Revista Rua

2019-07-02T21:39:00+00:00 Opinião

Ideologia de Género – vade retro, Satanás!

Sociedade
Marta Moreira
Marta Moreira
2 Julho, 2019
Ideologia de Género – vade retro, Satanás!

Há pessoas que ouvem falar de igualdade de género e imediatamente pensam em ideologia de género. Há outras que ouvem falar de ideologia de género e imediatamente pensam em “homossexualização” da população. A confusão está instalada e, neste admirável mundo novo, qualquer um se sente apto para discorrer acerca deste tema. A verborreia é tanta e defendida tão acerrimamente, que dei por mim perplexa, assistindo a como uma luta por poder ser livre e aceite, facilmente se transforma num plano de engenharia social, parte do marxismo cultural (mal) camuflado em que vivemos. Ou seja, simples tentativas de conciliar um mundo cada vez mais plural e amplo (ainda que falíveis muitas vezes, concedo), assumem-se tentativas de extinguir a espécie humana. Fascinante.

Vamos lá esclarecer; há, portanto, aqui três conceitos que por ignorância se misturam com deprimente frequência: igualdade de género, ideologia de género e orientação sexual. Falemos então de orientação sexual, que será à partida o conceito menos confuso dos três: as pessoas podem ser heterossexuais (atraídas por indivíduos do sexo oposto), homossexuais (atraídas por indivíduos do mesmo sexo), bissexuais (atraídas por indivíduos de ambos os sexos), pansexuais (atraídas por indivíduos independentemente do seu sexo) e assexuais (que não sentem atracção sexual). É muita fruta, não é? Eu sei que crescer com uma visão unidimensional deste conceito e depois vê-la transformar-se nisto (e espero não estar já desactualizada!), é difícil. Mas isso não justifica que 1) se categorize quem se sente diferente daquilo que será a norma como doente, ou que 2) se estabeleça um paralelismo entre a defesa de direitos iguais com doutrinação ideológica. Já igualdade de género remete-nos para outra coisa: direitos iguais para todas as pessoas. Defender a igualdade de género não é dizer que homens e mulheres são iguais, porque não o são; é apenas defender que ambos merecem os mesmos direitos. No trabalho e na vida em sociedade, o contrário não é sequer defensável. É profundamente irritante que 1) haja pessoas que ouvem ou lêem a palavra “género” e imediatamente a associem a doutrinação ideológica, ou que 2) ouçam falar de “igualdade” e se abespinhem ao ponto de se revelarem misóginas.

Vamos lá esclarecer; há, portanto, aqui três conceitos que por ignorância se misturam com deprimente frequência: igualdade de género, ideologia de género e orientação sexual.

Ideologia de género é inteiramente diferente de ambos: consiste em reconhecer que há pessoas que se identificam com um género diferente daquele que podem aparentar, ou inclusivamente de forma não-binária (homem ou mulher). E, pasmem-se os arautos da moralidade, isto é algo tão antigo quanto a própria civilização: sempre existiram homens que se vêem como mulheres e vice-versa, isto não tem rigorosamente nada de chocante ou sequer anti-natura! Biologicamente, há três factores que determinam o sexo do indivíduo: genitália, distribuição de cromossomas e produção hormonal. O mais comum é os três estarem em concordância: um bebé com genitália masculina à partida terá uma distribuição de cromossomas tendencialmente masculina e correspondente produção hormonal. Mas nem sempre é assim: sempre existiu aquilo a que vulgarmente se chamava de pessoas hermafroditas (intersexuais), assim como sempre houve pessoas que tendo, por exemplo, genitália feminina, têm uma distribuição de cromossomas e consequente produção hormonal mais predominantemente masculinas, o que se traduz num sentimento de desajuste em relação ao género que no imediato se lhe atribui. Assim, e ao contrário do que tantos se esforçam por propalar, a própria biologia explica que haja homens que se identificam como mulheres ou mulheres que se identificam como homens ou pessoas que não se identificam exclusivamente com nenhuma das duas.

Tudo isto não é parte de um plano para destruir a Humanidade, meus senhores. Ninguém anda a tentar “homossexualizar” as nossas crianças, estejam descansados; apenas se tenta incutir, num Mundo cada vez mais cheio de ódio e intolerância, valores opostos.

Identidade de género é diferente de expressão de género, convém desde já esclarecer: uma é como uma pessoa se sente e se identifica, outra é como se exprime. E, tal como todos nos exprimimos de formas diferentes em cada dia (basta ver as tantas máscaras que variamos diariamente ao longo da existência), também isto não é estático, ainda mais se considerarmos que o contexto social influencia sim, a forma como nos vemos e nos exprimirmos. Se o sexo com que nasce o indivíduo é determinado  biologicamente, o género, esse constrói-se sim: quando restringimos determinados comportamentos e funções ou a homens ou a mulheres, agudizando o sentimento de desajuste naqueles que saem fora deste nosso mundinho estilizado a preto e branco. Quando falamos em desmontar as construções sociais de género, estamos a falar em deixar de circunscrever determinados comportamentos, funções e oportunidades ou a homens, ou a mulheres, de forma a criar espaço para que todas as pessoas se consigam compreender e aceitar a si mesmas Apenas e só.

Tudo isto não é parte de um plano para destruir a Humanidade, meus senhores. Ninguém anda a tentar “homossexualizar” as nossas crianças, estejam descansados; apenas se tenta incutir, num Mundo cada vez mais cheio de ódio e intolerância, valores opostos. Não deixa de ser assinalável que este belicismo que vemos agora a despontar, provenha de franjas altamente conservadoras da igreja cristã: portanto, acreditar em entidades divinas e milagrosas que não se vêem mas que conduzem a moral e os costumes, tudo OK; acreditar que há pessoas que se possam sentir diferentes, isso já não. Faz sentido. Uma Santa Páscoa a todos.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre a autora:
Professora do Ensino Artístico Especializado e sindicalista de feitio. É digamos que uma espécie de artista, que toca, canta e escreve (mas que ainda não dança). Autora do blog Pimenta na Língua, é uma esganiçada de pavio curto, activista de causas perdidas. Pessimista por defeito e inconformada por vocação.

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