Revista Rua

2020-10-19T12:21:15+00:00 Cultura, Música

Luís Fernandes: “Tivemos de ser muito cautelosos a pensar o Semibreve este ano”

A próxima edição do festival Semibreve acontece no fim de semana de 24 e 25 de outubro.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira19 Outubro, 2020
Luís Fernandes: “Tivemos de ser muito cautelosos a pensar o Semibreve este ano”
A próxima edição do festival Semibreve acontece no fim de semana de 24 e 25 de outubro.

Luís Fernandes é o diretor artístico do festival Semibreve, que explora a música eletrónica e as artes digitais, com base na cidade de Braga. Na reta final da preparação para a décima edição do festival, que acontece nos próximos dias 24 e 25 de outubro, no Mosteiro de Tibães, com uma programação especial devido ao impacto do Covid-19 – virtualmente e de forma presencial para um número reduzido de pessoas -, Luís Fernandes falou com a RUA, antecipando uma edição pensada com “cautela”, mas com nomes sonantes no programa que está cada vez mais internacional.

O Semibreve celebra a sua 10ª edição este ano e, por isso, esta é uma data interessante para olharmos para trás e fazermos um balanço. Que análise faz o Luís deste percurso do Semibreve?

Na verdade, é acima de tudo um percurso surpreendente. Nós começámos o festival em 2011, ou seja, não são dez anos, mas é a décima edição – e nós nunca imaginámos que faríamos dez edições do Semibreve! Começámos a fazer o festival de uma forma muito inocente, como músicos e melómanos, que gostavam de uma vertente musical até à data muito pouco explorada em Portugal, no geral, e no Norte de Portugal, em particular. E, para colmatarmos essa falha ou deficiência, acabámos por criar o nosso próprio espaço e tornar o evento algo mais sustentável, algo mais único. Isso era algo que nós não prevíamos na altura. Nós sabíamos que íamos colmatar essa falha e que, por isso, as coisas podiam potencialmente correr bem, mas nunca prevíamos que isto durasse tanto tempo. Tem sido uma viagem super gratificante. Hoje em dia, o festival é muito reconhecido a nível internacional. Se, ao início, nós tínhamos que convencer as pessoas a vir, hoje em dia nós temos de escolher porque muita gente quer estar presente, quer estar associada. Foi um processo de crescimento muito progressivo, muito paulatino, que nos deu muito prazer e que acabou por nos formar um pouco enquanto pessoas e profissionais.

Fotografia ©Nuno Sampaio

É importante clarificarmos os principais propósitos deste festival. De uma maneira sucinta, o que é o Semibreve?

O Semibreve é um festival que aborda a área da música eletrónica exploratória. A música eletrónica é algo muito vasto. Se calhar, a primeira coisa que as pessoas vão associar quando falamos de música eletrónica é a música de dança que ouve nas discotecas, o techno, mas na verdade é uma disciplina que apareceu associada a vertentes musicais mais eruditas, a música contemporânea, na década de 50, que foi quando esse fenómeno da construção musical a partir de instrumentos eletrónicos se iniciou. Esse legado mais académico, mais erudito, tem uma manifestação atual que não se confina a esse universo pouco acessível. É uma coisa muito acessível a todos, muito contemporânea, que nós exploramos no festival. Portanto, temos artistas de todo o mundo, que têm vindo cá desde 2011, artistas de grande relevo, alguns até já ganharam óscares, entretanto. Esse é o universo que o Semibreve explora.

“Eu resumiria tudo a uma palavra: cautela. Nós tivemos de ser muito cautelosos a pensar o Semibreve este ano. A partir do momento em que dissemos que iríamos fazer o festival, não nos podíamos dar ao luxo de ele ser cancelado de novo”

Música eletrónica e arte digital. É esta a essência do Semibreve que, nesta edição, leva o seu programa a um património do século XVII, o Mosteiro de Tibães. É uma fusão um pouco fora da caixa, não é?

Essa é uma das dimensões que sempre exploramos no festival. Nós pensamos os conteúdos artísticos em função do local onde eles decorrem. Em 2011, começámos por pensar o festival para a sala principal do Theatro Circo e, progressivamente, fomos alargando o programa a alguns espaços de interesse patrimonial, como a Capela Imaculada do Seminário Menor, o Salão Medieval, o próprio Mosteiro de Tibães… tentamos sempre aliar a riqueza artística à riqueza patrimonial que nos caracteriza. Este ano, devido à pandemia, o mais fácil teria sido desistir. O festival estava programado para fevereiro, antes da pandemia começar, era um programa muito ambicioso, ocupava muitos espaços na cidade – e seria praticamente impossível fazê-lo acontecer nos moldes em que hoje nos encontramos. Nós prevemos que isso seria o mais óbvio e expectável e redefinimos o programa integralmente a partir desta ideia de reclusão: a ideia do Mosteiro enquanto local de reclusão. Abolimos as performances e pensamos o programa tendo em conta a própria natureza do Mosteiro e, por isso, essa ligação entre o moderno e o antigo, o experimental e o clássico, é algo que está na base do festival.

