Revista Rua

2022-01-26T20:23:52+00:00 Cultura, Música, Radar

José Valente e a infinita liberdade da viola d’arco

"Trégua" é o terceiro disco do violetista José Valente, numa colaboração com a Orquestra Filarmónica Gafanhense.
©D.R.
Redação26 Janeiro, 2022

José Valente e a infinita liberdade da viola d’arco

"Trégua" é o terceiro disco do violetista José Valente, numa colaboração com a Orquestra Filarmónica Gafanhense.

A música faz parte da sua vida desde sempre. Considerado um dos violetistas mais inovadores da sua geração, José Valente apresenta um repertório de prestígio, no qual tem vindo a explorar os limites da viola d’arco em interpretações com músicos e grupos de renome, como Dave Douglas, Paquito D’Rivera, Hank Roberts, subindo a vários palcos internacionais. Pelo caminho, lançou dois projetos discográficos, ambos fortemente aplaudidos pela crítica: Os Pássaros Estão Estragados (2015) e Serpente Infinita (2018).

Chega a vez de anunciar Trégua, um álbum que reflete uma inesperada e surpreendente ligação de um instrumento solista à realidade filarmónica, num processo disruptivo e inovador.

Gostaríamos de começar por perguntar ao José com que idade começou a tocar viola d’arco? A música sempre fez parte da sua vida?

Comecei a tocar viola d’arco com nove, mas prestes a fazer dez anos. Sim, se calhar a música sempre fez parte da minha vida. Segundo os meus pais, o meu fascínio pelo som manifestou-se muito cedo. Esta atração continua a ser notória no meu dia a dia, não só pela quantidade de música que ouço diariamente, como pelo facto de internamente (na minha cabeça) estar sempre a ouvir música. É uma apaixonante obsessão. Preciso dela como preciso de ar. Como dizia José Mário Branco, a música é a minha amante mais antiga. É a minha melhor amante.

Estudou jazz e improvisação em Nova Iorque. Era um passo necessário para iniciar uma carreira profissional na música? Considera que hoje em dia há mais oportunidades em Portugal?

Não sei se estudar jazz e improvisação é determinante para o início de uma carreira profissional. Tudo depende dos objetivos artísticos de cada aspirante a músico. É certo que a improvisação oferece certas qualidades e capacidades, infelizmente preteridas noutras práticas musicais, muito úteis para a adaptação de um músico à miríade de possibilidades profissionais inerentes à atividade artística. Mas não considero essa aprendizagem como fundamental para o desenvolvimento de um percurso musical notável. Aliás, acho muito mais importante que, independentemente do estilo musical, um aprendiz a ser músico termine o seu percurso académico (ou outro processo pedagógico de igual relevância) com conhecimentos técnicos que lhe permitam ser livre de explorar o instrumento e a música sem limites, conhecimentos estéticos que lhe facilitem o entendimento do estado da arte contemporânea e conhecimentos éticos que lhe alimentem uma maturidade sentimental e logística fundamental para a construção de uma carreira artística dedicada, coerente e com significado.

Não sei se existem mais oportunidades. Há imensa gente a estudar música a um nível supostamente superior. Ou seja, estão a ser formados imensos tocadores. Mas não necessariamente músicos. É preciso denunciar que em Portugal há uma total escassez de intensidade cultural. Além da centralização (um problema eterno, discutido desde sempre), falta uma oferta verdadeiramente diversificada nas propostas. Há um desnível asfixiante de visibilidade e oportunidade entre os estilos musicais menos convencionais e as tendências superficiais orientadas somente para o entretenimento. Esta discrepância não se resume aos argumentos abusivos da lei da procura, da falsa falta de público para um ou outro tipo de música, de arte. Esta é provocada pelo cruel desinteresse estratégico em propostas estéticas mais exigentes. A ausência de uma cultura eclética e rica na vivência diária dos portugueses, provoca uma temerária desumanização e, em termos mais práticos para a minha área, uma grave precaridade de logística e de talento no sector. Esta precaridade, por sua vez, retira o discernimento intelectual e a coragem necessárias para a invenção das mencionadas propostas diversificadas que fazem falta. É uma perigosa pescadinha de rabo na boca.

©D.R.

Tem vindo a explorar os “limites” do instrumento através de uma fusão de diferentes estilos musicais, resultando em novas linguagens. Que referências lhe interessam mais explorar? Como caracteriza/apresenta a sua identidade musical?

Desde do meu regresso a Portugal que o meu principal foco artístico é a descoberta de uma voz musical genuína e pessoal. A minha música tenta ser um meio de expressão sincero que transcende as minhas outras formas de comunicação que são limitadas. Em 2010, pouco depois do meu regresso, respondi numa entrevista que o meu estilo de música é “José Valente”. Mantenho esta resposta.

Eu considero a viola d’arco um meio para ser livre. Isto significa que não devo, em situação alguma, restringir as opções de vocabulário ou estilo musical disponíveis hoje em dia. Parafraseando António Pinho Vargas, o que me interessa é o discurso, não o vocabulário. É muito importante, em tudo o que crio, que o discurso seja claro. Subjetivo mas incisivo. Sem distrações. Depois, como em tudo na vida, há vocabulários, tiques musicais que me encantam mais do que outros. Esta simbiose entre a busca por uma autenticidade, um discurso claro e uma mistura de vocabulários resulta na minha “unidade musical”.

É considerado um dos violetistas mais inovadores da sua geração. De que forma se revê neste reconhecimento?

É me indiferente no ponto de vista artístico. O que me interessa, o que me seduz neste caminho é o crescimento artístico e humano. Mas é agradável saber deste reconhecimento. É algo que me pode ajudar no desenvolvimento de desafios artísticos cada vez mais estimulantes.

