Revista Rua

João Cajuda, um explorador dos novos tempos

Ele faz das viagens profissão e é um dos mais célebres bloggers de viagens do nosso país. João Cajuda está em entrevista na RUA.
Fotografias cedidas por João Cajuda
Andreia Filipa Ferreira31 Julho, 2019
João Cajuda, um explorador dos novos tempos
Ele faz das viagens profissão e é um dos mais célebres bloggers de viagens do nosso país. João Cajuda está em entrevista na RUA.

Na caixinha de memórias de João Cajuda, o mundo vai-se preenchendo de viagem em viagem. Reconhecido como um dos mais célebres bloggers de viagens do nosso país, João Cajuda tem respondido que sim a todos os “leva-me?”, aguçando a curiosidade de todos aqueles que anseiam por aventura: no deserto, na ilha, no cimo da montanha… Mas, por mais que conheça o mundo, João Cajuda diz-se um apaixonado por Portugal! Aceita viajar com ele?

Esta entrevista é parte integrante da printed edition da Revista RUA #33, nas bancas até setembro de 2019.

O João é um dos mais reconhecidos viajantes portugueses. Com uma presença ativa nas redes sociais, permitindo-nos acompanhar as suas viagens, o João é um autêntico influencer. Gostaríamos de começar esta entrevista por lhe perguntar como tudo começou. Pode explicar-nos de onde surge a paixão pelas viagens? E como se tornou neste influencer de viagens?

Não me revejo nessa definição. Na verdade, não gosto da palavra “influenciador”, embora reconheça que isso possa ser um dos resultados do meu trabalho. Sempre gostei de viajar, de conhecer novas culturas e realidades. Em criança, mudei muitas vezes de cidade e talvez isso faça com que hoje sinta a necessidade de conhecer sempre mais. Não creio em ponto algum da minha vida ter decidido começar a viajar pelo mundo, simplesmente viajar tornou-se uma necessidade.

Comecei o meu blog há sete anos por brincadeira, não fazia ideia que poderia tornar-se num trabalho a tempo inteiro. Nem sempre foi assim, já tive zero leitores! Mas sou teimoso (risos) Hoje são quase 40 milhões de visualizações nos meus vídeos! Tento sempre superar-me, trabalho afincadamente todos os dias para inspirar as pessoas a viajar, seja através dos vídeos, artigos e fotos, seja através das viagens de aventura que organizo para viajantes a diferentes destinos no mundo.


A criação de um blog de viagens foi um passo natural no seu percurso? O que considera que o blog lhe trouxe?

Criei o blog porque fazia sentido partilhar os conteúdos que produzia. Sempre tive muito prazer em fotografar, em fazer vídeos de viagem, em editar… Iniciei o blog enquanto me licenciava em Marketing e Publicidade, não só para partilhar as minhas aventuras, mas também para pôr em prática o que aprendia. O blog proporcionou-me muitas experiências que de outra forma não teria tido: visitar locais onde jamais teria ido e conhecer pessoas que, de outra forma, não teria conhecido. Foi uma enorme mudança na minha vida e, consequentemente, no tipo de pessoa que sou hoje e na minha forma de estar. Sinto-me muito realizado porque trabalho no que gosto. Não posso pedir mais do que isso!

“Nem sempre se fica em hotéis de luxo e se come ovos benedict ao pequeno-almoço. Há quartos com baratas e, muitas vezes, tenho saudades da minha casa de banho (risos)”

A seu ver, quais são as principais exigências desta sua profissão? 

Tem mais exigências do que provavelmente as pessoas imaginam. Primeiro de tudo, é fundamental gostar daquilo que se faz. Ter um blog de viagens requer muitas horas de trabalho em frente ao computador. Quem acha que é andar a passear de hotel em hotel está completamente enganado! Ser blogger de viagens é, por vezes, uma profissão muito solitária, frustrante e mentalmente esgotante. Tenho de ser disciplinado com os horários. Trabalhar em casa tem as suas vantagens, mas é importante ter um horário e cumpri-lo. Ser profissional é essencial! Há marcas e empresas que investem dinheiro em ti, não há espaço para falhar. Ser criativo, por exemplo, não é algo que se consiga sempre que se quer… por vezes é cansativo. É preciso também lidar com as saudades de casa e das pessoas que gostas! É muito bonito quando se está de férias, mas quando estás constantemente no outro lado do mundo a trabalhar, a história é diferente. Outra exigência é não se ser esquisito. Nem sempre se fica em hotéis de luxo e se come ovos benedict ao pequeno-almoço. Há quartos com baratas e, muitas vezes, tenho saudades da minha casa de banho (risos).

