Revista Rua

2021-01-06T15:29:02+00:00 Cultura, Histórias, Outras Artes

João Cutileiro: o génio da escultura

O escultor João Cutileiro morreu hoje, aos 83 anos.
João Cutileiro ©D.R.
Redação
Redação5 Janeiro, 2021
João Cutileiro: o génio da escultura
O escultor João Cutileiro morreu hoje, aos 83 anos.

Um dos nomes mais importantes do mundo das artes, o escultor João Pires Cutileiro nasceu em Lisboa no dia 26 de junho de 1937 e cresceu no seio de uma família muito ligada aos sectores oposicionistas e anti-fascistas. O pai foi médico ao Serviço da Organização Mundial da Saúde, o que fez com que João Cutileiro fizesse grandes viagens desde muito cedo, fator determinante para a sua formação.

Entre 1949 e 1951 passa a frequentar o estúdio de Jorge Barradas onde executa trabalhos de modelismo e de pintura, para além de vidrados de cerâmica. Descontente, muda-se para o atelier de António Duarte, onde é assistente de canteiro durante dois anos. Lá se dá o seu contacto com a pedra, pois tinha como trabalho ampliar os modelos do mestre canteiro, passá-los a gesso e metamorfoseá-los no mármore. Em 1951, com 14 anos, apresenta a sua primeira exposição individual em Reguengos de Monsaraz, numa loja de máquinas de costura, mostrando esculturas, pinturas, aguarelas e cerâmicas.  Nesse mesmo ano, a caminho de Cabul, para visitar o seu pai que lá ficaria um ano, passou por Florença, onde se encantou pela obra de Miguel Ângelo. Confirmou então uma tendência que existia desde os seus seis anos, quando esculpiu um presépio, a tendência para a escultura. No regresso a Lisboa, inscreve-se na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (ESBAL).

Não passa mais do que dois anos na ESBAL, entre 1953 e 1954, por perceber que em Portugal o único material considerado prestável era o bronze e as pesquisas, o experimentalismo e a criatividade eram travados. Sai do país por influência de Paula Rego, que lhe dá a conhecer, em Londres, a Slade School of Art. Nessa escola, que frequentou entre 1955 e 1959, desenvolveu a sua capacidade com o seu mestre escultor Reg Butler e no final recebeu três prémios: composição, figura e cabeça. 

 

D. Sebastião de João Cutileiro ©D.R.

Em 1970, regressa a Portugal e instala-se em Lagos. É lá que executa a sua obra mais polémica, D. Sebastião, erguida nessa mesma cidade. Essa obra confrontou o academicismo do Estado Novo e recebeu fortes críticas e diz, numa frase irónica, que desistia da escultura, passando a ser apenas “um fazedor de objetos destinados à burguesia intelectual do ocidente”, espantando os escultores por, segundo ele próprio, ser essa mesma a função de um escultor, a de criador de peças decorativas. Esta frase pretende também menosprezar as críticas de quem o achava escultor menor.  

 

Conquistou uma menção honrosa no Prémio Soquil no ano de 1971 e, cinco anos mais tarde, as suas esculturas e mosaicos foram expostos em Wuppertal, na Alemanha, seguindo-se exposições em Évora (1979, 80 e 81) e, no ano de 1980, a sua obra volta à Alemanha, mas a Dortmund. Nesse mesmo ano, expõe em Washington, D. C. e na Sociedade Nacional de Belas Artes. No ano seguinte, participou no Simpósio da Escultura em Pedra, na cidade de Évora, e numa exposição na Jones Gallery, em Nova Iorque. A 3 de agosto de 1983, foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.

A sua costela alentejana impulsiona-o a mudar-se para Évora no ano de 1985 e aí está exposta, na sua casa, uma grande parte do seu leque de obras. 

João Cutileiro deixou-nos esta madrugada. Tinha 83 anos.

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