Revista Rua

2019-12-23T14:37:19+00:00 Gastronomia, Sabores

Largo do Paço, um recanto de experiências…dignas de estrela!

Localizado na Casa da Calçada, um hotel de cinco estrelas em Amarante, o restaurante Largo do Paço renovou a sua estrela Michelin
Novilho
Andreia Filipa Ferreira23 Dezembro, 2019
Largo do Paço, um recanto de experiências…dignas de estrela!
Localizado na Casa da Calçada, um hotel de cinco estrelas em Amarante, o restaurante Largo do Paço renovou a sua estrela Michelin

É com a aura do Vale do Douro e a companhia silenciosa do rio Tâmega que se ergue a Casa da Calçada Relais & Chateaux, um palácio do século XVI que é refúgio para quem procura uma experiência de realeza. Com uma atmosfera envolvente tranquila, marcada pelos traços rurais de Amarante, uma região reconhecida pela sua cultura e património – destacamos, por exemplo, o Museu Amadeo de Souza-Cardoso, artista que vangloria a terra – a Casa da Calçada mostra-se imponente e requintada. Edificada com o propósito de ser um dos principais palácios do Conde de Redondo, a Casa da Calçada é um livro de História. Foi aqui, durante as invasões francesas, que se instalaram os comandos aliados de Portugal e Inglaterra. Também António do Lago Cerqueira, um dos mais relevantes líderes políticos da Primeira República nasceu neste autêntico palácio. Hoje, a Casa da Calçada é exemplo da hospitalidade portuguesa… e a gastronomia, à bom modo português, é um destaque imperdível. Não é à toa que o Largo do Paço, o restaurante conduzido pelo chef Tiago Bonito, renovou recentemente a sua estrela Michelin, pelo terceiro ano consecutivo (a estrela foi atribuída em 2004 e manteve-se, apenas com um ano de interregno desde então).

Chef Tiago Bonito ©Nuno Sampaio

As propostas do Largo do Paço, pelas mãos de Tiago Bonito

 

Com as águas do Rio Tâmega a correr lá fora, visíveis pela janela, a noite na Casa da Calçada tem, imperativamente, de iniciar no Largo do Paço. Com uma equipa jovem, coordenada pelo chef Tiago Bonito, natural de Montemor-o-Novo, este restaurante mostra-se em constante evolução, com propostas que trazem à mesa memórias, caminhos e identidade portuguesa. Com toda a criatividade – e inquietude – do chef, o Largo do Paço apresentou novo menu e nós fomos experimentar todos os detalhes!

Com um serviço atencioso, a nossa experiência no Largo do Paço começa com um cocktail do chef, uma forma harmoniosa de nos dar as boas-vindas e nos preparar para a refeição. As propostas da nova carta destacam-se pela tradição e inovação, numa harmonia perfeita – e os dois menus de degustação, apelidados de Caminhos e Identidade, trazem a inspiração do chef com base nos sabores da cozinha portuguesa, em recriações de deixar água na boca. “Os pratos quando nascem são como filhos. Vão crescendo, vão-se educando. Vamos testando ingredientes, principalmente com produtos locais. O meu melhor amigo é o erro! É quando erro que eu melhoro!”, explica-nos o chef, referindo-se ao seu método de criação da carta. Com os melhores produtos trabalhados com técnicas e soluções contemporâneas e arrojadas, que resultam em originais pratos de autor, respeitando a sazonalidade dos ingredientes, a carta de inverno do Largo do Paço surpreende-nos pela sua capacidade de despertar memórias e vivências – promessa do chef!

Mas vamos às sugestões da carta, apenas para abrir apetite: nas entradas, destaque para a Perdiz, foie gras, pimenta sichuan e royal de castanha (27€). Nos pratos principais, o Robalo, gambas do Algarve, texturas de aipo e molho fumado (39€) é sempre uma escolha acertada. Já nos pratos de carne, o Novilho “Arouquesa” com molejas, alcachofra e molho bordalês (39€) e o Borrego, abóbora, beringela, miso e especiarias (36€) são opções de conforto e verdadeiras viagens de sabores para o paladar. Para o final da refeição, O Nosso Carro de Queijos, com uma variada seleção de queijos nacionais e internacionais, acompanhados de compotas e frutos secos, é a sugestão do Largo do Paço para prolongar e saborear bons momentos à mesa. Está disponível em duas opções, de três variedades (14€) ou cinco variedades (18€). Das sobremesas imperdíveis, destaca-se a Azeitona, com soro de leite, balsâmico velho e whisky fumado (17€), uma combinação improvável, mas saborosa.