Pode agora apresentar-nos este Trégua? Como é que descreve o encontro entre dois mundos distintos e que vem aproximar a viola d’arco, enquanto instrumento solista, à realidade filarmónica?

A palavra que melhor explica este projeto e consequente disco é “aproximação”. Noutras entrevistas, expliquei que Trégua é uma intervenção política. Não num ponto de vista partidário ou de poder, mas numa perspetiva de comunicação, de entrosamento e contacto entre dois universos aparentemente estranhos. Este diálogo entre a viola d’arco (que representa uma tradição mais erudita ou clássica se quisermos) e a banda filarmónica (que é tendencialmente encarada como uma formação da tradição popular), motivou uma conversa cheia de positivas dúvidas que, depois, se resolveram através da expressão musical. Esta nova comunicação, incentivou também uma nova linguagem e, a partir daí, um paradigma artístico e relacional que, até este disco, não existia. Inaugurámos, com esta experiência, mais uma linha de conhecimento que agora poderá ser explorada por outros e quaisquer intervenientes. Ou seja, espero que Trégua seja a semente para futuras ações com um carácter igualmente inovador e possivelmente desestabilizador.

Em que é que se inspirou para a conceção dos atos que compõem Trégua? Quais são as influências por detrás desta criação? O que é que procurou explorar com a obra?

A reflexão crítica sobre os trabalhos que antecederam Trégua precipitou a descoberta de alguns dos estímulos criativos que sustentam este novo disco. Também houve uma investigação conceptual e uma investigação musical. Ouvi, transcrevi e analisei inúmeras obras para bandas filarmónicas. Desde do repertório mais convencional, a obras contemporâneas. O que me permitiu aprender sobre a orquestração para este tipo de conjuntos. Fiz o mesmo com peças onde a relação instrumento solista/orquestra ou big band, é evidente (como o concerto para violino e orquestra de John Adams ou o disco The Big Wig de Andreas Schaerer). Foi a partir desta pesquisa que inventei escalas e motivos musicais. Por exemplo: fui influenciado por motivos e frases musicais de obras de Walton, Kachaturian ou Andriessen, na composição da informação musical para A Birra do Gaspar ou Festa. A nível conceptual, continuei a explorar uma ideia proveniente do Mito de Sísifo de Camus (um livro que foi essencial para a composição de Serpente Infinita – algo que explicarei na resposta seguinte). O título deste disco é uma alusão direta ao livro La Tregua de Primo Levi, onde o autor conta a sua viagem de regresso de Auschwitz para Itália. Entre as várias peripécias relatadas sente-se um espírito incrível de camaradagem entre os amigos que acompanham Primo Levi na viagem, todos eles sobreviventes do campo de concentração. Sente-se uma amizade profunda que transcende ideologias, credos ou crenças. Este sentimento e a sua inerente humanidade foi essencial para a edificação filosófica de Trégua.

Além disto, há a questão do riso, da piada, da festa, da diversão, de todos estes acontecimentos otimistas e alegres que são inesperados e por isso, subversores da rotina, do aborrecimento, do dia-a-dia oprimido por ser sempre igual. Para me informar sobre as particularidades do riso, li O Riso de Bergson, vi muito stand-up (inglês, americano e português), li alguns ensaios de comediantes (do Ricardo Araújo Pereira, do Seinfeld, etc.), entre outras coisas.

Tanto Os Pássaros estão estragados como Serpente Infinita receberam um forte reconhecimento, bem como nomeações importantes. Este terceiro momento acompanha as referências musicais dos discos anteriores ou apresenta-se sob uma nova posição estética?

Qualquer trabalho novo é uma continuação do caminho traçado anteriormente, misturada com uma nova proposta ou intenção estética. Só assim é que se consegue estar numa constante senda de evolução criativa. Em Trégua há uma conexão conceptual com os dois discos anteriores: Os Pássaros estão estragados foi, em parte, uma denúncia aos novos modelos de opressão que, escondidos entre a liberdade equivocada que define a sociedade atual, manipulam as populações a viver de acordo com um regime egoísta baseado nas urgências desenfreadas do consumo; Serpente Infinita refletiu sobre o nosso quotidiano como principal e mais forte mecanismo de aprisionamento. Seguindo a premissa de O Mito de Sísifo, o quotidiano é o estupefaciente que nos facilita a existência porque nos anestesia a consciência e a perceção de que a vida é absurda. Porém, o que acontece quando há um despertar da consciência? Como reagir perante a noção de que não controlamos a vida? Camus propõe dois trilhos: o suicídio ou o restabelecimento. No caso de Serpente Infinita, só sobrou a desilusão, a decadência, a tristeza perante o pesadelo que é o ramerrão aborrecido de todos os dias.

Então, eis que surge Trégua: um conjunto de peças que se posicionam entre os dois contextos anunciados, mas que oferecem um possível restabelecimento. Uma hipótese de resposta perante a adversidade, através da gargalhada. Uma alternativa ao cárcere imposto pelo quotidiano através de graçolas, convívios inesperados, de extroversões felizes.

Já há datas de apresentação da obra? A promoção do projeto será o objetivo dos próximos tempos?

O disco Trégua foi estreado em Novembro de 2021, na Casa da Cultura de Ílhavo. Foi uma apresentação inserida no Festival MILHA, organizado pelo 23 Milhas. Surgiram, ao longo do processo, várias manifestações de interesse. Porém, independentemente do peso logístico que este projeto acarreta, neste momento a incerteza provocada pela pandemia, impede muitos equipamentos de confirmar e fechar datas concretas. Esperamos ter alguns concertos entre 2022 e 2023.

Partilhar Artigo: