Revista Rua

2021-11-18T14:35:16+00:00 Cinema, Cultura

Irregular, o surpreendente novo filme de Diogo Morgado

Depois de Solum, Diogo Morgado aventura-se novamente na realização com Irregular, um filme que chega às salas de cinema a 18 de novembro.
Cláudia Paiva Silva18 Novembro, 2021
Irregular, o surpreendente novo filme de Diogo Morgado
Depois de Solum, Diogo Morgado aventura-se novamente na realização com Irregular, um filme que chega às salas de cinema a 18 de novembro.

Irregular, o novo filme de Diogo Morgado, conta o desespero de um pai em busca da verdade após o rapto da sua filha. O que faríamos se a nossa vida desse uma volta de 180 graus em poucos minutos?

Um filme que se vê num sopro e que corresponde a uma mudança no que estamos habituados a ver no cinema português. Irregular, de Diogo Morgado, é um murro no estômago, escrito e realizado com uma inteligência emocional incrível. Gabriel, personagem interpretada por Pedro Teixeira, é testemunha do rapto da sua filha e mulher, que são “substituídas” por uma outra família completamente desconhecida para ele. Após esse evento, inicia-se uma busca pela verdade, que poderá trazer consequências graves à vida não só de Gabriel, mas de tudo o que ele conhece.

A Revista RUA esteve à conversa com Diogo Morgado, bem como com Pedro Teixeira, Maria Botelho Moniz e João de Carvalho, que integram um elenco de luxo, onde nenhuma personagem é secundária.

RUA – Qual a importância de fazer filmes “fora de caixa” como este Irregular?

Diogo Morgado – Não estamos aqui a descobrir a pólvora (risos) Se nós gostarmos, enquanto espectadores, de coisas que não são lineares, conseguimos crescer tanto como os produtores e contadores de histórias. Cada história tem o seu tempo. Nada contra as homenagens, mas mesmo as histórias como a da Carochinha podem evoluir, tornarem-se mais complexas, acrescentando-lhes questões, problemas e conflitos, que fazem parte dos dias de hoje, e que nos dizem pessoalmente respeito, uns mais do que outros. O filme tem zonas que falam mais com um determinado tipo de espectador, outras zonas com outro tipo de espectador.

Eu e o meu irmão (Pedro Morgado, argumentista) queremos mostrar que, sendo a televisão mais eclética e com as plataformas de streaming a participar cada vez mais nessa conversa, como a série Glória, o cinema português não tem de esperar que seja o público a aproximar-se. Tem é de haver a noção de produtores e realizadores em sentirem a sensibilidade do público e conseguirem chamá-lo. E, quando esse público vem, de facto, ser bem tratado. Porque não é só o chamar que é importante, porque temos trailers muito bons, que prometem, e depois as pessoas vêm e não saem surpreendidas. Nós, por exemplo, apresentamos um trailer, que é verdade, mas que não é, de todo, apenas aquilo que as pessoas pensam. E isso é o mais interessante para nós: não sendo totalmente óbvios, podemos falar com cada pessoa, dizer-lhe que esta história é também para eles.

RUA – O que vos inspirou a escrever esta história, da forma como ela está escrita?

Diogo Morgado – O caminho que temos vindo a fazer apresenta-se, em primeiro, com a realização de uma comédia, em segundo com um filme de ficção científica e, agora, queríamos que este filme fosse uma jornada emocional, uma saga psicológica de uma personagem, mas onde não houvesse personagens secundárias, tanto que o tempo em ecrã não é proporcional à importância das personagens. Na verdade, temos algumas personagens que podem não aparecer tanto no ecrã, mas são absolutamente cruciais ao plot da história. Ganhámos muito tempo a desenvolver o argumento de forma que fosse sólido, no sentido em que quem o lesse não conseguisse parar e isso é uma ginástica, um exercício muito difícil, porque tanto eu, como o Pedro, somos muito diferentes, e não conseguíamos fechar o argumento sem que o mesmo fosse também um argumento de atores, mais do que planos, mais do que a história. Se essa não for a primazia total, não vale a pena fazer este filme. Tivemos vários ensaios de mesa para descortinar o que era cada personagem, o que motivava cada uma. Não existem personagens más aqui.

