Revista Rua

2019-07-10T23:25:49+00:00 Cultura, Em Destaque, Teatro

José Condessa e a arte subtil de dizer ‘desafiem-me!’

Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira10 Julho, 2019
José Condessa e a arte subtil de dizer ‘desafiem-me!’

Marcámos encontro com José Condessa no bairro da Mouraria, em Lisboa, e facilmente nos deixámos envolver na sua história: um ator que quis ser ator antes de perceber que ser ator era uma arte. De sorriso contagiante e um brilhozinho no olhar que nos faz perceber o porquê de ser considerado um talento no mundo da representação nacional, José Condessa é o “menino bonito” que queremos continuar a estar de olhos postos. Até onde irá?

Esta entrevista é parte integrante da Revista RUA#33, nas bancas até setembro.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Aos cinco anos, o José entra, quase por brincadeira, no mundo da representação. Conte-nos como tudo começou. Há influências do seu pai, correto?

A minha família está muito ligada ao teatro amador, principalmente o meu pai, a minha madrinha e a minha irmã. Com cinco anos, fiz, pela primeira vez, um pequeno monólogo, uma coisa de uma página. Foi algo escrito para mim e falava sobre o amor. Eu já tinha subido ao palco para fazer umas pequenas figurações com três anos, mas era uma criança, não fazia muito mais do que anjinhos e procissões. Comecei num teatro que era na Calçada da Ajuda, o antigo Teatro Luís de Camões, onde estava uma companhia que era o Belém Clube, que, entretanto, agora está noutra zona de Belém. O bichinho do teatro nasce aí, com a minha família. Eu ia sempre aos ensaios e aos espetáculos. Lembro-me de decorar os textos facilmente – na altura nem sabia ler, era o decorar de ouvir. Foi assim que decorei o tal monólogo. O meu pai dizia-me as frases e eu decorava. Lembro-me de ser pequenino e de estar todo aprumado, penteadinho, para subir ao palco. É daí que nasce a paixão. Depois, a paixão evolui e começo a querer procurar alguma formação. O meu pai também sempre achou que seria importante. Descobri a Academia de Santo Amaro, também de teatro amador, mas muito mais ligado ao teatro profissional: foi daí que saíram muitos atores que hoje são profissionais, como o Carlos Areia, a Marina Mota, a Melânia Gomes…  É aí que se desenvolve o gosto, que posteriormente se transforma em paixão, em não conseguir viver sem estar no teatro. Isso leva-me à Escola de Teatro de Cascais, onde faço a minha formação e conheço o encenador Carlos Avilez.

Falou-nos de pessoas. Se é verdade que aprendemos imenso observando, com quem mais aprendeu? Quais são as suas principais influências, para além da família?

Ao longo dos anos, tenho olhado para trás e cada vez mais percebo quem me marcou em certos momentos. Às vezes não são só as pessoas que estão mais próximas, mas também pessoas que, por algum motivo, deixaram a sua marca Muitas delas nem sequer são conhecidas. Neste caso, o grande respeito pelo teatro amador nasce de eu perceber que, no teatro e nas artes em geral, tenho o dever de aprender com os mais velhos. Ninguém está ultrapassado nas artes! Simplesmente devemos beber do que eles nos estão a dar e a passagem de testemunho é dos atos mais importantes e sagrados na nossa profissão. Ter a oportunidade de, num teatro amador, ter alguém que é generoso comigo e me dá dicas como a forma como tenho de dizer uma fala, o tempo que tenho de dar depois da piada… Isso fica! Eu aprendi um pouco de tudo, não só o trabalho de ator, mas também o trabalho de luzes, som, montagem de cenários… Antes de fazer o trabalho de ator, fazia esses trabalhos de cena e sei que foi daí que nasceu o respeito pelo teatro como um todo. Só depois nasceu o ator.

