Revista Rua

2020-11-07T15:27:38+00:00 Atelier, Moda, Personalidades

Luís Buchinho: “Quero fazer moda de uma maneira menos histérica”

Comemorando 30 anos de carreira em 2020, Luís Buchinho está em entrevista na RUA.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira5 Novembro, 2020
Luís Buchinho: “Quero fazer moda de uma maneira menos histérica”
Comemorando 30 anos de carreira em 2020, Luís Buchinho está em entrevista na RUA.

“Eu quero fazer moda de uma maneira menos histérica. Que não tenha tanto a ver com a velocidade e com aquilo que nós nos propomos a cumprir com regras ditadas por multinacionais”. É com diretrizes de futuro que apresentamos Luís Buchinho, um homem que, ao longo de 30 anos de carreira, empurrou a moda nacional para passerelles internacionais, revolucionou conceitos e apresentou propostas que lhe valeram o reconhecimento como um ícone no design de moda em Portugal. Num ano tão atípico que adiou vários planos de celebrações dos 30 anos de percurso da marca própria, falamos com Luís Buchinho sobre uma história longa de dedicação, originalidade e intemporalidade.

Em primeiro lugar, gostaríamos de perguntar ao Luís como tem vivido esta fase de pandemia. Têm sido tempos difíceis com repercussões na sua vida profissional?

Foi um ano muito atípico, obviamente, para mim e para o mundo. Foi um ano que começou de uma maneira muito forte, porque eu participei na ModaLisboa, onde já não estava desde 2014 – e também porque estou a comemorar 30 anos de carreira. Portanto, havia um plano para a marca Luís Buchinho, que iniciava com o desfile de inverno, com uma apresentação bastante fiel ao ADN da minha marca e que iria ter uma continuidade, uma vez que eu planeava fazer uma exposição e um desfile de retrospetiva ao longo do ano. Foram coisas que foram adiadas porque prefiro fazer isso quando voltarmos à normalidade. Não me apetece propriamente fazer essa homenagem à minha própria carreira tendo em consideração que vai ser visionada por poucas pessoas. E, nesse contexto, seria uma coisa muito pouco emocional.

O próprio confinamento impediu a realização desses planos…

Quando entramos em confinamento, eu questionei muito tudo aquilo que estava a acontecer. Pensei muito no ano que passou e também nos últimos 30. Foi um período muito grande de reflexão. Acho que utilizei da melhor maneira esse tempo para parar um pouco sem culpa. Nessa lógica, foi positivo porque geralmente quando paramos é nas férias e tudo aquilo que não queremos fazer nas férias é pensar. Queremos é relaxar! O confinamento permitiu-me pensar na equação daquilo que estava a acontecer a nível profissional, situações que eu acho que estavam e ainda estão em processo de serem alteradas, modelos que tenho tomado como garantidos e que são perpetuados semestralmente há 30 anos, que se calhar podem conhecer novos formatos. Foi um período muito bom para parar, pensar e também para me dedicar a uma paixão que tenho desde sempre: a ilustração. Comecei um projeto de banda desenhada que eventualmente vai tomar forma física relativamente em breve, espero eu. Tentei tirar o partido mais positivo possível de uma situação de confinamento.

E como foi o regresso à nova normalidade?

O regresso à nova normalidade foi já com esta bagagem, esta reflexão, já com um plano B e C em mente. Eu fazia uma previsão um pouco mais negra do que aquilo que foi a realidade. Achava que, muito provavelmente, dificilmente a marca conseguiria chegar ao fim do ano devido à conjuntura económica ser realmente muito pesada e as pessoas estarem completamente enterradas em pensamentos mais sombrios. Uma marca como a minha poderia ter um futuro próximo muito negro. Na verdade, as coisas não foram tão assim. Então, o que é que eu decidi: fazer uma coleção de verão ‘21 com uma redução de meios muito grande. Houve um “parar”, que é algo que para mim é difícil porque eu quando trabalho, trabalho de uma maneira muito acelerada. Tenho muitas ideias!

