Revista Rua

2019-06-05T11:10:09+00:00 Personalidades, Teatro

Ivo Canelas, pensar pela noite dentro

O ator está em cena no Hard Club, no Porto, até 27 de maio, com o monólogo Todas as coisas maravilhosas, um texto que aborda temas fraturantes, mas com o ponto de partida da voz de uma criança.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira22 Maio, 2019
Ivo Canelas, pensar pela noite dentro
O ator está em cena no Hard Club, no Porto, até 27 de maio, com o monólogo Todas as coisas maravilhosas, um texto que aborda temas fraturantes, mas com o ponto de partida da voz de uma criança.

Ao bom jeito do Norte, diríamos que Ivo Canelas é um homem com “bichinhos carpinteiros”. Sempre em movimento, como se quisesse absorver tudo o que a vida lhe dá, em todas as coisas maravilhosas que possam surgir em cada esquina. O ator natural de Lisboa (com uma paixão enorme por Nova Iorque) está no Porto para apresentar o monólogo Todas as coisas maravilhosas, um espetáculo elogiado desde a estreia na capital, no final do ano passado, no Estúdio Time Out – para onde regressa em setembro. Sentámo-nos com Ivo Canelas para falar das coisas maravilhosas que este monólogo traz e percebemos que o ponto de partida é pensar. Pensar em conjunto. Pensar pela noite dentro. Sem receio de interromper o monólogo do ator.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Vamos começar, em primeiro lugar, por conhecer este monólogo chamado Todas as coisas maravilhosas, um texto do britânico Duncan Macmillan. Explique-nos qual é o ponto de partida deste monólogo. Quais são as coisas maravilhosas (ou não) que aqui se falam?

Em primeiro lugar, convém referir que este trabalho partiu de um convite do Hugo Nóbrega, do H2N, que produz o espetáculo. O Hugo conhecia o texto e perguntou-me se eu estaria interessado em fazê-lo. Eu disse que sim! Como bom produtor que ele é, foi insistindo até conseguirmos encontrar o momento para o fazer… esse momento foi no final do ano passado, no Estúdio Time Out, em Lisboa. O monólogo é um texto de Duncan Macmillan, chamado Todas as coisas maravilhosas e fala-nos sobre estratagemas de sobrevivência ao longo de uma vida. Ou seja, como é que nós, ao longo de 60, 70, 80 ou até 90 anos conseguimos não só sobreviver ao atrito e ao desgaste da vida, mas também a algum “secar do coração”. Como é que conseguimos sobreviver a isso tudo e, eventualmente, sermos felizes? Em criança, a nossa propensão para encontrar e reconhecer a felicidade é quase automática (claro que esta ideia não é linear, é referente obviamente a um quadro socioeconómico favorável à criança. Mas se pensarmos bem, mesmo num país de terceiro mundo, encontramos crianças sozinhas que, graças à imaginação, encontram uma propensão para ser feliz com nada). Todas as coisas maravilhosas traz então a história de uma criança de sete anos que começa a escrever uma lista de coisas maravilhosas como prenda para a mãe, para tentar ajudá-la a reencontrar objetivos para viver. A história acompanha este miúdo ao longo da vida. O que acontece à lista? O que acontece ao miúdo? Como é que nós mantemos esse brilho ao longo dos anos? Como é que nós entendemos que a felicidade é um estado passageiro? Como é que nós entendemos que a infelicidade não é necessariamente um estado de humor, mas pode ser um estado clínico? Estas questões são importantes na peça, principalmente esta ideia da depressão como estado clínico, como algo que não tem a ver com o “eu querer estar bem-disposto ou maldisposto”, mas sim com o “eu ter a perna partida ou não”. Depois, também há uma abordagem ao suicídio. Portanto, são dois temas que são muito delicados, por razões óbvias.

“A depressão é transversal à sociedade toda e cada vez mais é um problema que afeta o nosso rendimento, a nossa produtividade, a nossa felicidade, as nossas amizades”

Falar destes temas é alguma provocação para olharmos para um problema que afeta a nossa sociedade, cada vez mais?

