Revista Rua

Luís Araújo e os desafios do Turismo de Portugal

"Há coisas absolutamente extraordinárias em Portugal!", garante o Presidente do Turismo de Portugal.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira27 Setembro, 2019
Luís Araújo e os desafios do Turismo de Portugal
"Há coisas absolutamente extraordinárias em Portugal!", garante o Presidente do Turismo de Portugal.

Traz a Madeira, de onde é natural, num lugar especial do seu coração, mas vive constantemente na obrigação de ver Portugal como um todo, um país que tem mil e uma razões para explorar. Luís Araújo é o Presidente do Turismo de Portugal e, entre todos os desafios que o cargo lhe trouxe, vê a autenticidade do povo português como o maior convite à descoberta deste cantinho à beira-mar plantado.

Esta entrevista é parte integrante da print edition da Revista RUA#33

Fotografia ©Nuno Sampaio

Luís Araújo é um homem com um percurso imenso ligado à Hotelaria e ao Turismo. Abraçou o cargo de Presidente do Turismo de Portugal em fevereiro de 2016. Mas, antes de falarmos das exigências e desafios deste cargo, a nossa pergunta é mais pessoal: qual é a sua visão deste cantinho à beira-mar plantado?

É uma visão muito básica, sendo que hoje em dia quanto mais básico melhor. É uma visão de simplicidade, de tranquilidade e de transparência que encontramos em poucos lugares do mundo. Acho que isso é algo que nos distingue. Em qualquer lado do mundo, temos ótima gastronomia, paisagens fantásticas e património, mas só nos sentimos bem em determinados lugares. Portugal é um desses sítios onde as pessoas dizem que se sentem realmente bem!

Considera então que Portugal é bem visto internacionalmente?

Disso não tenho dúvida nenhuma! Posso dizer que, hoje, Portugal acrescenta valor: a quem nos visita, porque é uma experiência muito acima da média; a quem investe numa empresa ou numa startup, seja de turismo ou de outra área, porque a rentabilidade é muito maior; a quem vem viver para cá; a quem vem estudar; a quem vem fazer filmes, festas de casamento ou viagens de lua de mel. Acho que essa é a nossa grande vantagem atual.

“Nós somos um país acolhedor, que recebe bem, que respeita, independentemente de onde as pessoas vêm, da forma como pensam ou com quem querem estar. Respeitar é o mais importante! Do Norte ao Sul, passando pelas Ilhas, a componente principal é tratarmos as outras pessoas como iguais, como familiares ou amigos. É isso que tem mais impacto nas pessoas.”

Quando assumiu o cargo de Presidente do Turismo de Portugal, o Luís falava da necessidade de apostarmos no posicionamento internacional, na formação de recursos humanos, na valorização dos aspetos que nos tornam únicos, como a gastronomia ou os vinhos. Esses continuam a ser os principais desafios do Turismo de Portugal?

Eu acho que nós estamos a viver um momento único. Não é nada que nós já não estivéssemos preparados ou que não soubéssemos que ia acontecer. Há um histórico de evolução, do ponto de vista turístico das empresas, das pessoas, de autoestima, que tem crescido muito. Nós hoje somos o 14.º país mais competitivo do mundo a nível turístico, somos um dos 20 países que mais turistas recebe em todo o mundo. É algo importante! O impacto na economia é muito positivo. Mas tudo isto tem que ter sustentabilidade. O crescimento tem que ser muito faseado – e está a ser – e tem que ter uma base sólida – que eu acho que temos. Temos empresas estruturalmente fortes, temos pessoas que conhecem o turismo e trabalham na área há muito tempo, que sabem o que é preciso para responder aos desafios do futuro. Mas há algumas questões, de variadíssima ordem, que merecem atenção. Algumas dependem de nós e outras dependem de fatores externos. Falo das acessibilidades, sejam aéreas ou terrestres, da experiência do turista dentro do território nacional, do facto de poder pagar em qualquer loja com cartão de crédito, a facilidade com que o turista se move pelo país ou que conhece o que há para visitar, a capacitação dos recursos humanos, a questão de nós conseguirmos trazer mais turistas para todo o território – e não só para determinadas regiões – e ao longo de todo o ano.

