Revista Rua

2023-06-14T23:03:33+01:00 Cultura, Literatura

Leme, de Madalena Sá Fernandes é um olhar para dentro

Um regresso a uma infância quebrada, que transforma a personalidade do que vamos ser no futuro.
Madalena Sá Fernandes
Cláudia Paiva Silva14 Junho, 2023
Leme, de Madalena Sá Fernandes é um olhar para dentro
Um regresso a uma infância quebrada, que transforma a personalidade do que vamos ser no futuro.

Leme lê-se num único fôlego. De forma dilacerante, mas pausada, sem imagens gráficas, mas com um grafismo que nos deixa consequentemente perturbados. É um retrato de como a violência psicológica pode ter um efeito tão ou mais devastador do que a violência física, nomeadamente na infância e adolescência.

A protagonista, que é a própria autora, deixa-nos o espelho do que uma única pessoa pode trazer às outras que a rodeiam. E a forma como acaba por ser lembrada, enquanto se eleva ao esquecimento quase mandatório, através da sua morte.

Contudo, as estatísticas não nos dizem isso. Seria mais fácil tudo ter um fim rápido, e que os sobreviventes conseguissem recuperar as suas vidas. Contudo, os efeitos letais de uma relação de violência perpetuam-se no espaço e no tempo, enquanto as memórias ocuparem toda a gravidade do espaço exterior.

Logo de início é explicado ao leitor que escrever um livro não é despir as camadas da alma (roupa), mas sim o exato oposto. É ir reconstruindo a história. Mais tarde, que as caixas que nos seguem nas mudanças físicas, de um lado para o outro, são abertas a espaços, de onde se retiram mais alguns objetos, mais algumas lembranças. São depois arrumadas nas devidas prateleiras, montando o fio condutor da nossa história. E que os detalhes são, por vezes, tudo o que liga uns elementos aos outros. Uma respiração, um tom de voz, um objeto. Ou a memória do simples prazer em ler um livro, num ato de proteção.

Contudo, depois de tudo, há que perceber em que medida conseguimos resgatar a vida, encontrar o “leme”, que apenas nós podemos agarrar. Porque entre a raiva e ódio, também, talvez, possa existir a compreensão e o perdão – se não pelos que nos fizeram mal, pelo menos, por nós próprios.

Um livro de uma história, que parece ser escrito por pequenos contos ou peças soltas, como se fosse um diário. Os avanços e recuos, e as supostas repetições não são mais do que encaixes de vida, de memórias que se vão revelando ao papel. Um ato de coragem para avançar em frente.

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