Revista Rua

2021-02-15T11:07:44+00:00 Cultura, Música, Personalidades

Janeiro, a voz sem título e com receio da efemeridade

O música está em entrevista na RUA.
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto19 Janeiro, 2021
Janeiro, a voz sem título e com receio da efemeridade
O música está em entrevista na RUA.

Natural de Coimbra, Henrique Janeiro rumou até à capital com um objetivo: estudar Musicologia. Formou-se e anos mais tarde levou a sua “(sem título)” até à final do Festival da Canção, em 2018, tema esse que viria a integrar o primeiro álbum de originais, Fragmentos, um disco de amores-desamores inteiramente escrito pelo artista. Com o lançamento do segundo álbum, curiosamente intitulado por Com Tempo Sem Tempo – uma aliteração que descreve profundamente a situação de isolamento social no momento de transcrição desta entrevista – Janeiro apresenta-nos o propósito deste disco: “uma crítica à efemeridade que estamos a viver, à velocidade com que estamos a fazer as coisas e à forma como isso nos desumaniza”.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Gostávamos de começar esta entrevista por conhecer o início da tua ligação com a música. Sabemos que os teus pais te deram um impulso para seguires uma carreira profissional na música, mas que importância teve isso para ti? A música era um percurso inevitável?

Eu adorava música e sempre toquei, para aí desde os 13 anos, que foi a altura em que o meu pai me deu um violino. O meu pai tocava piano clássico, às vezes, mas nunca nada sério. Mas quando recebi o violino decidi trocá-lo por uma guitarra, porque achava que um violino não era um instrumento para rapazes… o que atualmente, para mim, é a coisa mais absurda de sempre. Comecei a tocar guitarra, tive aulas, formei uma banda com uns amigos e, entretanto, chego àquela data da decisão “parva” que a sociedade impôs para nós: a faculdade. Na altura, eu estava em Economia e disse à minha mãe que ia seguir Gestão no ensino superior e ela disse-me: “Não. Vais fazer aquilo que tu gostas”. Foi neste sentido que os meus pais tiveram um impulso muito importante, porque por norma os pais têm receio e acabam por dizer: “Música não!”. A minha mãe sempre me disse para seguir o que gostasse, mesmo que fosse culinária.

Não seguiste Gestão, mas sim Musicologia. Que particularidades tem este curso?

Sim, eu fui para a Universidade NOVA de Lisboa, para a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. É um curso normal, de três anos. É muito teórico e, na altura, achei um pouco seca, na verdade (risos) Mas retirei imensa coisa importante! Eu acho que qualquer miúdo de 18 anos não está muito virado para estudar e sente falta de um certo impulso, de uma parte mais prática. Ao mesmo tempo que tirava o curso, estava também no Hot Clube, que é uma escola de jazz, em Alcântara, e que me dava a parte prática que me faltava. Acabei por estar a fazer os dois cursos ao mesmo tempo e foi uma loucura, porque nunca conseguia estar nos dois lados em simultâneo, mas correu muito bem. A NOVA permitiu-me conhecer muita gente importante, como o Manuel Palha, que é o guitarrista dos Capitão Fausto, e de repente estás a conviver com eles e a descobrir mundos diferentes. Tínhamos também várias cadeiras da História da Música e eu fiz uma coisa curiosa, que aconselho: o meu curso permitia trocar seis cadeiras com outros cursos. Comecei a estudar Estudos Pessoanos e passei a estudar Fernando Pessoa a fundo ou Literaturas Marginais, com o Rui Zink, e até vídeo. Uma data de coisas que não têm diretamente a ver com música, mas que depois influenciam tudo aquilo que tu és.

Saíste de Coimbra com rumo à capital. O que é que Lisboa te trouxe, a nível pessoal e profissional?

Primeiro, trouxe-me uma perceção alargada do que é a vida e, depois, uma conexão com pessoas que eu nunca encontraria fora daquela cidade. Sinto-me mais conectado com o mundo e acho que o país está muito centralizado em Lisboa – e no Porto também.

Percebemos que as tuas referências musicais alternam um pouco entre John Mayer e Rui Veloso, correto? Quem são as tuas referências musicais e que importância têm para a tua música?

(risos) Agora já é mais confuso, mas, sim, o John Mayer será sempre. Eu sou um bocado de tudo: tanto sou um Moodymann que faz house, como sou um John Coltrane que toca jazz ou um João Gilberto da bossa-nova… Acho que a minha música está a beber um bocadinho dessas influências todas. É também um reflexo desta globalização e informação, na qual nós podemos aceder a qualquer momento aos discos todos que existem no mundo, o que nunca aconteceu antes na História da humanidade.

Consideras que todas essas referências contribuíram para o artista que és hoje?

Sim, ajudaram muito e trouxeram o seu som ao meu, que é uma coisa curiosa. Nas minhas músicas ouve-se um pouco de Frank Ocean, um pouco de António Variações… e acho que é aí que está a evolução!

Fotografia ©Nuno Sampaio

O teu próprio álbum Fragmentos é precisamente esta junção de referências?

Exatamente. Fragmentos em dois sentidos: primeiro, porque era muito desfragmentado em termos de género musical e também porque é uma junção de muita coisa. Para mim, hoje em dia, um artista é muito mais isso do que propriamente juntar um álbum com grandes canções. Quando estou a ouvir um disco, gosto precisamente de pegar em fragmentos da vida do artista e certas particularidades dele.

Consideras que a reação ao teu disco Fragmentos foi positiva até agora?

Sim, tem sido fixe! Eu aproveitei o Festival da Canção como rampa de lançamento do álbum e correu bem porque, na altura, a minha agência também ganhou um boost importante. Foi o caso da canção “(sem título)”, que acabou por também ser implementada no álbum.

