Revista Rua

2019-08-09T17:00:27+00:00 Em Destaque

João Tordo e as vozes que o completam

“A literatura, para mim, é um espaço muito sagrado”, diz-nos o escritor João Tordo, em entrevista.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira9 Agosto, 2019
João Tordo e as vozes que o completam
“A literatura, para mim, é um espaço muito sagrado”, diz-nos o escritor João Tordo, em entrevista.

Com uma voz calma que nos cativa a contar histórias, a conversa que tivemos com João Tordo, na Póvoa de Varzim, durante o festival literário Correntes d’Escritas deixou-nos com vontade de o conhecer melhor. A si e às suas vozes, cravadas nas páginas de livros que exaltam a sua forma de fé: a literatura e o romance. Com um novo livro nas livrarias, A Mulher que Correu Atrás do Vento, João Tordo é um dos nomes que queremos que acompanhe.

Esta entrevista é parte integrante da Revista RUA #32, de abril de 2019.

Fotografia ©Nuno Sampaio

João Tordo, 44 anos, vencedor do Prémio Literário José Saramago em 2009. Quem é o escritor João Tordo?

Pertenço a uma nova geração de autores… que já não é nova. Comecei na viragem do século, tal como uma data de nomes sonantes: Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto, Afonso Cruz… Já publicamos há muitos anos e, por isso, já não somos assim tão jovens (risos)

Com que tipo de autores se identifica?

Eu tendo a ler quase tudo que vai aparecendo. Consigo identificar-me com autores contemporâneos como eu, mas também com José Saramago que, para mim, foi uma influência enorme. Mesmo antes de eu ganhar o prémio ou de o ter conhecido, eu lia muito Saramago e com ele aprendi imenso sobre estrutura narrativa, sobre diálogo, sobre personagens. Por isso, foi um autor que, sem ele saber, me ensinou muito.

Hoje em dia, existem muitos prosadores em Portugal, com enorme qualidade, mas não temos muitos romancistas. Ou seja, a grande narrativa, como fazia Saramago, Philip Roth, Herman Melville, não é uma tradição muito nossa. Para mim, a literatura é uma junção muito delicada de arte e de técnica, sendo a arte a parte que diz respeito à linguagem e a técnica a parte que diz respeito à forma e à estrutura narrativa. Em Portugal, temos muitos escritores, mas não temos assim muitos romancistas ou narradores.

É a morte do romance?

Acho que a morte do romance já vem sendo anunciada há muito. Há 500 anos que se diz que o romance é uma forma em vias de extinção. Mas, a realidade é que nunca se compraram tantos livros, nunca as pessoas leram tanto em Portugal, coisas boas ou más. As redes sociais e o mundo instantâneo têm um efeito que faz parecer que qualquer pessoa pode ser um escritor… e pode. Há muitos escritores que têm feito carreiras assim. Que começam pelo Facebook e constroem um público muito grande. Mas eu não sei se se pode chamar a isso literatura. Acho que isso são outras maneiras de escrever. Literariamente não têm conteúdo. Não há uma definição fiel obviamente, mas, para mim, se existisse definição de literatura seria algo como “uma tentativa sempre frustrada da imaginação tomar o lugar da verdade”. Isso é algo que se sente a acontecer quando se lê um grande livro. O tomar o lugar da verdade é muito engraçado.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Como é que esta sua história como escritor começa?

Durante 28 anos escrevi sem nunca publicar. Escrevi para mim e o que escrevia ficava na gaveta… ou deitava fora. Fiz o meu processo de perceber que a escrita era sobretudo, pelo menos naquela idade, uma experiência de fracasso. Tentar, tentar, tentar… perceber o que eu queria dizer, o que me importava dizer, que tipo de voz eu tinha… Isso surgiu muito por tradição literária, ou seja, ler! Passei muitos anos a ler sem objetivo nenhum de publicar e aprendi assim. Fui construindo a minha tradição, porque não se escreve sozinho, escreve-se com as vozes dos outros que vieram antes de nós. Por um lado, a tradição e, por outro, a imitação. Só aos 28 anos é que tive coragem de pegar num manuscrito e enviar para várias editoras em Portugal (nessa altura eu vivia nos EUA). Demorou algum tempo até ter uma resposta. Publiquei o primeiro romance aos 29 anos, o que acho que é cedo. Hoje em dia vemos escritores muito mais novos, com 20 anos, a publicar, e eu considero muito precoce. Não há tempo para se ter vivido, para se ter amadurecido.