RUA – Acha que, tal como o filme Listen, que teve reconhecimento internacional antes sequer de ser aplaudido em Portugal, este filme, que tem tudo para muito impacto a nível europeu, deveria ou poderia ser também apresentado internacionalmente de forma a que depois possa ser visto com outros olhos cá dentro?

Diogo Morgado – A nossa batalha não é internacionalizar, mas sim nacionalizar. Eu quero acreditar no bom senso do espectador. Se calhar sou muito ingénuo nesse aspeto, mas enquanto tiver forças para acreditar, vou acreditar. Eu acredito que o caminho que leva a determinados sítios demora tempo e é sempre de grande dificuldade, por isso acredito que isto que estamos a fazer ainda é apenas o começo. Eu já me encontro com pessoas das escolas de cinema que me dizem “Vi o filme não sei quantos e nunca pensei” e só essa grama de incentivo, para esses miúdos, é dizer que não é impossível, porque se aquela pessoa fez, então todos conseguem. E isso é o mindset certo! Muitas vezes os recursos estão à nossa frente e não temos o foco certo para as poder ver e como transformar aquilo noutra coisa, como transformar em dinheiro para o filme. As escolas de cinema não ensinam isso e deveriam ensinar. Dizem que nunca deveremos colocar o nosso dinheiro num projeto, o que é um princípio errado, porque como convidas assim alguém, uma marca, algo a pôr dinheiro numa coisa em que nem tu próprio acreditas? Não estou a querer dizer mal das escolas de cinema, mas a minha escola é outra.

RUA – Pedro Teixeira, quanto de ti está presente no Gabriel?

Pedro Teixeira – Está tudo! Acho que uma das mais-valias do filme é eu saber exatamente o que é ser pai e nem sequer ter de tentar imaginar o que poderia ser se algum dia a minha filha desaparecesse ou lhe acontecesse alguma coisa. Isso, aliado à sensibilidade de um realizador que é de outro mundo, como o Diogo, que fez uma belíssima direção de atores, tem como resultado o que está à vista. Está muito bom, passa o que nós queríamos passar. Quando vi o filme pela primeira vez estive numa permanente ansiedade com a história, mesmo já a conhecendo, portanto, será uma mais-valia para o público que irá sair satisfeito por ver um bom filme, que lhe provocou algumas sensações diferentes. Vai ser uma grande surpresa!

Maria Botelho Moniz ©D.R.

Maria Botelho Moniz, mais conhecida pela sua presença na televisão, embora seja na realidade atriz de formação, é Carla, uma inspetora de Polícia que acontece estar no local onde a ação se inicia, tornando-se também ela uma testemunha do que aconteceu.

RUA – Maria, como descreveria a sua personagem? O Diogo Morgado diz que é uma badass girl!

Maria Botelho Moniz – É uma boa descrição! (risos) Foi assim que ele descreveu a personagem quando me convidou a participar no filme. E eu disse logo que a queria fazer. É uma durona, uma rija, focada, determinada, para ela há poucos cinzentos, ou é preto ou branco, tendo um particular gosto em deslindar puzzles e montar histórias, mas ao mesmo tempo tens de lhe dar a camada humana. Ela sorri pouco, mas quando sorri, enche. E esses momentos são importantes, porque o filme apresenta uma mudança brusca na história. Ela sorri para um homem que está a comprar algo para a filha, mas, entretanto, essa criança desapareceu e é preciso descobrir o que aconteceu e vai até ao fim. Isso foi muito giro de construir, porque para mim ela é real.

RUA – Teve alguma formação ou algum apoio para a questão da investigação? Existe sempre associado a casos de rapto uma dúvida em relação ao que terá realmente se passado.

