Revista Rua

2022-02-17T14:19:19+00:00 Opinião, Radar

Last Folio, onde a escuridão encontra a luz da sobrevivência

História
©D.R.
Cláudia Paiva Silva26 Janeiro, 2022
Last Folio, onde a escuridão encontra a luz da sobrevivência
História

O perpétuo desafio de resgatar a memória não é mais do que a luta contra o inevitável passar do tempo. A exposição que inaugura a 27 de janeiro – data que não é aleatória – Last Folio, no Museu Coleção Berardo, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, é apenas uma dessas tentativas que nos remetem para um passado histórico, não apenas a tudo o que a Segunda Grande Guerra implicou na vida (e morte) de milhões de pessoas, mas bem mais atrás, através de viagens e diáspora ibérica, de constantes perseguições e fugas forçadas.

A escolha do dia 27 de janeiro para a sua inauguração está diretamente ligada ao Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, mas tanto para Katya Krausova (reputada cineasta) como para Yuri Dojc (destacado e internacionalmente conhecido fotógrafo), ambos nascidos na antiga Checoslováquia, mas emigrantes forçados após a entrada da União Soviética na região, não é esse o objetivo das imagens e filmes gravados. Para Katya, “mais do que uma lembrança do passado, da história das pessoas e dos locais, encontra-se aqui uma forma de comemorar a sobrevivência”. No entanto, é difícil a um público que nunca terá sofrido na pele a perseguição e a violência ou ódio racial, simplesmente por existir, sentir ou olhar para o passado e vê-lo como um caminho de luz ou redenção. A empatia faz-se através da ideia de dor, morte e horror, não por uma questão macabra, mas porque a natureza humana nos faz assim, sem malícia.

Numa Europa atual onde os climas extremados das direitas totalitárias se fazem ecoar cada vez a maior tom e volume, na qual os imigrantes são olhados com receio, ou onde as minorias raciais ou religiosas, ou apenas o livre pensamento e expressão de opinião, se tornam novamente alvos preferenciais a atos de violência, a iminência de encontrar luz na escuridão ou na sobrevivência da espécie humana, torna-se também cada vez mais rara.

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Assim, em Last Folio, pede-se um trabalho mental ao visitante, no qual não se evoquem apenas os mortos, mas sim que se comemorem os vivos que conseguiram sair de cenários de guerra e reconstruir as suas vidas. Enquanto a exposição fotográfica de Yuri se torna numa viagem pessoal ao passado da sua família pela Eslováquia oriental, onde a presença judaica era até 1939 muito forte, Last Folio, o filme realizado por Katya, resgata as pessoas que experienciaram e viveram tudo o que não era suposto verem ou sobreviverem.

Na visita à antiga escola judaica de Bardejov, onde, num único dia as crianças foram levadas em comboio para Auschwitz, na Polónia vizinha, encontraram-se intactos, mas sem qualquer salvação de restauro, vários livros hebraicos, de variados temas. O seu estado era tal que qualquer tentativa de manuseio os poderia destruir, transformando-os em pó, comidos pelas traças e queimados pelo tempo – aquele instante em que a matéria física e espiritual se tocam no eterno. É essa a temática da exposição. Pilhas de livros que foram salvos das fogueiras de uma inquisição forçada, militar e de extermínio, para se guardarem em memória do que foi e não poderá voltar a acontecer. O curioso é que, em alguns casos, restam apenas as letras. Os bichos do papel não gostam da tinta, preferindo comer folhas, capas, lombadas, até não restar quase nada da fibra de celulose que um dia pertenceu a uma árvore de raiz (e as raízes podem chegar a níveis tão profundos, como se alargarem ao espaço em redor). O misticismo aqui é imenso, as palavras ficam, mesmo que tudo o resto possa desaparecer e onde as metáforas da vida se confundem com a realidade, numa tentativa de juntar novamente peças soltas há muito partidas do seu enquadramento original. Yuri fez aqui uma viagem ao seu passado para reconhecer o presente, culminando com coincidências onde a sua história pessoal se cruza com a história mundial, e onde as camadas de papel que constroem os livros, contando histórias de vida. São como estratos de sedimentos que contam a história da terra. Sabemos que, por vezes, é a partir de lava incandescente, de superfícies vulcânicas que nada parecem trazer, que se dão as paisagens mais magníficas e cheias de Vida.

Naquela que é a maior exposição de Last Folio na Europa, uma vez que foi proporcionado um espaço muito superior ao que outros museus puderam até agora conceder, Yuri e Katya têm a igual oportunidade de apresentar ainda mais imagens do que as inicialmente previstas ou presentes no catálogo, um livro lindíssimo com composições em relevo e cores muito específicas, geralmente presentes nas antigas sinagogas fotografadas ou nas restantes capas dos livros que pudessem ser resgatados do esquecimento, geralmente em azul ou carmim. Detalhe esse que Katya fez questão de explicar. As antigas sinagogas da Europa de Leste têm muitos detalhes arquitetónicos ou decorativos que recordam toda a influência árabe ou ibérica, naquilo que se crê ser influência sefardita nas comunidades estabelecidas na fronteira com o antigo extremo oriental europeu, uma total reminiscência e sentimento de pertença e presença dos judeus que tiveram de fugir de Portugal e Espanha a partir de 1492, rumando aos Países Baixos e mais além.

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Para Portugal é mais uma vez um confronto com o seu passado histórico, mas também mais uma hipótese de o compreender e empreender por um caminho de maior tolerância. Um caminho onde a memória não se perca. Até à última folha.

Mais informações:

Tendo o total apoio da Embaixada do Canadá, Embaixada da República Eslovaca, Embaixada de Israel e Embaixada da República Federal da Alemanha, Last Folio irá contar com visitas orientadas e gratuitas a 29 de janeiro com a própria autora Katya Krausova, e nos dias 28 de fevereiro, 12 de março, 9 de abril e 28 de maio. Em outubro irá ser inaugurada no Porto.

Estão igualmente previstas atividades educativas e contínuas, aos sábados e domingos, sob o título “Que memórias cabem num livro?”.

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