Em termos de pessoas, o Carlos Avilez, sem dúvida, é o meu mestre! É uma das figuras incontornáveis da História do teatro em Portugal e a sua linguagem no teatro é uma coisa que, para mim, faz sentido. Também o Diogo Infante é importante para mim: o meu primeiro trabalho em televisão foi com ele e com a ajuda dele. Também tive a oportunidade de falar muitas vezes com a Eunice Muñoz. Cada vez que ela vê uma peça de teatro, as palavras que ela diz a seguir são captadas como se não houvesse mais nada. Tenho de destacar também a Maria do Céu Guerra… e a Marina Mota, que foi uma pessoa que me deu o exemplo perfeito do que é ser um bom profissional, em qualquer área. Ela é excecional como colega! Acho que é uma das mulheres mais importantes que passou na minha vida e, apesar de não manter um contacto físico com ela agora, é uma pessoa que me vai marcar a vida toda… pelo talento que ela é!

Fotografia ©Nuno Sampaio

A ligação mais próxima com o público, que está ali numa plateia à sua frente, é o motivo que o faz sentir mais entrosado com o mundo do teatro?

Eu acho que sim, acho que é o desafio. A questão de termos o público que é o nosso júri e o nosso crítico à nossa frente é desafiante. Nós recebemos imediatamente o feedback. Não precisam de falar durante a peça para nós sentirmos a energia, para percebermos se estão connosco ou não. É engraçado conseguirmos lidar com isso. É importante, da parte do ator, ver que, de repente, a plateia que estava com barulhinho se cala para te ouvir. Isso significa que os conseguiste dominar. Esse é o trabalho bonito como ator: o lado da técnica, das pequenas estratégias de captação do público. Essa é a grande diferença entre o teatro e a televisão, apesar da televisão chegar a mais pessoas. Mas o teatro é aquela paixão, é aquela passagem de testemunho direto que me entusiasma.

Continuando a falar de teatro, como foi a experiência em Romeu e Julieta? Como foi este desafio com um dos mais icónicos textos de Shakespeare?

Foi um projeto muito particular. Foi a primeira vez que eu trabalhei com o encenador João Mota, outro grande nome no nosso país e com uma linguagem diferente da do Carlos Avilez. Foi também a primeira vez que faço uma peça naquela sala, a sala Carmen Dolores, no Teatro da Trindade. Foi o combinar de várias particularidades que tornaram esta peça especial. O próprio Shakespeare é especial. Estamos a falar da maior história de amor escrita e contada e acho que toda a gente tem uma ideia do que é o Romeu e Julieta, mesmo que não tenha visto a peça. Sabem que é o amor impossível entre dois adolescentes. Portanto, há a responsabilidade de lidar com a expetativa do público. Eu próprio tinha uma ideia pré-concebida antes de fazer o espetáculo. Mas foi um espetáculo muito, muito interessante!

Fotografia ©Nuno Sampaio

“E por falar em espetadores, diria que há uma coisa que devo também aconselhar desde já: vão ver peças de teatro, vão ver cinema. Cultivem-se!”

O José vem do mundo do futebol. Passou ao lado de uma grande carreira futebolística ou encontrou uma grande carreira como ator? A vida foi escolhendo por si?

(risos) Acho que sim.

Mas como tem vivido esta fase de “menino bonito das novelas”? Como tem sido a experiência de conquistar um lugar como ator na televisão?

A viagem pela televisão tem sido engraçada. Eu fiz a primeira novela quando estava a acabar o curso na Escola de Teatro de Cascais, em 2015. Ia fazer 18 anos. Tive logo a oportunidade de contracenar com o Diogo Infante e a Maria do Céu Guerra, em Jardins Proibidos. Eu sempre tive curiosidade pelo mundo da televisão. Não estou nada de acordo quando se pensa ou quando se diz que a televisão é menos digna ou é mais fácil que o teatro. Eu acho que o difícil é conseguir fazer bem as duas coisas. Já fiz várias novelas, na SIC e na TVI, e o facto de, em tão pouco tempo, não ter parado de ter oportunidade de trabalhar em televisão – e com projetos que realmente me desafiaram – é uma coisa que me deixa contente e orgulhoso. Tenho tido personagens a crescer em termos de importância na história, em termos de protagonismo e, acima de tudo, fico feliz pela dificuldade que cada personagem me tem trazido. Já fiz personagens de eternos enamorados, mas também personagens que me levaram a procurar outro lado, um lado mais triste. Lembro o exemplo de uma personagem que não tinha pai e essa era a grande lacuna da sua vida. Ter a oportunidade de construir personagens tão evoluídas psicologicamente em televisão é uma coisa que me deixa muito orgulhoso. Por isso, tenho visto esta evolução com bons olhos e espero que continuem a surgir projetos televisivos que me desafiem e que consiga fazer como fiz até agora: a par do teatro, completar-me com a televisão.

