Revista Rua

João Tordo: “A literatura é a minha forma de fé”

O novo romance do escritor português chega às livrarias a 19 de março.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira16 Março, 2019
João Tordo: “A literatura é a minha forma de fé”
O novo romance do escritor português chega às livrarias a 19 de março.

A poucos dias do lançamento oficial do novo romance de João Tordo, antecipamos alguns destaques da entrevista do escritor português à Revista RUA. Leia a entrevista completa na nossa próxima edição, nas bancas em abril.

A Mulher que Correu Atrás do Vento chega às livrarias a 19 de março.

Como é que esta sua história como escritor começa?

Durante 28 anos escrevi sem nunca publicar. Escrevi para mim e o que escrevia ficava na gaveta… ou deitava fora. Fiz o meu processo de perceber que a escrita era sobretudo, pelo menos naquela idade, uma experiência de fracasso. Tentar, tentar, tentar… perceber o que eu queria dizer, o que me importava dizer, que tipo de voz eu tinha… Isso surgiu muito por tradição literária, ou seja, ler! Passei muitos anos a ler sem objetivo nenhum de publicar e aprendi assim. Fui construindo a minha tradição, porque não se escreve sozinho, escreve-se com as vozes dos outros que vieram antes de nós. Por um lado, a tradição e, por outro, a imitação. Só aos 28 anos é que tive coragem de pegar num manuscrito e enviar para várias editoras em Portugal (nessa altura eu vivia nos EUA). Demorou algum tempo até ter uma resposta. Publiquei o primeiro romance aos 29 anos, o que acho que é cedo. Hoje em dia vemos escritores muito mais novos, com 20 anos, a publicar, e eu considero muito precoce. Não há tempo para se ter vivido, para se ter amadurecido.

“Acho que não há coisa mais sagrada do que a literatura. É a minha forma de fé”

O que há de João Tordo neste novo romance?

Eu acho que quem me lê tende a achar que o meu trabalho é biografia ou autobiografia, mas não é. Embora eu às vezes vá buscar episódios pessoais. Este novo livro, A Mulher Que Correu Atrás do Vento, por exemplo, é um livro contado por quatro mulheres e a origem do livro tem como base uma pessoa verdadeira, alguém que eu conheci há uns anos e cuja história me impressionou muito. Às tantas, comecei a construir o livro em torno daquela personagem. Uma miúda de 17 anos que vive na rua e que desde os quatro anos que não vê a mãe. A história foi-se construindo a partir daí e, de repente, começaram a surgir outras vozes femininas que eu queria que fizessem coro em torno da personagem. Essas vozes femininas não foram assim tão difíceis de identificar como eu pensava porque quando eu olho para a minha infância vejo que também cresci com vozes femininas. Cresci com uma irmã gémea, com a minha mãe, a minha avó, as minhas tias-avós. É mais ou menos fácil identificar essas vozes porque eu tenho-as dentro de mim, muito presentes. No princípio foi difícil porque sou homem, penso como um homem, sinto como um homem. Mas o desafio era esse.

É um escritor que se isola para procurar inspiração?

Eu dantes escrevia muito sozinho e procurava lugares isolados. Escrevia muitas horas sem falar com ninguém e sem ver ninguém. Nos últimos cinco anos, comecei a escrever em público. Comecei a ir para cafés, restaurantes, lugares públicos porque sinto necessidade de ver pessoas, de escutar a voz delas, de sentir o ambiente das pessoas à minha volta. Acho uma parvoíce a ideia de que se tem que dessacralizar a literatura. Ou que os escritores são génios que estão fechados numa torre de marfim. Nós não somos estanques. Há pessoas que têm de estar fechadas numa torre e outras que têm necessidade de estar em público. Cada um tem a sua maneira de funcionar. Por isso, acho que não há coisa mais sagrada do que a literatura. É a minha forma de fé. Quando estou a escrever, estou num espaço muito meu, que é sagrado não no sentido de ser institucionalmente sagrado (não estou na igreja), mas estou no meu próprio espaço sagrado. A literatura, para mim, é um espaço muito sagrado. Por isso é que eu, nas redes sociais por exemplo, não quero ter opiniões, não estou interessado porque se eu começar a permitir que o banal, que o transitório, que o vulgar entre nesse meu espaço sagrado, começo a perder-me.

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