Revista Rua

Joana Ribeiro e as voltas que a vida dá

A atriz Joana Ribeiro em entrevista [com vídeo].
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira11 Março, 2020
Joana Ribeiro e as voltas que a vida dá
A atriz Joana Ribeiro em entrevista [com vídeo].

Quis ser astronauta, ingressou num curso de Arquitetura e deixou-se levar pelo bichinho que lhe dizia, timidamente, para experimentar ser atriz. Hoje, com 27 anos, Joana Ribeiro é um nome que é sinónimo de talento, uma atriz que brilha em novelas, séries e filmes de realizadores consagrados. Num dia de chuva, sentámo-nos à conversa com a atriz portuguesa que, apesar de abraçar produções internacionais de relevância, continua a querer ter pé (e coração) em Portugal.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Gostaríamos de começar esta entrevista com um elogio: aos 27 anos, a Joana é uma atriz com um currículo invejável, é presença frequente nas novelas dos canais televisivos nacionais, faz séries e outras participações em projetos internacionais. Uau! No entanto, este percurso não foi a sua primeira escolha, correto? É verdade que quis ser astronauta?

(risos) Astronauta foi a primeira profissão que eu me lembro de querer ter quando era mais nova. A questão de descobrir novos planetas, de estar perto das estrelas, não sei… tinha um romantismo associado! Na verdade, eu cheguei a estudar Arquitetura, aliás, ainda gosto muito de Arquitetura e Design. O meu pai é engenheiro civil, então, para mim, pareceu-me natural esse percurso. Contudo, quando estava no curso de Arquitetura, na Faculdade de Arquitetura de Lisboa, senti que não era ali o meu lugar. É um curso muito exigente a nível de horas e trabalhos. Fiz muitas diretas a fazer trabalhos! Acho que, como em tudo na vida, a Arquitetura é uma área em que realmente se tem de gostar ou torna-se complicado. Na altura, o meu pai sugeriu que eu experimentasse outra coisa. Lembro-me de os meus pais me dizerem para eu fazer cursos de teatro, mas eu dizia sempre que não porque, na minha ignorância, pensava que em Portugal só se faziam novelas e, se eu quisesse mesmo ser atriz, não poderia ser em Portugal. Eu era um bocado snob em relação à televisão, erradamente! Fui sempre adiando, mas de repente surgiu uma hipótese de fazer um workshop em Nova Iorque, numa escola de cinema, e foi lá que percebi que queria muito experimentar. Foi muito positivo porque vários professores me disseram que eu devia investir nesse percurso e, então, decidi tentar para ver no que dava. Voltei a Portugal e comecei a procurar escolas em Inglaterra, na Escócia, em França, nos EUA, comecei a enviar cartas para me inscrever e, um dia, o meu pai fala-me sobre um casting para uma novela e incentiva-me a ir. Eu pensei “porque não?” e arrisquei. Foram várias fases de casting, eu fui passando, até que houve um casting que era uma conversa com a diretora de atores, Lais Corrêa, e aí percebi que a minha ideia sobre a televisão era estúpida. Fiquei com vontade de trabalhar com ela e com os outros atores e pensei: “Se a vida me está a trazer isto logo no meu primeiro casting, tenho mesmo de experimentar”. O pior que podia acontecer era eu não gostar, mas aí voltava para a Arquitetura ou ia estudar para fora. Mas lá fiquei com o papel e foi aí que começou tudo, na novela Dancin’ Days.

Nesse primeiro papel, teve logo a companhia de dois pesos pesados da representação nacional, a Soraia Chaves e a Joana Santos. Foi um grande apoio? Começar logo com elas?

Sim, não só com elas, mas também com a Victória Guerra. Eu tive muita sorte com as pessoas que conheci no meu primeiro projeto. Foram as pessoas para quem eu olhei e me serviram de exemplo. Se tivessem sido outras pessoas, podia ter corrido muito mal! (risos) Sinto que elas foram as minhas “madrinhas” e muitos dos conselhos que ainda hoje eu tento seguir foram-me dados por elas. O facto de ter algum cuidado com a minha vida privada, a escolha de papéis, a forma como encaro a profissão foram coisas que me foram ensinadas por elas. Elas são excelentes atrizes e pessoas incríveis! Sei que o facto de eu ter a ideia que tenho desta profissão e ter este método de trabalho deve-se muito a elas.

Falou-nos da exigência de ser atriz e da necessidade de existir uma separação entre vida pessoal e profissional. É difícil para si fazer essa separação?