“Acho que as pessoas que me leem gostam de narrativa, gostam da aventura da narrativa, gostam de, como eu, se sentirem perdidas no meio do livro”

A sua voz, o seu “eu escritor”, foi-se alterando ao longo dos anos?

Há uma história que o escritor japonês Haruki Murakami conta. Ele tem um livro muito engraçado cujo título é mais ou menos Do que falo quando falo em escrever, que não está publicado cá. Nesse livro ele conta a história de dois homens que, no sopé do monte Fuji, encaram o monte e o homem normal diz: “este monte é o mais grandioso, o mais belo e o mais magnífico de todo o Japão. Estou convencido, não preciso de mais argumentos”. Já o homem escritor diz: “eu preciso de ir lá acima”. Eu acho que é muito isso! É essa coisa de ir ao sopé do monte várias vezes. De o querer subir. Um escritor não se mede pelo sucesso, nem por aquilo que deseja fazer, mas pela sua longevidade. Eu cheguei aos 15 anos de livros e acordo de manhã a querer continuar a fazer a mesma coisa. Se ao fim de 35 anos disto eu tiver vontade de acordar de manhã e continuar a escrever, então aí já me posso achar escritor, já posso achar que tenho uma voz. E essa voz vai evoluindo conforme vamos crescendo e amadurecendo. Há sempre momentos muito difíceis. Tenho vários romances que estão inacabados. Coisas que chego a meio e às tantas desisto porque não era bem aquilo que eu queria dizer. Os livros, às vezes, assumem formas muito próprias de estar e são eles que nos levam pela mão. É um processo estranho (risos).

Quem o lê procura exatamente o quê?

Acho que as pessoas que me leem gostam de narrativa, gostam da aventura da narrativa, gostam de, como eu, se sentirem perdidas no meio do livro. De se sentirem desorientadas. Na realidade, às vezes, é isso que eu sinto, que fico desorientado. Quando começo um livro com personagens que são muito fortes e surge uma crise para resolver, às vezes eu penso que é como estar no meio do mar, num barquinho. Não tenho nada à volta senão mar. Mas à distância sei que há um farol! Vou remando, remando, remando… e lá chego ao farol. Depois há outro farol. Só depois há uma ilha. É assim! Às vezes sinto-me muito, muito perdido no meio dos livros, mas se não for uma aventura, uma catarse para mim no final, não faz sentido. Acho que as pessoas que me leem estão à procura disso: narrativa, aventura, sentirem-se perdidas e catarse.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Para quem nunca leu João Tordo, por onde deve começar então?

(risos) Isso é uma pergunta difícil. Para quem nunca leu o meu trabalho, o romance Ensina-me a voar sobre os telhados é um bom ponto de partida. Acho que é um livro que tem muito de mim, muito da voz que eu fui encontrando ao longo destes anos todos e é um livro que também, ao mesmo tempo, tem uma história que prende.

É verdade que o título desse livro é inspirado num sonho seu de adolescente?

Sim! (risos) Eu tinha esse sonho imensas vezes quando vivia na casa dos meus pais. Era um sonho sempre igual. Eu estava na casa de banho e a janela estava aberta. De repente, eu começava a flutuar e ia saltando pelos telhados de Lisboa. O sonho era tão verdadeiro que às vezes acontecia-me aquilo que acontece a muita gente: ficava na dúvida se aquilo tinha acontecido ou não. Ficava com a sensação de que eu tinha voado mesmo.

“A literatura leva-me para um espaço em que eu, através das personagens, acedo muito mais facilmente ao lado emocional da vida”

O seu novo romance chegou às livrarias no final de março. Chama-se A mulher que correu atrás do vento. Porque convidaria os leitores a comprarem o livro?