A verdade é que o José se tem completado no teatro, na televisão, nos programas de entretenimento… Onde arranja tempo para o resto, para a família e os amigos?

A família e os amigos são importantes. Eu vivo muito do meu grupo familiar e dos meus amigos. Por exemplo, o meu descanso não passa por estar só em casa a dormir ou a ver televisão. O meu descanso é ir jogar à bola, é ir com os meus amigos ao cinema, é ficar num café a conversar sobre um filme… Eu acho que o meu descanso é um descanso ativo. Se bem que também sou muito fã de dormir até tarde quando posso (risos). Penso que o trabalho tem surgido de uma forma natural e tenho estado muito feliz com os programas como o Dança com as Estrelas, as novelas, o teatro. Tenho conseguido conciliar sempre o teatro e a televisão, o que significa ter um horário muito preenchido: começa de manhã com a novela e acaba à noite no teatro. O pouco tempo de descanso uso para estar com os meus amigos… e jogar à bola! Isso eu não consigo abdicar de fazer (risos).

Fotografia ©Nuno Sampaio

“Acho que o meu maior medo é estar cómodo! Acho que um ator nunca deve estar cómodo. Deve estar sempre agitado, com vontade de fazer mais e melhor”

Hoje em dia, as redes sociais aproximam-no do público e o facto de viver uma fase importante a nível de visibilidade, seja através das novelas ou dos programas de entretenimento, faz crescer o nível de assédio dos fãs. Como é que um jovem de 22 anos aprende a lidar com este crescente protagonismo?

Eu acho que a exposição mediática é uma consequência do meu trabalho. O meu pai sempre disse uma frase que eu vou levar sempre para a minha vida pessoal e profissional: o sucesso só vem antes do trabalho no dicionário. Tudo o resto vem depois do trabalho. Eu espero – e acredito que é isto que está a acontecer – que este sucesso mediático tem surgido por gostarem do meu trabalho, por eu ter feito alguma coisa bem, por eu ter marcado as pessoas. Claro que há diferentes tipos de abordagem (risos). Há algumas abordagens por fama e outras por gostarem realmente do meu trabalho. Uma das coisas mais bonitas a meu ver é esperarem-me na porta depois de uma peça de teatro. Gosto de ouvir o que as pessoas têm para dizer, sempre. No entanto, acho que tenho de gerir isto muito bem: não posso tornar isto a melhor coisa do mundo, mas também não é algo que deva desleixar. Acho que o contacto com o público é o mais importante. Eu não represento para mim próprio, para o meu umbigo, por isso, a relação com o público tem de ser próxima e acima de tudo tem de ser de partilha. É importante para mim enquanto ator ouvir o que têm para me dizer. A opinião, positiva ou negativa, é sempre válida.

O lado mediático, na parte do assédio, faz parte. É no bom sentido. Eu próprio passei por isso, quando via os Morangos com Açúcar, que na minha geração era incontornável. Lembro-me de ficar fascinado quando encontrava alguém na rua. Acho que tenho o dever de não me esquecer da criança que eu era. Penso que a minha atitude é sempre uma influência e tenho de ter essa noção. Uma coisa que me deixou muito feliz nos últimos tempos foi ver muita gente nova, de todo o sítio do país, a assistir à peça Romeu e Julieta. Perguntavam-me então se eu achava que o lado mediático, o meu e o da Bárbara Branco [namorada] levava novo público ao teatro. Eu espero que sim! Acho que temos a obrigação de cultivar o interesse de novos públicos para o teatro e para a arte em si. Acho que a nossa obrigação não é só estarmos bonitos numa fotografia do Instagram. É muito mais que isso!

Fotografia ©Nuno Sampaio

O José já teve também uma importante experiência no mundo do cinema, com o filme Gabriel. Interessa-lhe explorar mais este universo?

