Revista Rua

2020-05-06T09:28:02+00:00 Opinião

Ler para crer

Sociedade
Pedro Nascimento
Pedro Nascimento
6 Maio, 2020
Ler para crer
©D.R.

Quando tive o privilégio de começar a escrever para a Revista Rua, estava longe de imaginar os tempos que viriam. Na verdade, procurava fazer uma ponte cronologicamente alinhada de acontecimentos, contribuindo para uma melhor compreensão dos dias vividos. Mas o mundo brindou-nos com uma pandemia que nos absorveu numa relação inextricável.

Porém, não obstante todas as profundas alterações em que mergulhamos, há pontos que sempre continuam presentes e prolíficos. Lembrar-se-ão os mais atentos do conteúdo do meu primeiro artigo (“75 anos de uma lição mal estudada”), onde apontei a crucial importância de aprendermos com o passado. Mesmo para abordarmos um momento tão peculiar como o que vivemos, revelador de características tão distintivas dos demais, este tirocínio é um excelente ponto de partida.

Neste sentido, importa realçar que a mudança a curto prazo é, como vimos, muito imprevisível. O futuro do país e da Europa pode mergulhar vertiginosamente numa rápida sucessão, pois os augúrios são bem piores do que eram há poucos meses. Estaremos prontos para fazer frente ao desafio? Não sabemos. Mas sabemos que o resultado terá enormes repercussões a longo prazo.

Assim, partindo de uma perspectiva global e enaltecendo toda a importância da conservação da saúde, é imperativo debruçarmo-nos sobre a resposta aos impactos económico-sociais e o respectivo caminho a percorrer. Por conseguinte, muitos têm evocado tempos passados – nomeadamente as guerras – para percebermos o que foi bem feito e o que contribuiu para a agudização dos problemas.

Tenhamos por certo que não devemos descurar as diferentes circunstâncias dos eventos. Mas pela magistral importância que teve nos moldes em que se desenvolveu a Europa, vislumbro a sobrevivência da Alemanha no pós-Segunda Guerra Mundial como um excelente exemplo de superação.

Em 1943, com a guerra ainda longe de conhecer o seu final, Heinrich Himmler encarregou Otto Ohlendorf da preparação para o regresso às regras normais do mercado livre no pós-guerra. Este plano contou com o cunho de Ludwig Erhard (futuro Chanceler da Alemanha Ocidental) e de Karl Blessing (que viria a tornar-se Presidente do Bundesbank). Em pleno conflito, a economia nazi funcionava à custa de emissão de moeda a um ritmo alucinante. Os alemães não tinham produtos de luxo à disposição e o preço e consumo dos bens essenciais eram controlados. Por conseguinte, grande parte das poupanças ficaram congeladas nas contas bancárias.

Em boa verdade, esta “poupança” foi assim imposta aos alemães. Mas Ehrard e Blessing não tinham dúvidas sobre o que viria a acontecer quando essa imposição terminasse: sem economias obrigadas a aceitar a moeda alemã sobrevalorizada (como aconteceu nos países invadidos no início da guerra), surgiria uma inflacção totalmente descontrolada. Foi aqui que Ehrard deixou a sua marca. A solução consistiu em absorver completamente o excesso de papel-moeda com a abolição do “Reichsmark” e a introdução de uma nova moeda, a “Deutsche Mark”. E se os aforradores particulares contaram com uma taxa de câmbio de 15:1 (15 Rischsmarks valiam 1 Deutsche Mark), os activos das empresas seriam convertidos à taxa de 1:1. As poupanças das pessoas – que constituíam um sério problema – seriam virtualmente destruídas, mas preservar-se-ia o capital empresarial.

Todo este plano assentava na certeza da vitória alemã, que não aconteceu. Mas na Alemanha Ocidental do pós-guerra, os Aliados deparavam- se com a necessidade extrema de colocar novamente a economia alemã em funcionamento. E o velho plano de Ehrard seria a única oportunidade de o fazer no mais breve período. Quando questionado pelas autoridades americanas sobre a loucura de aliviar um sistema de racionamento sem a existência de comida no mercado, Ehrard respondeu: “eu não aliviei o sistema de racionamento. Aboli-o! Agora, os alemães só precisam de Deutsche Marks, e vão trabalhar à doida para os ter!”. O capital das empresas foi preservado. De um dia para o outro, trabalhadores encheram as fábricas e as lojas ficaram com mercadorias. O Plano Marshall que se seguiria foi a cereja no topo do bolo. E assim, o que ficou conhecido como “Wirtschaftwunder” (milagre económico), na verdade, de milagre nada teve.

Não pretendo com isto apontar uma qualquer solução na esteira do relatado. Tão-só vincar que a Europa não precisa de um milagre. Precisa de aprender com os erros e as virtudes do passado. Afinal, estamos uma vez mais sob a espada de Dâmocles. E não se serviram os Aliados de um plano originariamente elaborado pelos nazis para sustentar o III Reich no final da guerra? É bom ler. Para crer.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Advogado. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Aficionado por música e desporto. Entusiasta de História Militar e autor da página WWII Stories.

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