Revista Rua

2020-10-16T20:36:05+00:00 Cultura, Música

Luca Argel: “A música ajuda muito na integração, na criação de laços que nos fazem sentir mais em casa”

Com dois concertos em agenda, um em Lisboa, no Teatro da Trindade, no dia 20 de outubro, e o outro no Auditório do CCOP no Porto, dia 22 de novembro, Luca Argel está em entrevista à RUA.
Luca Argel ©D.R.
Redação
Redação16 Outubro, 2020
Luca Argel: “A música ajuda muito na integração, na criação de laços que nos fazem sentir mais em casa”
Com dois concertos em agenda, um em Lisboa, no Teatro da Trindade, no dia 20 de outubro, e o outro no Auditório do CCOP no Porto, dia 22 de novembro, Luca Argel está em entrevista à RUA.

O cantautor brasileiro Luca Argel  trocou o Rio de Janeiro pela cidade do Porto há oito anos. Desde então lançou três discos e alguns livros, em nome próprio. Fez programas de rádio e é parceiro de alguns dos grandes nomes da música portuguesa e brasileira, como Tiago Nacarato, Keso, Pedro Luís e Ana Deus. Com dois concertos em agenda, um em Lisboa, no Teatro da Trindade, no dia 20 de outubro e o outro no Auditório do CCOP no Porto, dia 22 de novembro, Luca Argel pretende terminar em grande o ciclo de Conversa de Fila, último álbum da sua discografia, abrindo espaço para um novo projeto nestas duas apresentações. O concerto em Lisboa será, para Luca Argel, a estreia numa das salas mais emblemáticas da capital. O Teatro da Trindade recebe o cantautor pela primeira vez, num concerto íntimo e intenso, que contará com as participações de João Berhan e Júlio Resende.

Veio para o Porto em 2012 e fez o mestrado em Literatura na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. O que o fez fixar-se na cidade do Porto?

Quando eu terminei o curso já estava com projetos musicais em andamento e cheio de planos para desenvolver. Senti-me bem acolhido na cidade, não fazia sentido sair naquele momento e acho que fiz bem em ficar.

Brasil e Portugal são países com culturas e hábitos bastante distintos. A adaptação foi fácil? O Porto ajudou?

Foi bem tranquila, mas várias coisas ajudaram. Ser um homem branco, por exemplo, já me traz muitas facilidades de uma forma geral. Outra coisa é ter logo feito muitas amizades através das rodas de samba. A música ajuda muito na integração, na criação de laços que nos fazem sentir mais em casa.

Tem alguns livros de poesia editados.  A poesia é a sua primeira grande paixão?

O primeiro trabalho autoral que eu lancei, muitos anos antes do meu primeiro disco, foi um livro de poesia. Então, posso dizer que sim.

Quando é que os seus poemas viraram canções?

Sempre fiz as duas coisas paralelamente e ainda faço, embora hoje esteja bem mais virado para as canções. No início da adolescência comecei a rabiscar as minhas coisas e confesso que não lembro se as primeiras eram canções ou poemas.

Luca Argel ©D.R.

As canções partem da sua poesia ou a sua poesia nasce depois da sua música?

No fundo é tudo poesia. A diferença é que algumas eu escrevo para cantar e outras para ficar só no papel. Quase sempre, quando eu começo a escrever qualquer coisa, já tenho consciência para onde quero ir e assumo um dos dois registos. Mas sinto que ambos sempre existiram em mim.

Como é cantar o samba em terras portuguesas? O público português sabe ouvir Samba?

Sem dúvida! Sabe ouvir e apreciar… e até dançar!  É libertador fazer samba longe das raízes, porque ficamos mais à vontade para experimentar e brincar com os modelos mais tradicionais do género. Num ambiente menos habituado e menos “especializado” há mais abertura para subverter padrões já muito cristalizados no Brasil.

Tem três álbuns lançados. São muito distintos entre si?

O primeiro de todos é completamente diferente. Já os dois últimos são irmãos, o Bandeira e o Conversa de Fila. Um é a continuação do outro.

Existe, em algum álbum ou alguma(s) música(s), uma influência mais forte da cidade do Porto?

Sim, no “Gentrificasamba”. Eu escrevi essa música a pensar no Porto, quando tudo na cidade se transformava em hotel e alojamento local e perdemos muito comércio local, associações e, o mais triste de tudo, casas de pessoas foram corridas do centro da cidade e arredores. Fiz a pensar no Porto, mas poderia aplicar-se a muitas outras cidades também.

Luca Argel ©D.R.

A pandemia adiou o encerramento do ciclo Conversa de Fila, o seu último trabalho. Foi muito difícil para si este tempo de confinamento? Serviu para alguma criação especial?

Sim, foi muito difícil, para mim e para todos os que vivem de música e de concertos. Mas felizmente os concertos vão acontecer. E bem a tempo de começar a mostrar um pouco das minhas criações mais recentes, que eu já havia começado a trabalhar antes da pandemia, mas que o período de confinamento ajudou a acelerar a produção.

Sobre a música “Conversa de fila”, li numa entrevista que esta canção nasceu de um gesto altruísta que viu a acontecer. Hoje o mundo é/está mais egoísta. Podem os artistas ajudar a alterar ou apelar para uma mudança deste panorama?

Sem dúvida. Por exemplo, chamando a atenção para esses pequenos gestos de generosidade que às vezes passam despercebidos, mas que podem salvar o dia de uma pessoa. Isso é muito e não podemos esquecer que eles ainda existem no mundo.

Fale-nos dos seus projetos para o futuro. Podemos contar com um novo álbum brevemente?

Sim. Tenho um álbum novo quase pronto que deverá sair para o ano, depois do carnaval, como habitualmente faço. Será um álbum completamente diferente de tudo o que já fiz, em quase todos os sentidos. Acho que a única semelhança com os anteriores é que ainda permaneço no universo do samba. Fora isso, está tudo diferente!

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