Minas Gerais), se fascinou pelas artes plásticas. O fascínio cresceu depois pelas conversas com Amílcar de Castro (1920-2002), seu vizinho de infância e juventude. Mas Ianara acabou por estudar Direito e se tornar advogada. Quando se mudou para Brasília visitou o atelier de Lourenço de Bem (n.1956) e decidiu inscrever-se em aulas de arte. Mais tarde, mudou-se para Washington DC (EUA) onde viveu dez anos, aproveitando para frequentar cursos de arte e fotografia na Corcoran School of Art. A paixão pela intensificação das suas texturas, pelo uso das colagens e de outras técnicas vai crescendo e a pintura ganha rumo. Expôs nos EUA onde inicia, assim, atividade profissional como artista. Rendida a Portugal, merece-nos e nós merecemo-la, acolhemo-la na nossa comunidade de artistas porque nos faz falta o silêncio e a espiritualidade da sua pintura. E porque é bom e belo o que faz. Tem alma, sonho, devaneio e emoção. Precisamos dela e, por isso, nesta edição tão particular da RUA, damos-lhe luz.

Sobre a autora:
Chief Curator da zetgallery, sediada em Braga.

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