Desafios há muitos, portanto. Mas destaco três, que são aqueles que nós sentimos mais e que já estamos a trabalhar: em primeiro lugar, a componente dos recursos humanos, especializados e com uma base de cultura de serviços que não vemos em muitos países. É uma formação que tem de ser muito mais direcionada para aquilo que as empresas querem, mas também vocacionada para aquilo que é o empreendedorismo de cada um, o mostrar que o turismo pode ser uma atividade em que cada um pode ser um empresário. E aqui há um trabalho sério, de todos, de demonstrar que o turismo é uma carreira de futuro, mas que necessita de permanentemente atualização. É preciso ter grande coragem, porque lidar com outras pessoas não é algo muito fácil.

Um segundo desafio tem a ver com a inovação. Inovação não só numa perspetiva tecnológica, mas mesmo numa inovação de produto e serviço. Como é que nós conseguimos que, hoje, o nosso produto, o nosso alojamento local, o nosso restaurante, dê ainda um salto maior e consiga estar sempre um passo à frente? Como é que nós nos mantemos atualizados e de que maneira fazemos com que este produto e este serviço responda a essa procura? Por outro lado, a questão tecnológica e do digital, que no turismo é algo absolutamente imprescindível: como é que temos todas as empresas digitalizadas, com presença online, com ações online, que trabalhem em rede? É uma componente importantíssima! É algo que temos trabalhado muito, aliás, nos últimos três anos temos um programa de apoio a startups. Trabalhamos com 33 ou 34 incubadoras e aceleradoras em todo o país. Este ano vamos apoiar perto de 600 startups. Estamos a falar de quase 1,5 milhões de euros nos diversos programas de aceleração porque achamos que essa é a única maneira de levarmos esta inovação às empresas, misturando o que é mais tradicional com o que é mais digital.

Um terceiro desafio é na área do conhecimento. Sabermos, não só, quantos turistas nos visitam e quantos dormem nos hotéis – isso nós já sabemos -, mas também por onde é que andam, o que procuram, o que lhes podemos dar mais, como podemos levá-los de um ponto para outro, como é que os conseguimos convencer que há mais a ver e a conhecer no território. Acho que essa é uma área também imprescindível.

E a sustentabilidade tem de estar sempre associada, correto?

Sempre! Sustentabilidade não só na perspetiva económica. Nós quando lançamos a estratégia 2017-2027, decidimos que a sustentabilidade era o foco, o centro da estratégia. Há, em primeiro lugar, a questão da sustentabilidade económica, ou seja, queremos crescer em receitas. Nós hoje estamos com 16,6 mil milhões de euros de receita por ano e queremos chegar aos 26 mil milhões. Aumentamos 45% das receitas em três anos, foi um efeito inédito! Aliás, nenhum país acredita que nós conseguimos fazer isto! Queremos crescer em número de turistas e, obviamente, em dormidas. Mas, mais uma vez, ao longo de todo o território e ao longo de todo o ano. Depois, pensamos que era importante ter o pilar social e ambiental com metas também, por isso, colocamos objetivos no plano social: queremos 90% das pessoas de grandes regiões turísticas ou de grandes centros urbanos a reconhecer o valor do turismo e satisfeitas com a atividade turística. Uma outra meta tem a ver com a redução da sazonalidade. Nós atualmente já temos o índice de sazonalidade mais baixo de todos os países do Mediterrâneo. É o mais baixo de sempre! Estamos com 36% de sazonalidade por ano, o que é absolutamente extraordinário. Mas porquê reduzir a sazonalidade? Porque é o maior inimigo do emprego: leva a contratos de trabalho precários, a flutuação de pessoas, etc. Portanto, quanto mais combatermos a sazonalidade e mais estabilizarmos a ocupação, menos questões sociais temos. É um indicador social importante. Outra meta tem a ver com a qualificação dos recursos humanos. Em 2017, tínhamos 60% das pessoas que trabalham no sector, quase 300 mil pessoas, com o ensino básico. Nós hoje estamos abaixo, estamos nos 53%, mas a ideia é inverter essa pirâmide, é fazer com que 60%, no mínimo, tenha ensino secundário, técnico-profissional ou superior. Portanto, há uma aposta muito grande do nosso lado em estimular que as pessoas tenham formação. Na parte ambiental é mais simples: 90% das empresas que trabalham no sector, seja em rent-a-car, hotelaria, alojamento local, animação turística, agentes de viagem ou operadores turísticos, nove em cada dez tem que ter medidas de gestão eficiente de água, luz e resíduos. Estamos a trabalhar em várias áreas, inclusive de financiamento, para que as empresas se adaptem até 2027. Queremos ser um país em que o sector turístico está preocupado com o ambiente!

