Revista Rua

2019-08-05T21:11:28+00:00 Atelier, Bazar

Lígia Claro, a arte do macramé

Lígia Claro é um exemplo de força de vontade para reinventar tradições.
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva5 Agosto, 2019
Lígia Claro, a arte do macramé
Lígia Claro é um exemplo de força de vontade para reinventar tradições.

Nascida em Ovar, terra de pescadores e varinas, mas a morar no Porto, Lígia Claro tem 35 anos e é mais um exemplo de força de vontade que dá novo fôlego à tradição.

Começou por pertencer a uma minoria de fotógrafos do Instagram, numa altura em que a rede ainda era um espaço relativamente pequeno feito por grupos de conhecidos, que se encontra com o objetivo único de fotografar. Possivelmente, de forma talvez até aleatória, mas devido a um perfil único, belo e sem artifícios, é um olhar que nos capta a atenção. Rapidamente descobrimos que as fotografias por detrás do ecrã são exatamente como a autora, única, bela e simples. Não é por isso estranho a paz que nos transmite quando estamos com ela, naquele jeito de menina, pequena e frágil, que adora o seu espaço, a sua casa, as suas pessoas, amigos e família.

Casada com Eurico Amorim, músico da banda de Pedro Abrunhosa, decidiu há relativamente pouco tempo apresentar ao público – o mesmo que a seguia antes, e a todas as novas pessoas que se vão aproximando -, o seu amor pela tradição artística que é o macramé, a arte secular migramah, muito possivelmente trazida até à Península pelos árabes, espalhando-se posteriormente pela diáspora histórica ibérica. Tecer fios, criar e fazer nós, usar elementos da natureza, e resultar em objetos de decoração tão especiais e belos, são a sua imagem de marca. Mais do que uma moda, uma forma de relaxamento.

Agora na época de verão, propícia aos brancos e beges, às feiras de design e novos criadores, falamos com Lígia para saber um bocadinho mais sobre esta sua paixão.

Quem é a Lígia? Como sente a sua presença no mundo?

A Lígia é uma menina-mulher, sonhadora e aprendiz do universo.

Do passado trago toda uma bagagem de experiências, vivências e sentimentos que definiram a minha personalidade para que no presente consiga ser e dar o melhor de mim.

Viver o momento presente da melhor forma possível é o lema que tenho vindo a trabalhar ultimamente. O futuro só ele dirá o que tem reservado para mim. Tudo a seu tempo.

Qual a sua ligação ao mar? À natureza? De que forma acha que pode ter sido, ou não, influenciada por tais elementos?

Nasci e cresci perto do mar. Desde cedo que senti uma forte ligação com tudo o que ele representa. A sua dinâmica, a incerteza que ele esconde, a dúvida, a força das ondas, mas ao mesmo tempo a tranquilidade das águas em dias serenos. Sempre procurei no mar e na Mãe-Natureza uma espécie de abrigo, aqueles abrigos que nos sossegam a mente e o coração. Fazem-nos ver as coisas com outra clareza e humildade. Venho sempre renovada.

Como nasceu esta sua paixão pelo macramé (@macrame.li)? Alguém lhe passou este desafio ou foi algo que simplesmente cresceu em si?

Sempre gostei de das asas à criatividade e deixar as mãos fazerem o resto. A minha mãe, nos tempos livres, fazia camisolas de lã quentinhas e cachecóis em crochet de várias cores e feitios. Adorava ficar ali sentada a observá-la e a aprender. O macramé surgiu na minha vida há dois anos, numa altura em que fui um pouco abaixo devido a problemas pessoais. A vontade de sair de casa era pouca e, então, comecei a ver dezenas de tutoriais para me entreter e comecei, nesse momento, a fazer as minhas primeiras experiências em macramé. Quando dei por mim, estava apaixonada pela arte de dar nós e senti-me outra pessoa! Mais forte e confiante!

Durante o tempo que estava ali, a criar as minhas peças, primeiras peças, o mundo lá fora deixava de existir e conseguia silenciar a minha mente. Nesta fase inicial, o macramé foi uma terapia que se tornou numa paixão e hoje em dia é um grande amor.

 

Como foi conciliar a sua vida com este outro mundo, tão mais simples, tradicional e, em certa forma, português? 

Desde a minha adolescência que gosto de me desafiar em diferentes áreas. Uma das primeiras paixões foi a fotografia analógica. Aprendi tudo o que sei com o meu pai, inclusive a minha primeira câmara analógica foi uma prenda dele. Não demorei muito tempo a perceber que a fotografia seria um dos meus caminhos a percorrer. Com isto aliei o gosto à música. Comecei a fotografar eventos sociais, festas, festivais, chegando ao dia de hoje, em que estou num dos meus clubes favoritos (o Indústria, no Porto), a receber amigos e clientes à porta nos meus fins de semana. Durante a semana concentro-me na realização das minhas peças e na produção de conteúdos para o Instagram, onde a fotografia entrou de novo na minha vida. É como ter o melhor de dois mundos e não me cansar de estar sempre a fazer a mesma coisa.

O que pensa de, nos dias que correm, esta técnica de fiagem ter-se tornado, de repente, numa moda? É algo que entende ser positivo, no sentido de ressuscitar o interesse em algo que é quase património nacional?

Acho bastante positivo o facto de resgatar técnicas e métodos que estavam um pouco esquecidos. O importante é fornecer consistência ao nosso trabalho e irmo-nos adaptando cada vez mais às mudanças que nos rodeiam. Temos de nos desafiar constantemente e criar outras oportunidades. O que hoje é tendência pode amanhã não ser, mas acredito que se nos adaptarmos às necessidades das pessoas e se nos reinventarmos, o processo criativo acompanhará os tempos.

Como vê o mercado atual? Acha que devido ao boom das técnicas e tradições há espaço para todos que pretendam entrar neste nicho de mercado tradicional?

Existe sempre espaço para todos desde que haja originalidade, criatividade e vontade de chegar mais além.

E expansão? 

Como comecei por dizer, um dia de cada vez. O importante é viver o presente e chegar ao final do dia e pensar: hoje dei o melhor de mim. Vou abraçando e agradecendo as oportunidades que a vida me dá tentando sempre ser melhor e fazendo melhor. Acredito que isso já é uma forma de expansão pessoal e global.

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