Revista Rua

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“Julio Iglesias: O Espanhol que Encantou o Mundo” é uma ode curiosa ao mito espanhol

O que Ignacio Peyró nos traz é a história de um ídolo de gerações, à qual não falha quase nada – não sendo uma biografia oficial, sabe-se que chegou até às mãos do próprio Iglesias.
Cláudia Paiva Silva17 Agosto, 2025

“Julio Iglesias: O Espanhol que Encantou o Mundo” é uma ode curiosa ao mito espanhol

O que Ignacio Peyró nos traz é a história de um ídolo de gerações, à qual não falha quase nada – não sendo uma biografia oficial, sabe-se que chegou até às mãos do próprio Iglesias.

Existe toda uma geração que se pode chamar pré-Julio e outra designada, pós-Julio. Uma que nasceu, cresceu e ouviu avidamente os seus temas românticos, acompanhando-lhe a saga de vida. Outra que, talvez não sendo fã, definitivamente não pode dizer que nunca ouviu falar. Décadas antes de fenómenos como Antonio Banderas ou Rafael Nadal (ou mesmo a cantora Rosalía) levarem Espanha para os olhos do mundo, existiu (e existe ainda) Julio Iglesias. Um fenómeno que era suposto ser jogador de futebol, mas que virou cantor de música popular. Popular sem ser “pimba”, navegando os sabores políticos desde a década de 70, abrindo caminho à imprensa “cor-de-rosa”, entre capas e capas que contavam a sua vida pessoal em detalhe e, en-cantando pelo planeta, triunfando em 14 línguas distintas.

Portugal não é indiferente à personagem e esta biografia, que o autor Ignacio Peyró designa por “vida”, também nos chega pela editora Zigurate. Escrita num tom leve, mas sério, sem sequer dissimular uma certa ironia ou sarcasmo, esta “vida” vai contando os primeiros tempos nos bairros de Madrid, banhados pela direita de Franco e, como após a queda do regime, Iglesias soube trabalhar bem os flancos e chegar aos vários golos de uma baliza que não seria a dos relvados, mas sim dos vários públicos até onde viajou.

Mulherengo inveterado, foi apenas depois dos 46 anos que parece ter “acalmado” as lides mais “calientes”. 8 filhos, 2 casamentos, o “artista latino que mais discos vendeu em Espanha e na História” encontra-se agora num exílio autoimposto entre Punta Cana e Miami (onde reside desde meados dos anos 80), onde trabalha com os filhos mais velhos para um documentário na Netflix.

O que Ignacio Peyró nos traz, no entanto, é a história de um ídolo de gerações, à qual não falha quase nada – não sendo uma biografia oficial, sabe-se que chegou até às mãos do próprio Iglesias. Que não se pronunciou desfavoravelmente. Nem o seu oposto. Contudo, o autor dá-se por contente – cresceu a ouvir o cantor, não lhe tem nenhum rancor e sabe que seria uma história imperdível para quase toda uma Espanha que ainda sonha com outros tempos.

Por outro lado, Julio também lhe deverá agradecer. Numa época plena do século XXI, onde os “verdadeiros” artistas são trocados por influências internacionais e onde as canções hit não passam de momentos (e momentos em plataformas de streaming) – raros são os artistas e bandas que se podem comparar a um Raphael, uma Lola Flores ou a um Julio Iglesias (exemplos totalmente espanhóis, mas equivalentes, em reconhecimento, a um António Calvário, uma Amália Rodrigues, ou mesmo, a um Marco Paulo). O artista espanhol mais internacional de sempre, renasce e é relembrado em vida.

Nada pior quando as biografias surgem como cogumelos enquanto os “alvos” já cá não estão para ler, para se divertirem e para se divertirem “defendendo” de “falácias” – que já não os podem afetar, mas que lhes dão ainda “pica”.

Também por isso Peyró quis escrever esta  “vida” – permitindo-se a liberdade criativa com base nas notícias e na história, sem ter de passar pelo crivo de assessores ou de cortes editoriais, o que pode ou não pode ser escrito ou a forma como o deve ser.

Mas não seja apenas por isso. Desde há uns anos que ocorrem os “memes de Julio” – uma série de imagens editadas, que aproveitando fotografias icónicas do próprio ícone em pessoa, são partilhas à exaustão nas redes sociais durante o mês de… claro, Julho ou Julio, em espanhol.

O que não nos mata torna-nos mais fortes. É por isso que depois de um brutal acidente que o deixou entre a vida e a morte, levando-o até às cantigas, corações partidos, por casamentos terminados, e as mazelas da própria idade – fora todas as notícias falsas que o dão como morto – entre estilos musicais e duetos com os maiores do mundo da música, Julio ainda lança cartas. O seu charme, não apenas com as mulheres, mas também com os homens mais poderosos (jogos de Poder) poderiam até tê-lo levado mais longe. Mas politiquices à parte, ele soube bem manejar o leme da sua vida, permitindo-se agora ser intocável e poder ter opinião sem que lhe consigam tocar.

“”Fui muito dado à superficialidade”, confessou a certa altura Julio Iglesias. Era decerto uma estratégia adaptativa, mas a sua superficialidade acabou por nos tornar a todos mais leves, como uma boa desculpa para nos deixarmos levar pelo sentimentalismo quando soam canções das quais só entendemos palavras soltas. O mínimo é ficarmos-lhe gratos. O mínimo foi termos-lhe dado, nesta vida, a glória de Paris, os prazeres de Bel Air e as brisas de Miami.”

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