É impossível não perguntarmos: nesta fase, muitos são os que arriscam para tentar uma posição influente no mundo das viagens. Considera que há uma popularização do rótulo blogger de viagens?

É natural que com as redes sociais todos ambicionem ter uma profissão de sonho. Ser blogger de viagens é claramente uma delas. Há, de facto, uma banalização desse rótulo, mas ainda assim acho ótimo que todos lutem por concretizar os seus sonhos (tal como eu fiz) e que o mundo digital tenha aberto inúmeras possibilidades. Há pessoas novas que fazem coisas geniais e que me inspiram, mas confesso que a restante maioria sonha com uma realidade que não existe.  Costumo dizer, na brincadeira, que gostava de ter a minha vida de Instagram, onde tudo parece incrível e maravilhoso, mas as redes sociais são irreais… há muitas horas, dias, meses de dedicação! Não é um trabalho fácil e acredito que muitos irão aperceber-se disso.

Ser blogger de viagens é muito mais do que tirar fotografias bonitas para os canais digitais. Considera importante o seu papel de esclarecer, de ajudar a traçar destinos… e, claro, de fazer sonhar? Mais do que uma viagem de sonho, o João tenta inspirar os seus seguidores de que maneira? 

Mais do que tirar fotos bonitas é importante passar uma mensagem. Tento sempre que as pessoas vejam o mundo numa perspetiva diferente. Gosto de partilhar a cultura, as pessoas, a comida, as experiências. Tento incentivar as pessoas não só a viajar, mas também a mudar de atitude. Que sejam mais relaxadas, mais divertidas, que tenham mais compaixão e respeito pelo próximo, seja ele humano ou animal, mais conscientes do incrível planeta onde todos vivemos e ao qual eu não reconheço fronteiras nem barreiras. Acho também fundamental esclarecer as pessoas sobre os destinos, o que podem e devem fazer, os cuidados a ter e de que forma podem tornar aquelas férias em dias inesquecíveis.

“Um destino que recomendo aos portugueses é Portugal! Queremos sempre viajar para fora, mas a verdade é que quanto mais viajo mais gosto do nosso cantinho”

Podemos falar dos tours que o João promove? Como podemos viajar consigo?

Decidi abrir a minha agência de viagens, a LEVA-ME, porque achei que seria interessante levar as pessoas aos locais que mais gosto no mundo. Qualquer pessoa, sozinha ou acompanhada, pode inscrever-se numa viagem da LEVA-ME. Temos atualmente cinco destinos: Marrocos, Tailândia, Indonésia, Filipinas e Tanzânia. São países que conheço bem e que, de certa forma, me transformaram. Organizamos as viagens e acompanhamos sempre os grupos. Tento ao máximo fazer uma viagem divertida e educativa, sempre num espírito muito relaxado e de aventura. Faço sempre muitos amigos, pessoas interessantes de várias idades, países e realidades. Tento proporcionar às pessoas que viajam comigo momentos inesquecíveis e fico honestamente feliz quando me dizem “foram as melhores férias da minha vida!”.

Vamos focar-nos agora no mundo que o João já conhece. O que destaca?

Já visitei alguns países, mas, felizmente, ainda tenho muito mundo para explorar! Marrocos é um país que me é muito querido. Foi lá que comecei a trabalhar na área do turismo, a fazer vídeos para hotéis e a ser líder de viagens. É claramente o país que mais vezes visitei… perdi a conta! Tenho lá muitos amigos, é como se fosse uma segunda casa. Destaco também o monte Fitz Roy, na Patagónia, Argentina, um dos lugares mais imponentes que visitei até hoje! Também a Tanzânia é especial, não só pelas migrações dos animais que me deixam sempre extasiado, mas porque subi ao topo do Kilimanjaro, uma experiência arrebatadora a todos os níveis, fisicamente, mentalmente e espiritualmente. Já as Filipinas foi um destino que visitei pela primeira vez há três anos e fiquei apaixonado, não só pela beleza natural, mas também pela genuinidade das pessoas.

 Há locais que voltaria mais do que uma vez? Porquê? 

Há locais que volto cinco vezes ao ano! (risos) Obviamente é por motivos de trabalho, mas há inúmeros destinos que não me importo de voltar. As Maldivas ou as Seychelles são um deles. Tenho um fascínio por praias paradisíacas! O Sahara também, porque sinto sempre saudades do deserto. Já Itália é um dos meus países preferidos, não só pela arquitetura e cultura… mas porque cada vez mais gosto mais de comer! (risos)

Que memórias não se apagam? Há viagens que tenham sido marcantes por alguma razão especial? 

Acho que todas as viagens nos marcam de alguma forma. A Índia foi claramente uma viragem na minha forma de pensar e de estar. Qualquer texto que possa escrever nunca irá conseguir exprimir o verdadeiro impacto que aquela viagem teve na pessoa que eu era… e na que sou hoje. Tenho muitas memórias dessa viagem, algumas boas, outras más, mas isso faz parte de viajar e de crescer como humano.

Prefere um pôr do sol no deserto Sahara ou um amanhecer em Bali?

Pode ser as duas, por favor?! (risos) Ambas são diferentes e memoráveis!

É já um entendido nas culturas dos países que visita? A diversidade do nosso mundo é algo que o mantém entusiasmado em cada viagem?

Claro, se não fosse para vivenciar novas realidades e culturas mais valia poupar o dinheiro e ficar em casa. Anseio por aventuras, paisagens de cortar a respiração, pessoas, sabores, cheiros… Por vezes estou em lugares remotos e penso: “mas que raio… porque razão vim aqui parar?!” Chego à conclusão que é o desconhecido, a surpresa… É a explorar que me sinto mais vivo e é por isso que continuo a viajar.

Acreditamos que quem vive em viagem arrecada histórias caricatas e peripécias impensáveis. Tem histórias que guarda na memória? Pode contar-nos algumas das aventuras mais inesquecíveis?

Tenho muitas histórias que me aconteceram ao longo dos anos. Podia ficar horas aqui a contá-las… Já tive de ser evacuado de uma cidade inundada na Índia, já tive que mudar pneus na savana perto de leões, já tive um búfalo à minha espera de noite à porta da tenda, já fiquei retido no carro numa tempestade de areia no meio do deserto… Ah, já caí de cascatas, já me espetei de moto… são inúmeras aventuras! (risos)

Nesta altura, que destinos aconselharia os portugueses a visitar? E que destino devíamos conhecer pelo menos uma vez na vida? 

Acho que todas as pessoas deveriam um dia conhecer a imensidão do deserto. Penso que ninguém consegue ficar indiferente àquele momento inesquecível que é estar numa duna de areia dourada, em total silêncio, a ver o pôr do sol.

Um destino que recomendo aos portugueses é Portugal! Queremos sempre viajar para fora, mas a verdade é que quanto mais viajo mais gosto do nosso cantinho. Temos lugares incríveis, excelente comida e um povo acolhedor. Sinto que muitas pessoas conhecem pouco do nosso interior e acho que iriam ficar surpreendidas com os tesouros que temos.

Dizem que há pessoas que nascem com o gene das viagens. O João nasceu com esse gene? Que desejos ainda aguarda cumprir em viagem pelo mundo? 

Bom, não sei se isso é verdade ou não, mas viajar tornou-se uma necessidade para mim. Tenho ainda muitos lugares que quero conhecer e muitas experiências que gostava de ter. Ir à Antártida, percorrer vários países de autocaravana, explorar as ilhas remotas do sul do Pacífico… tanta coisa!

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