Pela surpresa. É um romance que está dividido por capítulos que, a princípio, parecem não ter ligação. Mas essas ligações vão começando a surgir ao longo das páginas e, no final, há uma grande surpresa. O último capítulo é uma espécie de twist em que tudo se torna claro de repente. É um livro que acaba por ter uma amplitude bastante grande, porque vai de 1892 na Alemanha até 2017 em Portugal, portanto, são muitos anos de narrativa. O final acaba por ser uma recompensa por tudo aquilo que vai acontecendo.

O que há de João Tordo neste novo romance?

Eu acho que quem me lê tende a achar que o meu trabalho é biografia ou autobiografia, mas não é. Embora eu às vezes vá buscar episódios pessoais. Este novo livro, A mulher que correu atrás do vento, por exemplo, é um livro contado por quatro mulheres e a origem do livro tem como base uma pessoa verdadeira, alguém que eu conheci há uns anos e cuja história me impressionou muito. Às tantas, comecei a construir o livro em torno daquela personagem. Uma miúda de 17 anos que vive na rua e que desde os quatro anos que não vê a mãe. A história foi-se construindo a partir daí e, de repente, começaram a surgir outras vozes femininas que eu queria que fizessem coro em torno da personagem. Essas vozes femininas não foram assim tão difíceis de identificar como eu pensava porque quando eu olho para a minha infância vejo que também cresci com vozes femininas. Cresci com uma irmã gémea, com a minha mãe, a minha avó, as minhas tias-avós. É mais ou menos fácil identificar essas vozes porque eu tenho-as dentro de mim, muito presentes. No princípio foi difícil porque sou homem, penso como um homem, sinto como um homem. Mas o desafio era esse.

Há, então, sempre verdade nas narrativas que escreve? É importante trazer a verdade para os livros mesmo que tudo o resto seja imaginação?

Sim, parece-me é que a vida como é, muitas vezes caótica e desordenada, onde grande parte dos nossos dias são pautados pelo tédio e aborrecimento, tem uma qualidade muito estranha. Se pensarmos na própria memória, nós só recordamos certas coisas. 99% daquilo que nos acontece varre-se. Eu não faço ideia onde estava há um ano. O que eu recordo são momentos que estão ligados à emoção, obviamente. Acho que a literatura tem a função de dar ordem, de dar sentido, de trazer verdade. Acho mesmo que um livro é uma forma simbólica que encontra na metáfora uma espécie de comunhão com as coisas. A literatura leva-me para um espaço em que eu, através das personagens, acedo muito mais facilmente ao lado emocional da vida. A literatura é uma exposição muito condensada do que é esse lado emocional de viver. Não sei explicar melhor (risos)

Fotografia ©Nuno Sampaio

É um escritor que se isola para procurar inspiração?

Eu dantes escrevia muito sozinho e procurava lugares isolados. Escrevia muitas horas sem falar com ninguém e sem ver ninguém. Nos últimos cinco anos, comecei a escrever em público. Comecei a ir para cafés, restaurantes, lugares públicos porque sinto necessidade de ver pessoas, de escutar a voz delas, de sentir o ambiente das pessoas à minha volta. Acho uma parvoíce a ideia de que se tem que dessacralizar a literatura. Ou que os escritores são génios que estão fechados numa torre de marfim. Nós não somos estanques. Há pessoas que têm de estar fechadas numa torre e outras que têm necessidade de estar em público. Cada um tem a sua maneira de funcionar. Por isso, acho que não há coisa mais sagrada do que a literatura. É a minha forma de fé. Quando estou a escrever, estou num espaço muito meu, que é sagrado não no sentido de ser institucionalmente sagrado (não estou na igreja), mas estou no meu próprio espaço sagrado. A literatura, para mim, é um espaço muito sagrado. Por isso é que eu, nas redes sociais por exemplo, não quero ter opiniões, não estou interessado porque se eu começar a permitir que o banal, que o transitório, que o vulgar entre nesse meu espaço sagrado, começo a perder-me.

Há planos para 2019 para além deste novo romance?

Tenho uma surpresa para depois do verão, mas ainda não posso contar (risos).

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