Voltando à questão da valorização daquilo que nos torna únicos, o Turismo de Portugal lançou uma interessante campanha de promoção do enoturismo. De que forma estão a pensar desenvolver esta área?

Nós entendemos que conhecer um país não é conhecer um município ou uma região. Aliás, um turista nem sabe quando sai de uma região e entra noutra. Às vezes nem sabe quando sai de Espanha e entra em Portugal (risos). A melhor maneira de criar estímulos às pessoas para nos visitarem tem a ver com organizarmos o país de uma maneira diferente. Não vou dizer por temáticas, mas até podia ser. Mostrarmos um país que tem um potencial riquíssimo, mas que não está estruturado numa perspetiva de venda. Este ano decidimos então que íamos apostar em duas áreas: o enoturismo (promover as experiências além da visita às vinhas, dando informação sobre tudo o que esteja relacionado com os vinhos através de uma plataforma que vai ser lançada brevemente, a Portuguese Wine Tourism) e a literatura (numa ação que pretende dar a conhecer Portugal através dos livros e dos escritores portugueses). Pretendemos, assim, criar mais razões para visitar Portugal.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Todos nós podemos (e devemos) ser promotores do nosso país. Aliás, com as redes sociais fica mais fácil. Mas de que forma os portugueses devem promover o nosso país?

Há uma mensagem que eu acho importantíssima. Mais importante que dizer que um território é fantástico, ou dizer que existe isto ou aquilo, é chamar à atenção para a riqueza que nós temos! Nós somos um país acolhedor, que recebe bem, que respeita, independentemente de onde as pessoas vêm, da forma como pensam ou com quem querem estar. Respeitar é o mais importante! Do Norte ao Sul, passando pelas Ilhas, a componente principal é tratarmos as outras pessoas como iguais, como familiares ou amigos. É isso que tem mais impacto nas pessoas. Se nós conseguirmos isso, qualquer pequeno riacho é uma experiência, qualquer pequena igreja vale ouro.

Mas que destinos portugueses o Luís destacaria nesta fase?

Há coisas absolutamente extraordinárias em Portugal! Para mim, a Madeira tem um lugar especial, pelas razões óbvias! (risos) Sugeria o percurso da Estrada Nacional 2, que liga Chaves a Faro. É surpreendente. Mas, se pensarmos até nas zonas mais conhecidas do Algarve, não podemos esquecer que há também lugares desconhecidos aí, sobretudo em épocas diferentes. Explorar o Algarve no outono ou no inverno é uma experiência extraordinária! 

Por falar no Algarve, muito se tem debatido a questão do Brexit e a preocupação algarvia é real. No entanto, o Turismo de Portugal lançou uma campanha muito apelativa chamada Brelcome, correto?

Um ponto prévio: nós, há três anos para cá, temos apostado muito na diversificação de mercados. Só para dar uma ideia, há quatro anos, mais de 60% dos nossos turistas vinham de quatro mercados. Nós hoje reduzimos para 45% e aumentamos, como eu disse, 45% as receitas. Portanto, reduzimos a dependência dos nossos mercados prioritários, sem significar um decréscimo desses mercados. Obviamente, o Reino Unido é o nosso principal mercado para destinos como o Algarve. A questão do Brexit tem um impacto fortíssimo naquilo que é mais importante para nós: a desvalorização das moedas e a nossa competitividade do ponto de vista financeiro relativamente a outros mercados. Nós, dentro de um conjunto de ações que o Governo tomou, decidimos propor uma série de medidas que incluem manter a simplicidade e a facilidade de entrada no país. A campanha Brelcome, lançada em março, passa uma mensagem: “eu estou aqui para aquilo que precisares”. A campanha foi testada com inúmeros ingleses e a recetividade foi fantástica. Todos acharam que era um gesto extremamente simpático e alguns até disseram que era emocionante perceber que existia um país que se estava a posicionar para dizer “não interessa, venham que nós estamos sempre aqui”. É uma campanha exclusivamente digital para o Reino Unido. Em dez semanas, nós já tínhamos impactado 13 milhões de pessoas. Eu acho que tem sido um sucesso e os resultados estão à vista. No primeiro trimestre deste ano, tivemos um crescimento na ordem dos 8% no número de britânicos para Portugal.

