Revista Rua

2021-03-02T17:54:09+00:00 Opinião

Isto não é um cachimbo, é uma questão de estilo

Crónica
João Rebelo Martins
João Rebelo Martins
2 Março, 2021
Isto não é um cachimbo, é uma questão de estilo
Jean Graton

Há dias morreu Jean Graton, um dos mais rápidos desenhadores/argumentistas, criador da mui famosa banda desenha Michel Vaillant.

As redes sociais encheram-se de mensagens de petrolheads, de amantes do estilo rockandrolla eternizado pelos loucos anos das corridas – entre guerras e até aos anos 70. James Hunt fez muito por isso; Barry Sheene idem, e toda a legião de bad boys que desafiavam a morte a pilotar, a levar a adrenalina ao limite, dentro e fora de pista.

Por isso, Graton ainda tem uma legião de fãs e, nos dias que correm, há automóveis a correr com as cores do herói Vaillant, ainda se fazem filmes e tiras inspiradas nos primeiros bonecos do francês.

Por esses dias recebi mensagens de pessoas do Ephemera a falarem da vida e obra de Graton, ou as estórias do Vaillant de Torres Vedras.

Nada melhor que homenagear um autor do que ler a sua obra. Foi uma tardada! E de Graton passei a Goscinny; daí a Hergé foi um pequeno passo. Revivi heróis de juventude e aquele humor tão típico das tirinhas.

Pensei no foguetão do Tintin, que tantas vezes vi à venda nas ruas de Bruxelas, nos irmãos Dupond e Dupont e, no meu personagem favorito: o Capitão Archibald Haddock.

Haddock contrasta com o positivismo de Tintin e apresenta-se como um velho marujo filho de uma família de velejadores. Lobo do mar em terra, cheio de estórias afogadas em rum, com as suas imponentes barbas pretas carregadas, a paz da personagem é encontrada na ponta do seu cachimbo.

Como Sherlock Holmes, Popeye, Gandalf, Hans Landa ou o Pai Natal; ou Mark Twain, Jacques Cousteau, Ernest Hemmingway, Virginia Woolf, Jean-Paul Sartre, Van Gogh, Carl Jung, Günter Grass, Darwin ou Einstein. Prefiro as personagens aos autores porque, muitas vezes, revelam-se muito mais autobiográficos que o corpo que lhes dá forma.

Olhar Basil Brown durante uma escavação, dando uns bafos no seu cachimbo, ou o Capitão Haddock na sua pose de marinheiro em terra, faz realçar o lado mágico e hedonista que o cachimbo tem.

Peterson reinventou a técnica de se fabricar um cachimbo e, desde então e de forma mais vincada, a mecânica ganhou peso. Mas quem pensa nisso quando a forma e feitio são o primeiro factor de escolha? Ele pode ser Buldog, Calabash, Turkish, Canadian, uma das muitas formas de Freehand ou aqueles rústicos feitos de espiga de milho, idênticos aos dos americanos do Mississípi ou Kentucky. É tudo uma questão de estilo.

Fins de semana de pandemia, em casa, com tempo frio e a lareira a crepitar. O que se faz a seguir a um lauto almoço, terminado com uma velha aguardente?

Fuma-se um relaxado cachimbo.

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

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