Revista Rua

2020-10-27T18:31:51+00:00 Cultura, Literatura

Joana Amaral Dias escreve livro sobre maior catástrofe portuguesa após o Terramoto de 1755

“Dilúvio sem Deus” de Joana Amaral Dias recupera a maior catástrofe portuguesa após o Terramoto de 1755, cujo horror moderno poderá será comparável aos incêndios de 2016, mas cujos impactos psicológicos podem ser perpetuados a vários eventos recentes.
Queluz, Cheias 67 - Imagem Arquivo
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva27 Outubro, 2020
Joana Amaral Dias escreve livro sobre maior catástrofe portuguesa após o Terramoto de 1755
“Dilúvio sem Deus” de Joana Amaral Dias recupera a maior catástrofe portuguesa após o Terramoto de 1755, cujo horror moderno poderá será comparável aos incêndios de 2016, mas cujos impactos psicológicos podem ser perpetuados a vários eventos recentes.

Em fevereiro de 2008 no concelho de Sintra, após algumas horas de chuva intensa, duas mulheres foram arrastadas dentro do automóvel onde seguiam pelas águas do Jamor, quando o nível do rio galgou em força o pequeno muro que separava o leito da Estrada Nacional 117 entre Queluz e Belas. Ambas perderam a vida.

41 anos antes desta ocorrência, em novembro de 1967, um evento atmosférico associado a uma depressão que se abateu sobre Portugal, mais concretamente sobre a região da grande Lisboa, terá sido a causa de morte de mais de 500 pessoas, conforme os relatos da época, não sendo por isso números oficiais. Santarém, Loures, Odivelas, Amadora e a raia de Lisboa, desde Algés, Benfica, Pontinha, Caneças, Alenquer, Vendas Novas, Queluz, Belas até Carenque, foram as zonas mais afetadas pela intempérie, embora muitas outras regiões tivessem igualmente reportado incidentes. Onde hoje encontramos aglomerados de prédios, junto à CRIL, por exemplo, ou seja, as zonas de Alfornelos e Brandoa tinham na altura, também se tornado num traçado de lama e morte, pois encontravam-se, tal como agora, sobre uma zona designada como planície de inundação, associada aos vários cursos de água, rios e ribeiros, que atravessam a periferia de Lisboa, desaguando no Trancão e, por destino final, no Tejo.

Contudo, ao voltarmos atrás na História, relendo os relatos, lendo e revendo as notícias e principalmente ao olharmos para as fotografias do antes e depois da catástrofe, podemos associar os números de mortandade não somente às chuvas, que por acaso até foram mais significativas em valores pluviométricos na zona de Cascais e Estoril, mas sim a todo um fenómeno de origem social e económico, numa época em que o êxodo do interior para as cidades estava em crescimento exponencial, numa época em que a pobreza ficava à margem das principais cidades, dos órgãos governamentais, e ingratamente, às margens dos rios.

Joana Amaral Dias, psicóloga e professora universitária, tendo em consideração que uma das principais consequências da pandemia que hoje atravessamos será associada a doenças psicológicas, escreveu no seu Dilúvio sem Deus a forma como a informação da época foi parcialmente negada à população portuguesa, como a fratura social gritante foi sendo limada na alvorada dos dias que seguiram a intempérie, principalmente quando os jovens de classe média foram os primeiros a chegarem aos locais mais afetados em auxílio das populações.

Por outro lado, à época, os enterros rápidos de dezenas de pessoas, cujas famílias sobreviventes mal tinham tempo de identificar, criaram uma sombra de raiva e quase dúvida sobre se o que tinha acontecido realmente aconteceu. Joana afirma no seu livro que um dos principais problemas atuais é igualmente a negação ao luto coletivo – quando os funerais não permitem mais do poucos membros de família se despedirem do seu ente querido, o que sobra é um vazio emocional muito grande. Na altura, além do número de mortos, a logística não permitia quaisquer celebrações fúnebres. Criou-se também em muitos dos sobreviventes a sensação de culpa por terem sobrevivido à família, tal como hoje, por não terem sido eles as vítimas, por não terem sabido salvar quem mais amavam.

Cheias associadas a grandes chuvas são comuns no nosso país a uma escala de dezenas de anos, geralmente ocorrendo entre novembro e fevereiro, com casos esporádicos noutras épocas do ano. Mortes associadas a cheias que, por sua vez, estejam associadas a zonas que não deveriam ser habitadas é outra conversa. Além de tudo o que Joana Amaral Dias pretende igualmente referir, é que independentemente do que o governo de Salazar quis omitir, ou seja, a existência de barracas onde famílias com mais de cinco pessoas no agregado familiar viviam, hoje em dia, a irresponsabilidade política e autárquica continuam bem vivas. Um dos exemplos encontra-se na aldeia de Quintas, no Ribatejo, onde praticamente mais de metade da população desapareceu nas águas turvas do Tejo nesse ano de ´67. Hoje, precisamente nos mesmos locais das antigas casas, junto ao curso de água principal, existem habitações de dois andares, de gente que certamente já não será nem tão pobre, nem tão desinformada. Em Belas, o troço que durante décadas foi apelidado por estrada “da vergonha”, e que faz parte de uma das principais ligações ao centro de Lisboa, fazendo percurso entre Pêro Pinheiro a Alfragide, somente em 2019, 11 anos depois das mortes das duas mulheres, é que viu a sua reabilitação finalmente concretizada. Em redor vêem-se prédios e a CREL passando por cima. O grande problema é que a maioria das construções suburbanas realizadas desde os anos 60, numa resposta rápida à procura de habitação por um cada vez maior fluxo de pessoas, tanto na Grande Lisboa como no Grande Porto continuaram a ser feitas em áreas extremamente perigosas, muitas delas nunca requalificadas.

Queluz, Cheias 67 - Imagem Arquivo

Dilúvio sem Deus não pretende, contudo, ser apenas um livro de relato histórico ou um revivalismo aos anos 60/70, embora também o seja, mas pondera ser um alerta de consciência social e cívica. Mais uma vez em analogia, a pandemia durante alguns meses, foi também constrangida aos subúrbios das grandes cidades, como se a culpa fosse apenas dos que neles habitam, não raramente apelidados na comunicação social nacional como sendo pertencentes a uma classe social carenciada senão mesmo pobre. Ou como se todos os que neles habitam não pudessem ser também de uma classe social mediana, “expulsos” de conseguirem morar nos centros citadinos por um excesso de preços habitacionais, o que igualmente provocou e ainda provoca revolta social ainda que de uma forma mais contida.

Quando em pleno século XXI, já a caminhar a segunda década, o ordenamento do território continua a permitir elitismos, segregações, fosso de classes sociais, a verdade é que será fácil perceber que qualquer evento natural extremo, será tanto mais negativo, quanto menos possibilidades terão algumas populações em lhe fazer face, geográfica ou economicamente, mais ainda quando não têm um governo local que as possa defender.

Dilúvio sem Deus deverá assim ser lido na perspetiva atual, e ao leitor poderia pedir-se que fizesse uma comparação com o habitat onde se insere e com o contexto que o rodeia. Só assim será possível haver um maior alerta individual mas que poderá evoluir para uma maior consciência coletiva. No fundo, uma forma de prevenção.

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