A depressão é transversal à sociedade toda e cada vez mais é um problema que afeta o nosso rendimento, a nossa produtividade, a nossa felicidade, as nossas amizades. Acho que há – e vemos isso nas redes sociais – uma constante procura ansiosa de ferramentas para sermos felizes. Parece que é tudo muito fora de nós! O suicídio, como uma possível consequência da depressão, é um tema tabu porque falarmos do suicídio implica falarmos de nós próprios e da nossa responsabilidade. Há uma frase do texto que diz que é comum os filhos dos suicidas culparem-se a si próprios. Que não é justo sentir isto, mas que é normal porque não conseguem deixar de sentir que são responsáveis de alguma forma. Uma vez mais, isto não é linear porque ninguém pode obrigar (ou convencer) ninguém a viver e a ser feliz. Ninguém consegue salvar ninguém, as pessoas têm que querer estar aqui para poderem estar aqui! Eu no início tinha algum pudor em falar destas duas temáticas, a depressão e o suicídio, porque achava que poderia ser contraproducente para o espetáculo e mal interpretado por algum público que poderia pensar que nos estávamos a aproveitar destes temas. Pela reação que tivemos em Lisboa, na altura da estreia no ano passado, eu passei a optar por lançar logo estas duas palavras porque senti que havia um interesse muito grande e uma resposta muito profunda e emocionante das pessoas – no sentido de partilharem connosco questões muito semelhantes às que o texto fala. O texto, de alguma forma, lhes permite pensar por elas próprias sobre o que é que isto tudo significa. O que é maravilhoso na arte, pelo menos para mim, é esta capacidade catártica de estarmos juntos, de pensarmos juntos. Eu acho que não se encontram soluções – ou pelo menos se encontramos elas não são óbvias -, encontramos, sim, momentos onde podemos partilhar as dúvidas. E isso é extraordinário! Porque nos junta, porque nos põe a todos neste mesmo barco e isso é o que há de mais maravilhoso na humanidade: este entendimento de que, realmente, estamos mesmo todos no mesmo barco.

Fotografia ©Nuno Sampaio

O facto de esta peça começar com uma abordagem simplista às coisas que são maravilhosas para uma criança, como os gelados, e prosseguir no tempo com abordagens a questões mais profundas, como a depressão e o suicídio, é quase uma chamada de atenção ao facto de nos mudarmos com o tempo? Não significa que nós, com 30 ou 40 anos, não possamos gostar de gelados…

Crescer é muito giro! (risos) Eu acho que, se fizermos uma análise breve, nós passamos os primeiros 20 anos das nossas vidas a tentar definir quem nós somos – que não é fácil! Depois, chegamos aos 25 anos e já sabemos, mais ou menos, quem somos e o que queremos. É uma viagem de 25 anos a trabalhar para ser isto que somos. Entretanto, agora que somos isto, temos de mudar tudo outra vez! Estamos constantemente nisto. Quando percebemos que somos “isto”, tudo à nossa volta já mudou e temos que nos readaptar. Mas se eu demorei 25 anos a tornar-me adulto, agora vão-me dizer que querem que eu mantenha a minha criança interior? Ó pá! (risos). Então é para ser criança ou adulto? Eu acho que muitas pessoas não voltam atrás. Definem-se e seguem o seu percurso. São velhos antes de ser adultos. Penso que, muitas vezes, se salta imediatamente de criança para velho. Nunca são adultos em termos de maturidade, responsabilidade. Gelados, como o exemplo número um da coisa mais maravilhosa do mundo para uma criança, não tenho dúvidas que sim! O açúcar contém esta coisa, como o vinho, que nos aquece, que nos mima. Mas, pelo menos, em adultos, temos de ter a consciência do quanto gostávamos de gelados. Isto é o mínimo! Depois, sermos capazes de continuar a gostar muito de gelados em adultos? Depende… acho que sim, porque o açúcar é viciante! Agora, saber que gostamos e celebrar esse gostar é que eu acho que é arte! Um amigo meu, espanhol, um bailarino maravilhoso, muito sensorial, dizia sempre que nós não podemos perder oportunidade nenhuma de celebrar tudo o que comemos. Ele fazia sempre aquele som de “hummm” quando saboreava algo. Lembro-me sempre disto! Estas pequenas coisas que vamos perdendo ao longo da vida… só porque nos esquecemos de as praticar! Considero que a felicidade é algo que se constrói, é algo que alguns têm maior propensão para alcançá-la do que outros, mas é algo que se pratica. É como praticar abdominais, é como praticar matemática… tem de se praticar! É fácil, com a idade, irmos ficando mais tristes. Vamos ficando com menos energia, até porque a gravidade nos vai puxando para o solo. A minha avó tem 98 anos e, para mim, é uma lição vê-la vibrar com a minha sobrinha com quase um ano. Vê-la a olhar para a televisão, a ler os rodapés das notícias e dizer “Brexit? Atinem com o Brexit porque eu estou farta do Brexit”, é maravilhoso. Esta sua ligação à vida que faz com que, com 98 anos, ela esteja preocupada com uma coisa chamada Brexit é fascinante! É o tal hino à vida.

“Sermos capazes de continuar a gostar muito de gelados em adultos? Depende… acho que sim, porque o açúcar é viciante! Agora, saber que gostamos e celebrar esse gostar é que eu acho que é arte!”