Contudo, uma visita ao Largo do Paço exige que se saboreie tudo com calma e afinco. Por isso, a escolha mais acertada é deixar-se levar pelas propostas dos menus de degustação: O Menu Caminhos (115€) e o Menu Identidade (130€), que podem ser harmonizados com uma cuidada seleção vinhos “Escolha do Sommelier”, uma sugestão que enriquece a experiência gastronómica e que está disponível por 55€ e 65€ por pessoa, respetivamente. Ah, e guarde esta dica: a apresentação dos vinhos pelo sommelier da casa, Luís Pedro, é um momento de charme. Com todo o detalhe, o sommelier envolve-nos na História do vinho, antes de o provarmos. É uma narração harmoniosa que nos cativa e nos leva (quase) de volta ao momento de vindima.

  • ©Nuno Sampaio
  • ©Nuno Sampaio
  • Bacalhau à Brás ©Nuno Sampaio
  • Bacalhau
  • Robalo
  • Lavagante ©Nuno Sampaio
  • Pescada de Anzol ©Nuno Sampaio
  • Borrego ©Nuno Sampaio
  • Memórias de Infância ©Nuno Sampaio

Caminhos, um menu inspirado nas raízes do chef, é composto por sete momentos, em representação da evolução constante dos métodos utilizados na cozinha de Tiago Bonito. Bacalhau fresco, acompanhado de uma desconstrução do “pinxto guilda”, espuma de patanisca, alho negro e um escabeche preparado em nitrogénio é um dos destaques deste menu. Todavia, um dos momentos altos desta experiência de degustação é o momento da sobremesa, com Memórias de Infância, um prato composto por pipocas, algodão doce e caramelo, a lembrar os sabores das feiras e festas populares. Um final de refeição que promete aquecer o coração nos dias mais frios!

Já o menu Identidade apresenta-se como uma homenagem aos lugares por onde o chef já passou. O menu inicia-se com as Saudações do Chef, cinco amuse bouches que cedo mostram a identidade da cozinha de Tiago Bonito. Com sete pratos, destacando principalmente a Perdiz, foie gras, pimenta de sichuan e royal de castanha e ainda o Lavagante, bouillabaisse, plâncton e citrinos. Salmonete e borrego fazem também parte deste menu que, no final, convida para saborear uma sobremesa que é uma autêntica obra de arte: Amadeo de Souza-Cardoso, uma sobremesa de chocolate negro, baunilha e café, em homenagem ao pintor, nascido em Amarante. Pedindo ao cliente para dar azo à sua criatividade, esta sobremesa é um momento de partilha… até nas redes sociais através do hashtag #beamadeo. “Nós, como cozinheiros, somos responsáveis pela cultura, somos mensageiros das tradições”, afirma Tiago Bonito.

Com 33 anos, o chef define todo o trabalho do Largo do Paço numa expressão: “Somos arrojados, mas com consistência!”. Será que é esse o segredo para garantir a estrela Michelin? “Todos os dias queremos fazer melhor, fazer o cliente sentir-se especial. Queremos melhorar todos os dias. Eu prefiro dar passos certos, não andar a semear aos sete ventos e depois não ter sucesso. No meu ponto de vista, não há várias cozinhas. Só há duas cozinhas no mundo: a cozinha boa e a cozinha má. Aprendemos muito com o que os outros fazem, não estamos numa ilha. Penso que é esse conjunto que vale a estrela Michelin”, afirme Tiago Bonito, acrescentando: “Não trabalho com a ambição da segunda estrela. Se merecermos, ela aparece. Não vou ficar cego ou maluco com a estrela. O importante é que o cliente volte!”.

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