“Obriguei-me a fazer então, para o verão ‘21, uma coleção muito filtrada, com menos materiais, com formas pensadas com uma amplitude de recurso que eu queria que se notasse: são peças muito polivalentes na maneira como podem ser vestidas.”

É um processo criativo muito intenso, portanto…

É-me muito difícil! Quando começo a desenhar uma coleção, todas as semanas desenho coisas novas. Dou por mim com coleções enormes que, depois, para os clientes multimarca e até para os clientes de loja acaba por ser difícil o visionamento porque há muita escolha. Às vezes, a quantidade é até absurda! É um processo criativo muito intenso, muito farto, com uma quantidade numérica que estava acima do normal. Obriguei-me a fazer então, para o verão ‘21, uma coleção muito filtrada, com menos materiais, com formas pensadas com uma amplitude de recurso que eu queria que se notasse: são peças muito polivalentes na maneira como podem ser vestidas. Podem ser usadas em diferentes contextos. Podem ser conjugadas com acessórios e ganhar linguagens completamente diferentes. Criei, por exemplo, uma linha de vestidos estampados, num tecido que é enrugado depois da peça estar confecionada, e aquilo tanto é uma camisa de noite (que pode ser usada em casa com umas havaianas, sentada no sofá a trabalhar no computador) como um vestido de festa usada com saltos altos, um colar mais extravagante e um penteado. Acho que isso foi uma mais valia para as encomendas do verão ‘21. Fiz uma coleção com uma linguagem muito coesa, muito pequena, muito fácil de perceber.

O Luís referiu que esta coleção de verão ‘21 retrata o seu ADN criativo. Nas suas palavras: “peças que se querem com vários adjetivos: casuais, sofisticadas, intemporais, marcantes, individualistas e apaixonantes”. É isto?

Sim. Foi um exercício que foi um bocadinho contra a minha própria natureza, mas correu muitíssimo bem. Estou satisfeito com o resultado! É, sem dúvida, um plano que eu quero adotar agora que estou a começar a desenhar o inverno ‘21/22. Quero adotar esse pensamento e construir assim uma coleção de inverno.

São já 30 anos de uma carreira notável no mundo da moda nacional e com repercussões também internacionais. Olhando para trás, ainda se lembra do primeiro passo? Como tudo começou?

Começou de uma maneira, na verdade, muito espontânea. Eu nasci em Setúbal e lá fiz o liceu. Durante o liceu, comecei a fazer ilustrações de moda a partir de revistas que a minha namorada da altura me mostrava – e o universo da ilustração sempre foi algo que me cativou. Sempre fui muito apaixonado por banda desenhada, por novelas gráficas, capas de discos, cartazes de publicidade… Sentia que eu iria, sem dúvida, estar envolvido num universo muito ligado a um desses mundos, embora ainda não soubesse bem qual. Comecei então a fazer as ilustrações de moda que começaram a ser vistas na sala de aula. A minha professora arranjou-me um anúncio de jornal que anunciava o Citex [atual Modatex], no Porto, eu concorri e entrei. Com 16 anos, vim então para o Porto estudar. Quando acabei o curso fui imediatamente contratado pela JOTEX, que era uma empresa de malhas que hoje em dia já não existe – trabalhei lá 19 anos como diretor criativo.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Mas desde cedo que o Luís começou a dedicar-se a outras atividades no mundo da moda, certo?

Sim, envolvi-me em muitas atividades em paralelo desde início da minha carreira. Comecei a trabalhar com 20 anos, dava aulas na academia de moda de ilustração de moda, fazia a coleção da JOTEX, fazia alguns trabalhos a freelancer… Entretanto também participei ao concurso de jovens estilistas da PORTEX, que era uma feira de vestuário que havia na altura na Exponor, onde ganhei o primeiro prémio: 2500 euros. Fui também escolhido para fazer a edição zero da ModaLisboa, que decorreu no verão de 1990 e entrei também na primeira edição, em 1991. A minha carreira começou assim a progredir muito rapidamente.  As coisas foram fluindo naturalmente. As próprias coleções foram progredindo. No início, como é óbvio, as coleções tinham muitas imperfeições. Eram feitas com muito boa vontade, mas eu estava com aquele trabalho todo e era uma violência. Trabalhava full time e fazia aquilo à noite e aos fins de semana. Tinha muita vontade, mas poucos recursos. Foi uma caminhada lenta… Durante estes 30 anos existiram milhares de coisas que aconteceram. Umas boas e outras más, claro.