Estas abordagens têm tornado este monólogo um desafio exigente para si?

O Nick Cave tem um blog onde escreveu uma carta a explicar o que achava que era o público. É profundíssimo! Eu já vi dezenas de concertos de Nick Cave, exatamente por tudo aquilo que ele escreveu nessa carta e por tudo aquilo que ele me faz sentir. O desafio deste trabalho é um bocadinho aquilo que o Nick Cave fala: é sair da frente. Ou seja, como é que eu posso estar ali sem estar a comandar? Dirigindo, mas sem obrigar. Como é que eu posso estar ali a pensar alto, mas permitir que tu também penses alto e, se tiveres alguma coisa para dizer, que o digas?! E isso, nos dias geniais, tem acontecido nesta peça. As pessoas interrompem-me! Querem dizer coisas. E eu não podia ficar mais feliz! Eu imagino-me a mim a interromper um ator em palco e penso: “a que estado é que eu teria de chegar para ganhar a coragem de dizer ‘Desculpe, quero só partilhar que…’ à frente de uma plateia?! Para isso acontecer é porque há uma verdade qualquer ali, uma verdade que não sou só eu que a crio. Somos nós todos que a criamos. É essa comunhão de estarmos juntos. Para mim, essa é a dificuldade neste monólogo. É o meu desafio.

O Ivo mencionou anteriormente, numa conversa sobre este monólogo Todas as coisas maravilhosas, que a sua “voz interior não engrossou” e talvez seja por isso que representar uma criança de sete anos que vê a mãe a passar por uma depressão não seja difícil. Ainda pensa certos assuntos como uma criança?

Eu acho que não! (risos) Não sei se isso é possível. Acho que pode existir algum complexo de Peter Pan, apesar de isso ser algo diferente. Cientificamente, o complexo de Peter Pan poderia ser a razão para a voz não engrossar, mas eu acho que nós todos, de manhã, engrossamos a voz… para não sermos pisados! Não dá para estarmos com floreados na voz ao dizer “Olá, tudo bem?”. É necessário ser assertivo para dizer “Olá, tudo bem? O que precisas?”. Todos nós fazemos esse número da voz grossa. É teatro social. Mas, às vezes, acreditamos e pensamos que aquela é mesmo a nossa voz. No entanto, eu penso que há outra, que é muito mais fina e descontrolada – eu sinto-me bastante em contacto com essa voz, para o bem e para o mal! (risos)

Fotografia ©Nuno Sampaio

Estará no Hard Club no Porto até dia 27 de maio. Depois, segue novamente para Lisboa, no final de setembro. Esta é, de alguma maneira, um regresso seu aos palcos e logo num registo de monólogo, apesar de todo o envolvimento do público na peça. Como tem sido esta experiência?

Tem sido incrível! Fiz o meu primeiro monólogo na escola, há muitos anos. O último espetáculo que eu tinha feito em teatro tinha sido um texto de August Strindberg chamado Credores, em Lisboa. Eu não encontro particular diferença neste trabalho por estar sozinho em palco. Eu acho que nós estamos sempre sozinhos, aqui dentro de nós próprios. Estamos dentro desta nossa bolha e andamos sempre a tentar chegar ao outro. Metaforicamente, as relações sexuais são essa concretização física de tentarmos perceber o que está ali. O monólogo é um bocadinho isso. A minha contracena é o público. Não sinto que esteja sozinho. Como eu não estou a criar uma realidade paralela, porque eu estou ali naquela sala a falar diretamente com o público, não sinto que estou num monólogo a falar para um vazio. Aqui estamos todos a criar uma realidade, que não é total, porque é uma história sobre uma realidade. Neste aspeto, é mais uma conversa do que um monólogo.

Esse anseio de explorar estas conversas com um público que não o deixa sentir-se sozinho em palco, despertando a consciência para realidades que existem ao nosso lado, é o objetivo principal neste trabalho?

Eu vim aqui parar por acaso, não houve um pré-pensamento que indicasse que eu queria abordar estes temas agora. Nada foi planeado… mas, já que estamos aqui agora, que tal falarmos sobre isso, que tal pensarmos sobre isto juntos? É esse o maior objetivo. O Jorge Silva Melo diz que “pensar é estar com gente… pela noite dentro pensar”. O teatro é um bocadinho isso, é pensar juntos. Eu gosto de questões sociais, mas não tenho um objetivo concreto de agora falar sobre determinado tema. Há vários temas que me interessam, por exemplo, tabus como a sexualidade na terceira idade. É um tema interessantíssimo! Penso que são questões que dão sempre boas narrativas e bons espetáculos. E precisamos disso!

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