Dizes que foi aos 18 anos que passaste a escrever em português, porque foi nessa altura que começaste a respeitar a tua língua. O que te impulsionou para escreveres em português?

Eu tinha uma banda em Coimbra e escrevia sempre em inglês. Comecei a escrever em português por causa do B Fachada e do Samuel Úria. Eu sempre senti que tinha uma inspiração que vinha de algum lado, mas sem nunca perceber de onde vinha ao certo. Tinha um amigo que se juntava comigo num centro cultural lá em Coimbra – que é uma cidade muito inspiradora – e sentávamo-nos para compor num piano mesmo velho e era lá que fazíamos imensas músicas. Na altura, tinha amigos que já escreviam em português, mas eu ainda não e eles puxavam muito por mim. Até que um dia escrevi um poema, depois fiz uma canção para esse mesmo poema e vou ter com o Samuel Úria ao Arte à Parte. Eu ainda não o conhecia, mas ele estava lá a tocar. O concerto tinha duas partes e,  no intervalo, eu perguntei-lhe se, na segunda parte, poderia tocar uma canção e ele deixou-me. Foi a primeira vez que toquei uma canção ao vivo em português.

O que sentiste a partir do momento em que passaste a cantar em português? Passou a ter outro sentido?

Eu acho que é mais real. É uma extensão de mim próprio. Eu posso estar aqui a cantar “E tu que me dizes amor?” Acho que faz mais sentido do que agora dizer “And now what you say about me?” É mais estranho. Em inglês não há aquela vergonha do momento presente e de sentires que aquilo que estás a dizer é mesmo verdadeiro.

A par da pandemia, sentes que a música portuguesa em termos de criação está a passar por um momento de glória?

Sinto. O hip hop, principalmente, está a fervilhar. Não só os artistas, mas os próprios meios e a indústria da música está a organizar-se de uma forma consistente, porque houve um período de adaptação ao digital que não lhes estava a permitir avançar e estava tudo a meio gás. Depois também há uma grande disparidade geracional, porque há uma série de músicos que já têm certo estatuto e, quando ganham esse mesmo estatuto, já quase que podem falar desse papel de “sou um artista português contemporâneo”. É diferente.

Mergulhando agora no teu Fragmentos, que fragmentos de ti procuraste explorar?

Histórias de amor. São basicamente amores e desamores meus. Foi tudo escrito por mim e é quase um aglomerar de ideias sobre acabar uma relação, começar outra ou ideias sobre uma pessoa. Não sei se as pessoas sabem, mas a própria canção “(sem título)” é um poema enorme que eu escrevi, tem uma página e meia.

Fotografia ©Nuno Sampaio

“Eu sou um pouco imediatista, não no sentido de efemeridade, mas fico cansado das coisas muito rápido e tenho medo de sentir que fico farto de tocar uma certa música (risos)”

Acabas por escrever também para muitos outros artistas. O que é que esta parte do teu trabalho te proporciona?

Sim, já escrevi para a Ana Bacalhau e também para a Ana Moura, uma canção que vai sair no seu novo álbum. Por acaso, eu acho que sou mais voltado para a produção, embora agora também esteja à frente, a cantar. É diferente, apenas porque o processo de fazer as coisas é diferente, mas também é muito bom de se fazer. Eu nunca componho nada para ninguém que eu não conheça a sua vida. Tem de ser para alguém com quem eu me identifique. O tema que escrevi para a Ana Bacalhau é sobre o facto de ela ter tido uma filha, por exemplo. Não consigo pegar num tema que já tenha feito há mais tempo e entregá-lo a alguém.

Nas tuas Janeiro Sessions Live Tour convidavas um artista diferente a subir a palco contigo. Como é que foi essa experiência?

Foi muito fixe e tivemos concertos muito bons. O mais incrível dessa ideia é o facto de poder ser tudo improvisado, porque o conceito é mesmo trazer os músicos, haver uma lista de canções que nós já naturalmente tocamos, mas não fazemos a mínima ideia do que vai acontecer. Não há ensaios, a menos que o músico me peça, como aconteceu com a Ana Bacalhau, mas por norma não há.

Para que artista gostarias de um dia escrever uma canção?

Ui… diria Frank Ocean, talvez!

E quem convidarias para uma próxima tour de Janeiro Sessions?

O Rui Veloso! Acho que ia ser divertido, no mínimo, porque eu conheço os sons todos e, por isso, não ia precisar de ensaiar nada.

Como olhas para este teu crescimento enquanto músico?

Eu tenho tentado ir devagar. Claro que o Festival da Canção foi um boom enorme, mas quero que seja sempre devagar. Quando eu era um miúdo aconteceu-me uma coisa engraçada: eu estava no primeiro ou no segundo ano, já não me recordo ao certo, e os meus professores queriam passar-me logo para o quarto ano, porque diziam que eu já sabia tudo. Mas a minha mãe nunca deixou que isso acontecesse e eu também nunca vou deixar que isso aconteça na minha música. É uma coisa que socialmente não faz sentido para mim.

Podes falar-nos do novo álbum, Com Tempo Sem Tempo?

Foi um álbum todo escrito por mim e tem mais de 20 músicas. Este Com Tempo Sem Tempo é uma crítica à efemeridade que estamos a viver, à velocidade com que estamos a fazer as coisas e à forma como isso nos desumaniza. O disco divide-se em duas partes: um lado A para se ouvir com tempo, em que sou só eu e a guitarra, e um lado B para se ouvir sem tempo, no qual surgem as mesmas músicas, mas produzidas.

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