Houve algum dia em que as coisas correram mal e pensou em redirecionar o seu percurso?

Sim, pontualmente. Eu acho que, por acaso, sou muito reactivo. Sou muito pragmático, embora seja muito ansioso. Consigo ver logo uma saída numa situação que, à partida, parece um beco. Consigo arranjar um caminho para conseguir progredir. Mesmo nas situações más que foram acontecendo – e aconteceram algumas como, uma vez, ter uma estação desastrosa em vendas que se traduziu em ter de repetir uma coleção do zero num prazo muito pequeno. Eu sempre tomei muitas lições dessas coisas que vão acontecendo para elas não se repetirem e, geralmente, o que aconteceu sempre foi que, a seguir a uma grande desgraça, houve uma grande bonança. Obviamente não gosto de passar por essas situações porque é uma seca – acho que ninguém gosta -, mas há sempre um momento em que eu penso que o que vai vir a seguir vai ser fantástico!

“Costumo dizer que sou o pior e o melhor crítico de mim próprio.”

Depois de tudo isto, do reconhecimento e dos prémios, como é que o próprio Luís Buchinho descreve a marca Luís Buchinho na atualidade?

A visão que a marca tem e que oferece a nível de produto tem muito a ver com uma assinatura muito distinta em termos de estilo, mas muito acoplada a uma noção de intemporalidade. Penso que, no fundo, acaba por ser uma construção que é muito clássica, embora às vezes não pareça, e são peças que passam muito bem o teste do tempo. São peças que podem passar uma década e continuarem a estar no guarda-roupa sem problema absolutamente nenhum. E tenho muitas clientes que compram isso. São peças que, geralmente, as pessoas nunca se desfazem, criam uma ligação emocional, de um amigo que está no armário, que as pessoas veneram ao longo de várias estações e vários anos.

O Luís parece-nos uma pessoa extremamente exigente. É essa exigência que lhe vale 30 anos de reconhecimento?

Eu acho que sim. Costumo dizer que sou o pior e o melhor crítico de mim próprio. Se eu acho que está bem, eu tenho a certeza absoluta que está bem. Porque se passa por mim é porque está pronta para ir para o mundo! (risos)

Fotografia ©Nuno Sampaio

Sabemos que é muito difícil descrevermos a inspiração. Mas viver da moda em Portugal é inspirar-se exatamente em quê? Na cidade, nas pessoas…?

Eu sou um designer de moda, mas, acima de tudo, sou um designer. E um designer está sempre a procurar soluções novas e necessidades novas – ou necessidades que já existem e que precisam de soluções novas ou de mais do mesmo, mas feito de um modo diferente. Um olhar diferente. Essencialmente, esse é o grande motor do conceito da marca. Depois, há coleções em que a inspiração me corre particularmente bem e, geralmente, são sempre coleções que estão completamente ligadas ao meu lado mais emocional, a experiências que eu estou a viver no momento. Isso não me acontece em todas as estações porque, graças a Deus, eu não sou uma montanha-russa tão grande de emoções (risos). Mas, quando acontece, uma emoção é difícil de transmitir numa coleção, numa peça de roupa. Contudo, há duas coleções que eu considero muito marcantes na minha história: o inverno ‘12 (o inverno da calçada portuguesa) e o inverno ‘13 (o inverno do 25 de Abril). Porque é que estas coleções são exemplos muito bons? Na primeira, eu estava em Paris com o Portugal Fashion e o que acontecia era que, quando eu lia críticas sobre o meu trabalho, havia muitas vezes a menção de que aquele trabalho só podia ter sido feito por uma pessoa que vivia no litoral. Eu nunca tinha pensado naquilo. Mas depois comecei a perceber, comecei a olhar para as imagens que eu transmiti e aquilo fazia todo o sentido do mundo: havia movimento, fluidez, uma grande tonalidade de azul em várias peças, havia um sentimento melancólico, uma certa nostalgia, uma certa alegria… era uma conjugação de coisas que mostravam a essência de ser português. E eu nunca tinha pensado nisso! Foi preciso ler. Foi engraçado! Como é que isso me surgiu? Muito naturalmente. Um dia fui à FNAC e estava a ver um livro sobre a Calçada Portuguesa e pensei “isto é o chão onde nós pisamos. Isto é ser português”. Era a nossa identidade e, por isso, fiz uma coleção subordinada à identidade, a algo tão gráfico e tão perto de nós como o chão que nós pisamos todos os dias. Surgiu assim a coleção!