Como é que um diretor artístico consegue programar numa fase tão complicada como esta que vivemos? Quais foram os principais desafios?

Eu resumiria tudo a uma palavra: cautela. Nós tivemos de ser muito cautelosos a pensar o Semibreve este ano. A partir do momento em que dissemos que iríamos fazer o festival, não nos podíamos dar ao luxo de ele ser cancelado de novo. Tivemos de ser muito cautelosos na forma como dependeríamos da vinda de artistas, por exemplo, como articulávamos o festival para ser à prova de Covid quase. Este festival pode ser feito mesmo se o Mosteiro de Tibães seja encerrado, porque todo ele pode ser experienciado online. Portanto, isso foi uma preocupação que nós tivemos porque não sabíamos como as coisas estariam em outubro e, obviamente, implicou muitas horas a pensar, muita reflexão. Este formato sustenta-se na não-presença, na verdade. Isso garante-nos que vamos conseguir fazer o festival.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Quais são os principais destaques desta edição?

O programa em si não tem muitas subdivisões, portanto, praticamente todas elas são constituídas por nomes fortíssimos. Começaria por destacar as encomendas que fizemos – lá está, mais uma coisa que eu nunca imaginaria há dez anos: termos a capacidade de encomendarmos obras novas, compostas exclusivamente para o festival por artistas de dimensão mundial. Falo, por exemplo, de Jim O’Rourke que é um grande nome da música do século XX e XXI. Falo, também, de Kara-Lis Coverdale, que é uma artista canadiana que é um dos grandes nomes para as próximas décadas. Falo, ainda, da octogenária Beatriz Ferreyra, uma senhora com 85 anos que esteve na base da música eletroacústica em Paris, que compôs uma peça para o festival. Enfim, é de uma riqueza extraordinária termos a capacidade de encomendar estas peças que vão poder ser escutadas ao longo do fim de semana, online ininterruptamente, e também no próprio Mosteiro em salas dedicadas. Depois, organizamos também um ciclo de conversas. São quatro sessões que abordam temas diferentes e que contam com convidados de nível internacional, como David Toop, que é um dos pensadores da arte sonora nos últimos 30 ou 40 anos. Mas também posso destacar Chris Watson. Não menos importante: teremos cá quatro artistas presencialmente que irão filmar performances em especial, em parceria com o Canal 180, em diferentes locais do Mosteiro, que depois vão ser apresentadas no fim de semana do festival em formato vídeo.

 

“É sabido que um dos grandes pilares que sustentou a candidatura da cidade de Braga à Cidade Criativa da UNESCO foi precisamente o facto de, em Braga, acontecer o Semibreve, que é um festival de expressão europeia. Portanto, provavelmente, se não houvesse o Semibreve seria muito mais complicado Braga ter o título.”

Numa cidade que é reconhecida pelas Media Artes, qual é a importância da continuidade de um festival como o Semibreve?

É sabido que um dos grandes pilares que sustentou a candidatura da cidade de Braga à Cidade Criativa da UNESCO foi precisamente o facto de, em Braga, acontecer o Semibreve, que é um festival de expressão europeia. Portanto, provavelmente, se não houvesse o Semibreve seria muito mais complicado Braga ter o título. E, nesse sentido, diria que as coisas andam de mão em mão. Há uma ligação concreta e direta no programa do festival deste ano à Braga Media Arts, que é a entidade que gere o plano de ação da cidade enquanto Cidade Criativa da UNESCO: um workshop que estamos a fazer exclusivamente para pessoas da cidade, de música para famílias, que decorrerá nas manhãs de sábado e domingo, nos dias 24 e 25 de outubro, no Mosteiro. Queríamos, dessa forma, assinalar uma ligação direta à entidade da cidade que está a gerir essa pasta. É um trabalho contínuo de colaboração e sinergia.

Que futuro anseia para o Semibreve?

Antes de mais, que possamos fazê-lo de forma normal no próximo ano (risos) Esse é o maior desejo! Nós nunca tivemos a ambição de fazer o festival crescer demasiado. O que torna o festival interessante, apelativo e especial é, de facto, ter esta dimensão que não é enorme. O Semibreve, comparado a festivais com o mesmo impacto na Europa, é mais pequeno, tem um programa mais curto, com menos artistas. Mas isso dá-lhe um toque muito próximo do público – e isso nós nunca vamos querer mudar. Seria fácil crescer para algo muito maior, mas não queremos. Queremos manter o festival neste formato, mas aprofundar a forma como o fazemos, a envolvência com a comunidade, com o nosso património… Esses serão certamente os objetivos para os próximos anos.

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