Não, eu sempre fui muito cuidadosa com a minha vida privada. Naturalmente, há pessoas que gostam de partilhar mais – e respeito essa opção -, mas acho que temos de ser fiéis a nós próprios: eu não vou partilhar o meu dia numa rede social se isso não é uma coisa com a qual me identifique.  Simplesmente não é o caminho que quero seguir. Hoje em dia, o conceito de celebridade é um bocado perigoso… as pessoas já não vão ver filmes pelo trabalho do ator, mas sim porque o acham simpático ou por outros motivos. Eu não vou contratar um advogado porque ele é muito simpático! (risos) Se eu precisar de um advogado, quero contratar o melhor advogado possível. Ser ator não deixa de ser um trabalho. Claro que é muito bonito estarmos na casa das pessoas todos os dias ou nas salas de cinema, mas ao mesmo tempo eu não quero que as pessoas queiram ver o que eu faço por eu ser muito simpática. Quero que se esqueçam que eu sou a Joana e que acreditem nas minhas personagens! Só consigo fazer isso se as pessoas não me conhecerem pessoalmente. É uma linha muito perigosa porque basta errar em alguma coisa para a pessoa ser erradicada do meio. Principalmente nos dias de hoje, é preciso ter muito cuidado com o que se faz e o que se diz, porque um passo em falso pode terminar uma carreira.

A Joana está envolvida no meio da representação nacional e, nos últimos anos, temos visto produções portuguesas com um nível de qualidade muito bom. Já ganhamos prémios, inclusive. Como vê a atualidade da produção nacional, principalmente no que diz respeito a novelas e séries? Estamos num bom caminho?

Penso que sim. Há alguns aspetos que considero que temos de mudar, principalmente a nível de trabalho nas novelas porque realmente são muitas horas, muitas cenas por dia e o grau de exigência é muito alto. Por vezes, torna-se difícil conjugar outros projetos. Felizmente, no meu caso, sempre me deram oportunidade para conjugar o meu trabalho com outros projetos – internacionais, por exemplo -, mas há atores que gravam seis dias por semana, 12 horas por dia e têm que dizer que não a projetos interessantes. Acho que as pessoas não têm noção da exigência que é fazer uma novela: chegamos a fazer 30 cenas por dia, muitas vezes temos de fazer as cenas à primeira para cumprirmos timings, temos de decorar muito texto… a energia que é gasta é enorme! Mas acho que estamos num caminho interessante e temos vindo a descobrir o nosso lugar na ficção. Tal como Pedro Almodóvar é a imagem do cinema espanhol, acho que estamos numa fase em que devemos perceber que tipo de filmes devemos fazer. Por exemplo, em Portugal há muito cinema de autor, que percorre festivais, e há também cinema comercial. É importante também haver outro tipo de cinema que possa ser comercial e, ao mesmo tempo, tenha características do cinema de autor. Cada vez mais temos feito isso e são raros os anos em que não temos um filme em festivais internacionais a ganhar prémios, com atores a serem reconhecidos. Acho que é uma boa altura para a profissão em Portugal! Há cada vez mais orgulho em ser português e o exemplo disso é o filme Variações, que levou 200 mil espetadores ao cinema. É um marco gigante! Já a nível de séries, no ano passado tivemos projetos incríveis, como Três Mulheres. Temos tudo para continuar a fazer coisas do género e a descobrir o nosso lugar.

Depois, iniciativas como o Passaporte têm ajudado imenso os atores portugueses a trabalharem lá fora. Acho que é tudo um ciclo. Penso que se um de nós sair para um projeto internacional é bom para todos, não tem de haver competição. Há lugar para todos! Cada um tem o seu caminho e não há percursos melhores do que outros… há só percursos diferentes. E isso também é importante.

A verdade é que a Joana já teve oportunidade de fazer projetos lá fora. Como se sente em relação a isso?

Estou muito contente e muito agradecida! Nunca pensei que ia ter a oportunidade de fazer o que tenho feito. Tudo começou no dia em que o Paulo Branco anunciou que ia produzir o filme do Terry Gilliam, que estava há mais de 20 anos para ser feito. De repente, eu fiquei com o filme e isso abriu-me imensas portas. Tudo começou com Portugal, foi tudo por Portugal e eu fico muito contente com isso. Através do Passaporte conheci um diretor de casting que apostou em mim para a série da Amazon e agora para este filme do Antoine Fuqua (Infinite). Consegui um agente em Inglaterra graças ao filme do Terry… As coisas encaminham-se todas, vêm umas atrás das outras… comigo tem sido assim e sinto que tenho crescido muito enquanto mulher e profissional da área. Contudo, eu quero continuar a apostar na minha carreira nacional, não vejo a carreira internacional como sendo algo melhor. Isso é uma ideia errada. O objetivo de um ator nunca deveria ser ir para fora. O meu objetivo enquanto atriz é trabalhar lá fora, mas também fazer com que a profissão em Portugal cresça. Se me surgir um projeto melhor em Portugal, ótimo! Eu quero trabalhar, envolver-me em projetos em que acredito e me deixem orgulhosa, projetos onde eu possa aprender com profissionais. No fundo, isso é que importa. Claro que também é importante, a nível financeiro, os projetos terem sucesso (risos) Mas todo o processo, que é incrível, é que é importante. Quando eu pensar nos projetos na lógica de benefício, no que aquilo que me vai trazer a seguir, acho que não vou dar tanto valor.