Depois, passado um ano, aconteceram coisas na minha vida pessoal e profissional que foram muito violentas e que me obrigaram a uma reflexão muito grande, a muitas mudanças de paradigma. Eu estava a passar por uma revolução interior. E pensei: revolução? O que é que há em Portugal que seja um ícone histórico a nível de revolução? 25 de Abril! Fui então buscar os ícones do 25 de Abril – nunca são mensagens muito óbvias porque eu trabalho graficamente as mensagens de uma maneira muito abstrata, não é nada muito literal. Fui buscar os cravos, as metralhadoras, as imagens que eu me lembrava de ver nos livros da escola. Eram coisas que estavam muito gravadas no meu imaginário infantil.

Essas duas coleções foram muito fortes para mim, muito significativas. Foram coleções que tiveram a ver com estados psicológicos meus que ganharam uma materialidade.

  • Coleção de Luís Buchinho no inverno ‘12, inspirada na calçada portuguesa.
  • Coleção de Luís Buchinho no inverno ‘12, inspirada na calçada portuguesa.
  • Coleção de Luís Buchinho no inverno ‘12, inspirada na calçada portuguesa.
  • Coleção de Luís Buchinho no inverno ‘12, inspirada na calçada portuguesa.
  • Coleção de Luís Buchinho no inverno ‘12, inspirada na calçada portuguesa.
  • Coleção de Luís Buchinho no inverno ‘13, inspirada na Revolução de 25 de Abril.
  • Coleção de Luís Buchinho no inverno ‘13, inspirada na Revolução de 25 de Abril.
  • Coleção de Luís Buchinho no inverno ‘13, inspirada na Revolução de 25 de Abril.

“A moda é um campo onde não há assim tanta gente a vingar, porque é um campo muito completo. É um polvo com muitos tentáculos. E ser a cabeça desse polvo às vezes é muito difícil.”

Depois de 30 anos, ainda há sonhos por cumprir? Que Luís Buchinho gostaria de mostrar num futuro?

Sim, mas mais a nível de projetos paralelos e não tão propriamente relacionados com a marca. Quero explorar outros lados de mim. A moda tem uma coisa que é terrível: a moda é super exigente. A moda absorve-nos completamente. Eu quando entro neste registo de ter que montar uma coleção, materializa-la, fazer a loja, fazer um desfile, fazer um lookbook… são milhares de pequenos nadas ou de pequenos tudos que são muito, muito difíceis de coordenar. A moda é um campo onde não há assim tanta gente a vingar, porque é um campo muito completo. É um polvo com muitos tentáculos. E ser a cabeça desse polvo às vezes é muito difícil. Deixa muito pouco espaço para outro género de atividades. Essencialmente, eu quero fazer moda de uma maneira menos histérica. Que não tenha tanto a ver com a velocidade e com aquilo que nós nos propomos a cumprir com regras ditadas por multinacionais, sejam elas de cadeia ou de marcas de luxo, que não correspondem de todo à realidade de uma marca de nicho e local como a minha.

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