Portugal tem mar, montanha, aldeias recônditas, ilhas com uma beleza ímpar…

Temos tudo como na farmácia! (risos)

“Numa perspetiva de país, o mais importante para nós é dizer que estamos aqui, que somos um país com valores e autenticidade, uma autenticidade que não é fruto das paisagens, mas sim das próprias pessoas. Se soubermos valorizar isso, essa nossa autenticidade vai estar cá sempre.”

Mas a crescente atração turística pode trazer alguns desafios, principalmente a nível de alojamento, de inflação de preços nas zonas centrais das cidades… Isto é um mal necessário?

Eu acho que – e por isso é que é tão importante a questão do conhecimento – é crucial nós sabermos exatamente sobre o que estamos a falar. Cerca de 60% dos prédios que foram adaptados a alojamento local nos centros urbanos eram prédios devolutos. E 70% do alojamento local está fora dos grandes centros urbanos. O alojamento local é uma resposta à procura! Nós temos de ser competitivos nessa área. Mas o que é que aconteceu? Durante muitos anos, os nossos centros urbanos estiveram abandonados. Nós perdemos 30% da população nos grandes centros urbanos em Lisboa e no Porto, basicamente. Nós podemos ver sempre o copo meio cheio ou meio vazio. Meio cheio é ver que o turismo trouxe o crescimento do aeroporto, com o aumento da quantidade de voos para Portugal e para Lisboa, concretamente. Isso trouxe ao país mais reabilitação urbana, mais segurança nos centros urbanos, mais negócios para todos, muito mais empreendedorismo. Obviamente, este crescimento não é uma pressão, é uma evolução que trouxe novas pessoas, novas nacionalidades, novos residentes que se calhar trouxeram poder de compra diferente e valorizaram algo que nós antes não valorizávamos. É uma evolução que precisa de ser observada e ser planificada. Da mesma maneira que nós temos de planificar as cidades, temos de planificar também aquilo que é o nosso turismo. Vão sempre existir lugares, principalmente nas grandes cidades, que vão ter preços mais altos. A questão era que, se calhar, antes tinham preços muito mais baixos do que a média europeia. Há um nivelamento! Eu acredito que é a lei da oferta e da procura. O que nos compete a nós, Turismo de Portugal, é monitorizar isso, é acompanhar as entidades locais que estão a fazer um trabalho fantástico a nível de gestão de cidade em várias áreas, nomeadamente mobilidade ou recolha do lixo. Não podemos dizer, com a cabeça na areia como a avestruz, que o turismo é mau! É preciso ver as componentes muito positivas!

Nós temos vivido várias fases que nos mostram que Portugal está na moda: primeiro, os prémios internacionais ligados ao surf e ao golfe, depois a escolha de Portugal para a realização de congressos ou eventos internacionais, também um importante destaque das nossas unidades hoteleiras e restaurantes, assim como as marcas de luxo que escolhem Portugal para campanhas ou abertura de lojas. A nossa questão é: qual é a fase seguinte?

Penso que isto não é por fases, acho que é um acumular, um juntar de peças que compõem o todo. Há uma evolução muito grande! Também há muita concorrência, principalmente como destino turístico, mas é possível aprendermos uns com os outros. Numa perspetiva de país, o mais importante para nós é dizer que estamos aqui, que somos um país com valores e autenticidade, uma autenticidade que não é fruto das paisagens, mas sim das próprias pessoas. Se soubermos valorizar isso, essa nossa autenticidade vai estar cá sempre.

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