Revista Rua

2019-07-17T18:04:12+01:00 Cultura, Outras Artes

Joana Vasconcelos, uma deusa para sempre questionada?

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Fotografia ©Nuno Sampaio
Redação25 Junho, 2019
Joana Vasconcelos, uma deusa para sempre questionada?
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Vibrante, apelativa, surpreendente, fragmentária, disparatada, violenta, incómoda, excessiva. Estas são apenas algumas palavras que se ouvem quando se descreve Joana Vasconcelos, a artista plástica portuguesa que regressou ao Porto, a Serralves, para uma mostra antológica que pôde ser visitada até 24 de junho.

Esta reportagem é parte integrante da Revista RUA Printed Edition#32.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Em 2005, o nome Joana Vasconcelos entrava pelas nossas casas sem permissão, fazendo parte dos telejornais que destacavam um feito inédito para uma portuguesa: Joana Vasconcelos era a primeira mulher a expor na 51ª Bienal Internacional de Arte de Veneza. A partir daí, a figura de uma Joana Vasconcelos extravagante, que corrompia objetos que nos eram familiares, dando-lhes nova vida de forma improvável, tornou-se símbolo de uma arte contemporânea de vertente maioritariamente pop, surpreendendo pela magnitude e chocando pela ousadia. Apelidada de romântica e disruptiva – e ao mesmo tempo de louca, num significado de loucura que nos mostra a ausência de cobardia -, Joana Vasconcelos foi recolhendo afetos por todo o mundo, mas continuou a ser questionada no país que a inspira: Portugal. Mesmo depois de se ter consagrado a primeira portuguesa e a artista mais jovem a expor no imponente Palácio de Versalhes, batendo recorde de visitas dos últimos 50 anos (1,6 milhões de visitantes em apenas três meses), a artista plástica continuou a ser vista como um caso de estudo: que arte é esta? Em I’m Your Mirror, que chegou a Portugal depois de uma passagem pelo Museu Guggenheim de Bilbau, Joana Vasconcelos apresentou as obras que marcaram os seus últimos 20 anos. Será que temos aí a resposta?

7 perguntas a Joana Vasconcelos

Joana Vasconcelos, filha de pais emigrantes, nasceu em Paris e veio para Portugal aos quatro anos, sendo educada numa sociedade já em democracia. De que forma a sua história a transforma numa escultora de ideias?

Efetivamente o exílio dos meus pais define quem eu sou e, na verdade, ter nascido em Paris é uma parte de quem eu sou. Mas eu sou portuguesa, cresci aqui e a minha identidade é ser portuguesa. Há uma espécie de multiculturalismo na minha família e que já existia do facto de terem vindo das colónias, terem vivido em França e, portanto, essa ideia de que “o mundo é parte de quem nós somos” é algo com o qual eu cresci e que faz parte da história da minha família.

Nas suas obras, vemos um discurso apoiado no questionar da condição da mulher. É este o seu principal ponto de partida em termos de inspiração? Considera que o mundo não está tão desenvolvido assim em relação à posição feminina?

Acho que o mundo ainda tem muito para desenvolver em relação ao lugar da mulher na sociedade. Efetivamente há muitas coisas que ainda não são vistas nem tidas em conta e que deveriam ser. Continuarei a falar desses temas ao longo da vida até que isso se resolva. Mas sei que não vai ser assim tão rápido.

As suas peças fazem uma espécie de “corrupção dos objetos que nos são familiares, dando-lhes nova e improvável vida”. Quase um transformar de lixo em luxo. É esta a sua vontade, de alguma maneira?

Eu nunca uso lixo. Os objetos domésticos não são “lixo”, são aquilo que nos envolvem diariamente no nosso quotidiano. Portanto, eu não vejo como lixo, vejo como luxo. Aquilo que eu faço é descontextualizar o nosso ambiente doméstico e recontextualizar. O nosso ambiente doméstico não é lixo, pelo contrário é um lugar que se deve preservar, valorizar e que se deve ter em conta como um lugar seguro e um lugar de prosperidade.

Estamos em Serralves, uma casa contemporânea para uma mostra antológica dos últimos 20 anos de trabalho de Joana Vasconcelos. No entanto, já houve nuances de polémica nesta exposição I’m Your Mirror. Haverá exposição de Joana Vasconcelos em Portugal sem haver a palavra “polémica” envolvida? Quem tem “medo” de si como artista?

Não faço ideia (risos). Eu faço a minha obra porque estou obviamente a falar de temas contemporâneos e sensíveis e é impossível não envolver polémica para quebrar com os paradigmas, para alterar os padrões. Ser-se pioneiro e não se alterar qualquer coisa, significa que, na verdade, não se está a desenvolver esse papel. A polémica vem daí. Vem de quebrar as barreiras e de ir mais além daquilo que está estabelecido.

Por que é que a crítica mainstream não gosta de Joana Vasconcelos? E por que é que o público a adora? Há sempre uma dualidade: ou adoram ou detestam, sempre com opiniões não fundamentadas. Como se lida com isso? Isso é ser artista?

Eu não tenho uma solução para isso. A única coisa que posso fazer é continuar o meu trabalho. Obviamente que ao falar de temas sensíveis vou ter polémica, ao falar de temáticas que são tabu vou ter polémica, ao abrir as gavetas lá de casa e transformar o lixo em luxo vou ter polémica.

Para si, o mundo é muito mais vasto do que a compreensão portuguesa? Procura sequer essa compreensão, essa valorização no seu país?

Eu acho que o país me valoriza bastante. Tenho tido imensas ajudas e oportunidades e tenho tido, obviamente, vozes contrárias. Mas faz parte. Na verdade, continuo a fazer o meu trabalho. Estou aqui hoje em Serralves…

O Porto é a sua casa de partida (expôs em 1996 a peça Trianons no Parque de Serralves numa mostra comissariada por João Fernandes chamada Mais tempo, menos história). Ver esta exposição cá foi para si sinónimo de quê?

Sinónimo de felicidade.

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