Sem dúvida! Acho que o cinema é ainda mais intemporal do que qualquer outra coisa, seja teatro ou novela. Acho que o cinema é aquilo que vai perdurar sempre. E quanto melhor for, mais tempo vai ser lembrado. O filme Gabriel foi uma experiência muito positiva. Na altura, eu questionava se conseguiria fazer tudo ao mesmo tempo, porque estava com teatro, novela e cinema. Como ator, conseguiria fazer três personagens? Quando vi o resultado de Gabriel fiquei mesmo muito feliz, fiquei orgulhoso! Foi um projeto que foi desgastante emocionalmente e fisicamente. Nós tivemos um mês e tal de preparação porque a personagem era um lutador de boxe e, por isso, tinha de ter outras aptidões que eu ainda não tinha. Tive de evoluir em termos de corpo e em aspetos técnicos para poder fazer aquela luta toda. E isso deu-me muito gozo! Enquanto ator, ter uma personagem que exija que eu trabalhe um lado psicológico ou físico, é ótimo!

Espero ter oportunidade de continuar a trabalhar em cinema. Se tudo correr bem, vou fazer um filme ainda este ano com o Sérgio Graciano, que eu acho que é um dos grandes realizadores portugueses. Penso que o cinema, o teatro e a televisão em termos de séries ou novelas são completamente diferentes: o teatro é uma maratona, é longo, demora tempo a fazer e, depois, tens aquele momento em que não dá para errar, porque tens o público ali à tua frente; a televisão é um sprint, tem um lado muito mais rápido, em que tens de estar com a personagem dentro de ti; já o cinema é uma mistura dos dois, em que tens a beleza cinematográfica, em que a fotografia é muito importante e onde contas a história não só com os atores, mas com todo o lado artístico. O cinema é mais onírico e utópico. Mas é muito bonito, enquanto ator, conseguir desdobrar-me nos três e ser o melhor possível em cada. Ser um ator completo!

Gostaríamos de pedir-lhe uma mensagem para os jovens que o acompanham e que anseiam por uma carreira no mundo da representação. Qual é o seu principal conselho?

Hoje em dia, há muitas promessas de nadas. Infelizmente, cruzo-me com pessoas que estão envolvidas com agências e que não vão a lado nenhum porque aquilo não é ser ator. Infelizmente, os valores estão um pouco trocados.

Aos mais jovens, e tendo em conta o meu percurso, o meu principal conselho é, se tiverem oportunidade, começar por fazer teatro amador. Acho que isso é uma base que vai servir para a vida. Porque o teatro amador ensina-nos coisas que não ensinam nas escolas. É um complemento! Depois, a formação é o mais importante numa carreira. É isso que vai fazer distinguir aqueles que vão ter oportunidade de trabalhar e aqueles que não vão ter oportunidade de trabalhar. O talento é muito importante, sim, mas o que faz mesmo a diferença é o trabalho! É a vontade de formação. Eu posso facilmente dizer que a Escola Profissional de Teatro de Cascais é uma das melhores do país, a par com a António Capelo, no Porto. Depois, o Conservatório Nacional, claro. Se tiverem a oportunidade de fazer esse percurso, não só vão ficar a conhecer bem a profissão e a História do teatro, como vão ser melhores pessoas. Porque estas escolas ensinam-nos a pensar, ensinam-nos a abrir horizontes e a ser bons espetadores… E por falar em espetadores, diria que há uma coisa que devo também aconselhar desde já: vão ver peças de teatro, vão ver cinema. Cultivem-se!

Vamos terminar esta entrevista com a típica pergunta de entrevista de emprego: onde se vê daqui a cinco ou dez anos? Quais são os seus principais anseios em termos de carreira?

Eu tenho vontade de fazer muita coisa (risos). Acima de tudo, quero continuar a desafiar-me como ator. Tenho medo que, um dia, eu não me desafie. Acho que o meu maior medo é estar cómodo! Acho que um ator nunca deve estar cómodo. Deve estar sempre agitado, com vontade de fazer mais e melhor. E sonhar alto! Daqui a cinco ou dez anos, espero já ter pisado o Teatro Nacional, pelo menos! (risos) E espero ter oportunidade de concretizar alguns sonhos, como trabalhar lá fora e desenvolver um projeto que tenho pensado com uns amigos, que espero que ganhe força daqui a uns tempos: uma série! Mas podemos falar disto no futuro? (risos)

Agradecimento: Tomes Caffé

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