Fotografia ©Nuno Sampaio

“Estou muito contente e muito agradecida! Nunca pensei que ia ter a oportunidade de fazer o que tenho feito.”

Depois destas experiências internacionais, com produções em grande escala, dá mais valor ao trabalho que se faz cá em Portugal? Acha que conseguimos fazer algo bom com pouco tempo e dinheiro?

Sim, eu acho que sim – aliás, é esse o nosso problema, é mostrarmos que somos capazes de fazer bem com pouco (risos). Mas sim, dou muito valor. Nas produções internacionais, confesso que fico em choque! Nós atores só temos de nos preocupar com chegar ao set, fazer o nosso trabalho e ir embora. Mais nada! Em Portugal, as equipas são mais pequenas, há menos dinheiro e, por isso, acabamos todos por nos envolver muito mais no processo. Estamos dispostos a tudo! São formas diferentes de trabalhar, de abordar o meio. Mas dou muito valor àquilo que fazemos cá. O facto de fazermos os filmes que temos feito, com pouco dinheiro e apoios, é admirável!

Fotografia ©Nuno Sampaio

A Joana esteve presente na iniciativa do Ymotion – Festival de Cinema Jovem de Famalicão. Como vê esta aposta no cinema jovem?

É uma ótima iniciativa! O Ymotion aguça a curiosidade sobre cinema português, dá vontade de ver novos realizadores portugueses e mostra que há pessoas novas a acreditarem que há possibilidade de fazer algo, de construir carreira na área. Isso é muito importante porque, às vezes, temos a ideia de que é impossível ser-se realizador ou ator em Portugal. Não é impossível. Faz-se! Infelizmente, vivemos num país em que as pessoas não vão ao cinema, não temos uma bilheteira enorme, mas creio que isso é um trabalho que temos de iniciar… e tudo começa nas escolas, na educação, no tornar normal ouvir português no cinema. Temos de aprender a gostar de nós próprios. Eu tenho amigos que se recusam a ver cinema português e isso tem a ver com a falta de hábito! Eu contra mim falo: eu comecei a ver cinema português quando comecei a trabalhar na área. Há muita gente como eu, que não teve esse hábito desde criança. Mas depois vejo um filme como Vale Abraão, de Manoel de Oliveira, e fico espantada! A Leonor Silveira é uma atriz maravilhosa!

“O facto de fazermos os filmes que temos feito, com pouco dinheiro e apoios, é admirável!”

Nesta fase, ainda tão jovem, já se fazem planos para o futuro? Quiçá um percurso na realização?

Gostaria de experimentar, um dia. Interessa-me bastante e gosto de saber os planos, gosto muito de reparar nas várias linguagens dos realizadores. Por exemplo, eu quando era mais nova ia ao cinema porque gostava do trabalho de um ator. Hoje em dia, vou por gostar dos realizadores. O trabalho dos realizadores é incrível! Mas acho que eu não tenho o que é preciso para o ser. Gosto muito do papel de ator, porque nos moldamos a cada realizador. Somos maleáveis! O trabalho de realizador é uma responsabilidade muito grande que eu não sei se algum dia vou estar preparada para a ter.

A nível de futuro, confesso que não gosto muito de pensar nele… A vida dá muitas voltas! Por exemplo, eu sempre quis estudar e nunca aconteceu ter tempo para estudar três anos como queria. As coisas acontecem quando menos esperamos, por isso, mais vale não fazer planos. Eu quero continuar a trabalhar, principalmente com pessoas que me inspirem. Há imensos realizadores com quem gostava de trabalhar, imensos atores com quem ainda não contracenei, muitos projetos que gostava de fazer em Portugal…  Eu trabalho há sete anos e sinto que já fiz muita coisa, mas também há muita coisa que não fiz! (risos) É surreal! Nesta profissão, há muita coisa para fazer, muitas pessoas novas a surgir. É muito entusiasmante! Penso que é uma altura muito entusiasmante para trabalhar nesta área. Há muita coisa a acontecer!

 

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