Maria Botelho Moniz – Sim, existe uma maior cautela e, com o programa da manhã, tive muito mais essa noção. Mas ela (personagem), como está lá, é algo que se torna mais forte do que ela. Ela pede ao colega, Sousa, que telefone à base, que veja a matrícula, ou seja, ele trata da burocracia, enquanto a Carla não sai dali sem ir atrás daquele homem, porque se “eu” estou ali é por alguma razão e é para chegar até ao fim disto. Acho que esse lado de pisar o risco, de também se colocar no lado dele, de o ajudar, quando não é suposto, também a torna mais vulnerável. Mas só arrisca porque tem essa confiança e isso torna-a na tal badass.

RUA – A personagem, como diz, coloca-se muitas vezes no lado das vítimas e de todos os que passam pelas situações. De que modo a sua personagem ganha essa empatia com a personagem Gabriel?

Maria Botelho Moniz – Essa empatia vem antes de tudo acontecer. A empatia começa, e isso vê-se no trailer, durante a compra das gomas para a filha, em que eles têm ali um momento de pessoa para pessoa e não de polícia para um homem que está desesperado. É gente que está no seu dia a dia e, a partir daí, ela sente como se já o conhecesse e é muito estranho, porque foram poucos segundos, mas ela já está no lado dele e a história ainda nem começou. Acho que é isso que a torna às vezes tão persistente e é algo que a faz corroer por dentro, o facto de ela não conseguir provar que o que ele está a dizer é a verdade, uma vez que viu nos olhos dele o desespero. Ela conhece este homem, embora nunca o tivesse visto antes.

RUA – O que acha que é preciso, enquanto atriz, que seja feito para puxar o público nacional a ver filmes portugueses?

Maria Botelho Moniz – Eu acho que qualquer projeto feito em Portugal é merecedor de público, porque é tão difícil fazer cinema neste país, são poucos os recursos para os maravilhosos profissionais em todas as áreas, desde a realização, produção, pós-produção, áudio, os próprios atores. Nós temos tanto talento que se torna ingrato às vezes não sentir essa ajuda também pela parte de quem poderia ver o filme e deslocar-se ao cinema. Mas acho que, com filmes de géneros diferentes, acabamos por atrair públicos diferentes. No Irregular temos atores para todos os gostos e, ao ter também atores e pessoas da televisão, como se calhar é o meu caso, posso chegar a um público diferente. Compor esse leque também é importante. Devemos continuar a fazer cinema português e continuar a acreditar, de forma que o preconceito que ainda existe possa ser menor e que as pessoas se possam realmente render ao talento que se tem em Portugal.

Já João de Carvalho, nome incontornável tanto do teatro como cinema e televisão em Portugal, descreve a sua personagem, Afonso, como um homem que vive em culpa permanente: “Confesso que esta minha personagem começou a determinada altura a perturbar-me. Este homem vive num conflito interior muito grande, decidindo erradamente outro caminho, até que a história se desenrola e ele se vê noutra situação. Fica implícito esse sofrimento e as pessoas vão interrogar-se sobre esta personagem ao longo de todo o filme. Qual o envolvimento que este personagem tem com o Gabriel? São algumas questões que se colocam”.

Irregular conta também com a participação de Carla Chambel, Júlia Belard, Diogo Faria, Laura Barbosa e ainda de Margarida Serrano e Salvador Pires.

Um filme intenso e revelador, filmado ainda em 2019 e previsto ter sido apresentado em 2020, ficado “dentro da gaveta” devido à pandemia, longe de tudo o que se tem visto no cinema nacional nos últimos tempos. Irregular pauta por criar uma forte expectativa e vontade crescente de descortinar, junto às personagens, a verdade e a realidade do que está a acontecer ao ritmo alucinante de cada cena, pautada por elementos de fotografia e luz simplesmente maravilhosos em regiões de Portugal – ainda para muitos, desconhecidas. Um trabalho magnífico de Diogo Morgado e uma interpretação brilhante de Pedro Teixeira, devendo ser visto atentamente. Um filme onde nem tudo é o que parece ser.

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