Revista Rua

2019-04-24T17:44:41+00:00 Opinião

Lendas, crenças e estórias mundanas do Património Cultural

Património
Hugo Aluai Sampaio
Hugo Aluai Sampaio
24 Abril, 2019
Lendas, crenças e estórias mundanas do Património Cultural

Ainda há dúvidas que um dos bens mais valiosos são as pessoas e que as expressões culturais seriam inexistentes sem elas?

O génio criador do Homem permitiu, desde muito cedo, dar aso à sua imaginação. Entre os mais antigos vestígios humanos contam-se inúmeras e diferentes formas de materialização do universo cognitivo humano, representando a sua cosmovisão, própria da forma como o Homem experienciou o Mundo que o rodeava.

É recorrente perceber que muitos “sítios antigos” permanecem no quotidiano imaginário das populações atuais, ainda que, em alguns casos, sob uma concepção bem diferente da sua natureza original. E, como não há fumo sem fogo, é normal perceber que aos sítios a que as populações associam estórias e lendas houve, eventualmente, ação humana antiga. Curiosamente, e quando questionados, a sabedoria popular explica todos estes “sítios antigos” com uma fórmula muito simples: “Ah, isso? Isso é do tempo dos mouros”.

Certo! Não é preciso muito para durante uns dias de trabalhos de campo chegarmos à conclusão que os mouros estiveram em todo o lado, já que são explicação para tudo: “Naquele penedo apareceu a moura encantada que se transformou em cobra”, “Lá em cima, no alto do monte, diz-se que estão enterrados uns enormes sinos de ouro e os mouros viveram lá, debaixo de terra” ou “Diz-se que em tempos os mouros cavaram um túnel que liga os dois montes”. Estas são algumas das (bizarras) narrativas populares que justificam (popularmente) os vestígios antigos. Não obstante, estas lendas e crenças associadas a vestígios do passado têm a capacidade de mostrar como (ainda hoje) estes sítios se encontram ativos no presente das comunidades locais. São elas que marcam, com essas lendas e crenças, os lugares na paisagem que, seja pelas razões mais variadas, não perde(ra)m importância, ainda que os seus significados estejam longe de representar de forma fidedigna o seu propósito original.

Mas não nos deixemos enganar. Porque “um dos bens mais valiosos são as pessoas”, e porque as “narrativas populares” vivem nelas (pessoas), perdê-las é perder essas lendas, essas crenças, essas estórias… essas memórias!

Um dos casos mais curiosos é recorrentemente identificado na arte rupestre. Obsessão? Talvez! É normal que painéis gravados com mensagens distantes no tempo partilhem representações e cognições mais recentes, em certos casos datadas “de ontem”. Ainda assim, raros são os casos em que este reuso de lugares ancestrais “desrespeita” a sua antiguidade. Exceção feita, claro, àqueles casos de imbecilidade extrema e declarada que visam, tão-só e apenas, maltratar ou destruir esses vestígios (vá-se lá saber porquê!). Nos casos em que tudo é respeitado, ocorre a harmonia perfeita entre passado e presente sobre um mesmo suporte perene – a pedra –, perpetuando a forma como o Homem viu, vê, representou e representa o que o rodeia.

Mas não nos deixemos enganar. Porque “um dos bens mais valiosos são as pessoas”, e porque as “narrativas populares” vivem nelas (pessoas), perdê-las é perder essas lendas, essas crenças, essas estórias… essas memórias! Um processo que parece irreversível, quando se fala tanto no envelhecimento da população. E eu pergunto: não seria de apostar no registo, para a posteridade, destas valiosas expressões culturais? A resposta? Não, “isso” não tem o impacto de uma estrada alcatroada; “isso” não tem a beldade de uma rotunda; “isso” não dá votos! Mais do que o repto, fica aqui o reconhecimento: um grande bem-haja para aqueles que vão, ainda que de forma pontual e tímida e com os poucos recursos que têm, fazendo o levantamento “disso”.

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