Revista Rua

2020-04-13T09:51:58+00:00 Opinião

Longos dias têm quarenta anos

Humor
João Lobo Monteiro
João Lobo Monteiro
13 Abril, 2020
Longos dias têm quarenta anos

Pensei em trazer-vos um tema novo e refrescante no texto deste mês, mas só pensei, mesmo. Desisti rapidamente da ideia. Trazer algo refrescante ainda não é muito necessário, porque o clima está ameno, embora o tempo lá fora não faça diferença nenhuma, agora. Mas podemos já refletir como é que isto vai ser em junho, com três meses de confinamento no bucho. Trazer algo novo, também não dá, porque era preciso que se falasse de assuntos ou, mesmo que não se falasse de assuntos, que houvesse assuntos. Não há assuntos. Só dá bicho, como quando foi lançado o hit de Iran Costa. Belos tempos. Agora todos parecem ter sido belos tempos, na verdade.

Portanto, o que venho aqui fazer é basicamente atualizar a reflexão que fiz no mês passado, acerca do Coronavírus 19, como lhe chamou um médico madeirense. Acho bem que se faça assim uma mistura de nomes. Já convivemos com isto há tanto tempo, que daqui a bocado estamos a chamar-lhe Quim e vamos tomar um café com o bicho. Dentro de casa. Com as chávenas desinfetadas, antes e depois.

Quer dizer, pensando bem, não convivemos com isto assim há tanto tempo, só desde o início de março, mas parece que já andamos nisto desde a Expo’98 – o que explicaria a cor de oceano pálido da mascote Gil. Refletindo, e justificando o título, o termo “quarentena” refere-se não aos 15 dias do período de incubação do vírus, não a quarenta dias, mas à sensação de que estamos presos em casa há 40 anos. Nesta experiência social, a filha do Josef Fritzl já leva um avanço muito significativo. Temos de olhar para o lado bom das coisas e espelhar-nos nos exemplos positivos, para enfrentarmos a pandemia e ter a certeza de que vamos conseguir ultrapassar isto, como outros ultrapassaram.

Nos entretantos de um texto e outro, eu saí de casa pela primeira vez. Estive três semanas sem sair, saí para ir às compras cá para casa. Um herói, eu sei. Foi bastante estranho, porque fui a um estabelecimento a que estou acostumado a ir, mas agi como se fosse a primeira vez que lá ia. Fiz as coisas muuuuuito devagariiiiinho. Estava munido de luvas largas, o que já dificultava e ridicularizava a tarefa. Depois, não sabia bem se podia entrar à vontade por lá dentro. Podia, mas descobri devagarinho, lá está. Depois, estava um segurança à porta a anotar coisas que não sei o que eram. Peguei no carrinho a medo e segui. Devagarinho. Se já antes tínhamos o bom senso e a educação de nos desviarmos das outras pessoas, esse desvio agora acontece de forma bastante ostensiva. Não dizemos (até porque se falarmos, libertamos gotículas e depois lá se instala o bicho), mas damos sinais físicos claros de que temos nojinho dos outros. E ter nojinho das outras pessoas e, ao mesmo tempo, não nos roçarmos em produtos nas prateleiras, em corredores algo apertados, é complicado. Depois, o pagamento: eu já não sou de falar muito, portanto é uma situação normal o despachar do pagamento. Mas uma coisa era eu ser assim tímido e não lidar bem com a situação, outra coisa é as senhoras da caixa estarem ali a despachar-me rápido. Só estou bem aonde não estou, só quero ir aonde não vou, só não quero despachar quando é para despachar. António Variações evoluído.

Ao chegar a casa, o ponto final da esquisitice: o tapete da entrada transformou-se numa espécie de cerca elétrica que não se pode ultrapassar com sapatilhas calçadas. Tive de tirar uma sapatilha, fazer um Saci Pereré para rodar o corpo e tirar a outra sapatilha, e só aí, descalço, adentrei a minha casa para calçar os chinelos. Após isso, corri para o caixote do lixo para deitar fora as luvas; depois, corri para a casa de banho para lavar as mãos – mas lavar MUITO as mãos, tanto que, sim, a pele da parte de trás das minhas mãos continua a pensar que é a pele dos meus cotovelos. Finalmente, tirei ostensivamente a roupa para a pôr a arejar e refugiei-me na segurança do pijama.

É tudo muito estranho, e olhem que para ser estranho para mim, é preciso ser muito estranho mesmo. Questiono-me se poderemos algum dia voltar a fazer coisas sem lavar as mãos logo a seguir. Poderemos ser ligeiramente badalhocos como dantes, sem a nossa consciência se ressentir e sem o bicho entrar? Estas são as grandes questões que anseio ver respondidas um dia. Isso e QUANDO É QUE VOLTA O FUTEBOL? As maiúsculas não representam o total desespero que sinto, mas são o que temos. E o que não temos. Tanta coisa que não temos. Quando teremos? Por que é que eu acabei isto a ser filósofo? Será pelo regresso da telescola? Só sei que nada sei.

Sobre o autor:
Tenho dois apelidos como os pivôs de telejornal, mas sou o comunicador menos comunicativo que há. Bom moço, sobretudo.

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