Revista Rua

Luís Pedro Pinto: “A Arquitetura tem de estar ao serviço da cidade e das pessoas”

Luís Pedro Pinto é arquiteto que venceu o importante concurso público de Ampliação da Sede da Ordem dos Arquitetos, em Lisboa.
Luís Pedro Pinto ©Daryan Dornelles
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira17 Agosto, 2020
Luís Pedro Pinto: “A Arquitetura tem de estar ao serviço da cidade e das pessoas”
Luís Pedro Pinto é arquiteto que venceu o importante concurso público de Ampliação da Sede da Ordem dos Arquitetos, em Lisboa.

Natural de Lisboa, Luís Pedro Pinto é o arquiteto, de 41 anos, responsável pelo STUDIO_LPP, destacado recentemente por ter vencido o concurso público de Ampliação da Sede da Ordem dos Arquitetos. Apaixonado pelas cidades e as suas dinâmicas de organização espacial e social, Luís Pedro Pinto explicou à RUA os contornos do grande projeto que tem agora em mãos, não esquecendo de apontar os desafios da Arquitetura no nosso país.

Gostaríamos de começar esta entrevista por conhecer melhor Luís Pedro Pinto. De que forma é que se apresentaria aos nossos leitores?

Sou o Luís Pedro Pinto, 41 anos, nasci em Lisboa, onde vivo, sou arquiteto e pai de duas crianças, e também sou todas as outras coisas que vou fazendo ao longo do dia (e que à grande maioria das pessoas adultas ocupa os dias): cozinhar, arrumar, ler, dormir, vagar, etc.

Porquê Arquitetura? Há razões ou inspirações a terem orientado esta escolha?

No meu caso, penso não ter existido uma inspiração clássica ou romântica para esta escolha (pelo menos que me lembre). Quando se tem 18 anos e somos confrontados com a obrigação de escolher um curso, muitas vezes esta decisão faz-se de várias coisas contextuais à época… e pouco claras ou definidas na memória.

Mas lembro-me de uma coisa sempre me interessar: as cidades! A vida nas cidades. A organização espacial e social, a complexidade dos seus mecanismos urbanos de interação humana, capazes de potencializar uma vida em conjunto melhor e mais justa, estou convencido que só nas cidades se constrói isto.

E a arquitetura talvez tenha sido, consciente ou inconscientemente, a minha forma de poder participar mais ativamente em todo este complexo processo social. Se não foi isto que me levou à arquitetura, é pelo menos isto que hoje me atrai nesta profissão.

O Luís é natural de Lisboa. Acreditamos que toda a tradição arquitetónica da capital o tenha inspirado de alguma maneira. Vê a cidade de Lisboa como uma cidade-exemplo em termos de arquitetura na Europa? E que outras cidades (portuguesas ou mundiais) valorizam a sua arquitetura como uma forma de arte, a seu ver?

Certamente que sim, até porque acredito que os contextos têm grande influência naquilo que és e naquilo que pensas (não querendo de nenhuma forma negar ou reduzir a possibilidade humana na superação dos nossos contextos indesejáveis!) mas, obviamente que crescer e ter começado a ser adulto em Lisboa, na grande Lisboa que vai de Carnaxide a Alverca, foi moldando a minha forma de ver e pensar a cidade e “inspirando” (não gosto muito da palavra) o meu trabalho.

Respondendo à segunda parte da sua pergunta – Não vejo, de todo, Lisboa, neste momento, como exemplo de arquitetura. Apesar de continuar a ser uma cidade fascinante por todo o seu património territorial e construído, existem graves problemas sociais e urbanos, que são também arquitetónicos. A falta de habitação, digna e a custos humanos, a falta de pessoas a viver e trabalhar no centro, pessoas e profissões essenciais ao funcionamento de uma cidade, são problemas que se têm vindo a agravar e que esta pandemia os revelou mais cruamente. Infelizmente, não foram caminhos e escolhas exclusivas de Lisboa. Correm todas as cidades de que gostamos e são fruto de uma economia cada vez mais veloz e desregulada e em clara vertigem financeira.

Luís Pedro Pinto ©Daryan Dornelles

Na sua visão, quais são os desafios da arquitetura de hoje e de que forma esses desafios orientarão a arquitetura do amanhã no nosso país?

São estes que temos estado a falar: a arquitetura estar ao serviço da cidade e das pessoas. Com a sua arte e a sua melhor técnica, conseguindo construir espaços que nos tornem mais próximos uns dos outros.

Penso que isto só é possível se invertermos e repensarmos a encomenda de arquitetura em Portugal. O estado tem obrigação constitucional de garantir habitação e deve, na minha opinião, promovê-la em escala significativa – começando por avançar com concursos de arquitetura sérios, abertos a todos os arquitetos, novos e velhos, com obra feita e obra por fazer! Porque o processo de encomenda deve ser exemplar, democrático e o critério da escolha tem de ser só um: a qualidade do projeto.

Construir esta nova oferta de habitação pode ter múltiplas maneiras de se concretizar. Por exemplo, através da habitação cooperativa, onde o poder central ou os municípios disponibilizem terrenos ou imóveis degradados e um grupo de pessoas associadas, possa promover a suas habitações, criando novos centros, reabilitando centros antigos a custo real.

A habitação (só) no lucro dos fundos imobiliários apoiados pelos seus bancos correu mal e vai certamente continuar a agravar simetrias e desigualdades, para não falar do mal que esta encomenda tem feito à própria disciplina da Arquitetura, construindo e perpetuando estereótipos arquitetónicos também eles conservadores e de duvidosa qualidade.

O Luís criou o STUDIO_LPP em 2018. De que maneira descreveria os seus objetivos de trabalho neste estúdio? Quais são os seus principais propósitos enquanto arquiteto?

Eu trabalhei durante 15 anos na Bak Gordon Arquitetos (o que muito me orgulha). A certa altura, fruto de uma normal inquietação pessoal, resolvi sair e continuar a solo. O objetivo era, nessa altura, ter tempo para pensar e desenvolver os projetos que eu gostasse e com os quais me identificasse.

Quando, em 2015, saí da Bak Gordon, ainda estávamos mergulhados numa crise brutal (mais uma!) e tal objetivo parecia pretensioso, descontextualizado e profundamente irracional. Mas as coisas foram-se fazendo e hoje com o STUDIO_LPP cumpro esse objetivo inicial: fazer arquitetura, com tempo, sem ceder a ideias pré-feitas, lugares comuns ou inevitabilidades.

“Não vejo, de todo, Lisboa, neste momento, como exemplo de arquitetura. Apesar de continuar a ser uma cidade fascinante por todo o seu património territorial e construído, existem graves problemas sociais e urbanos, que são também arquitetónicos.”

O Luís pode falar-nos um pouco dos projetos que já fazem parte do seu portefólio? Pode destacar-nos alguns highlights da sua carreira até ao momento?

Destaco um concurso que fiz há pouco tempo e onde fui desclassificado (risos). Provavelmente não será um grande highlight! Mas serve aqui para ilustrar uma forma positiva (do meu ponto de vista) das possibilidades de construir cidade inclusiva e mais justa. Refiro-me ao Concurso Público para o Projeto Municipal de Habitação em Carcavelos. Através deste concurso público, livre e aberto a todos os arquitetos, o Município de Cascais, cumprindo as suas obrigações na criação de um parque habitacional socialmente acessível, vai criar uma oferta futura significativa de arrendamento em curto e médio prazo, possibilitando a oportunidade de construção de futuro a muitas famílias.

A arquitetura ser chamada a estes processos democráticos é, infelizmente, raro e pontual, mas assinalável! Para mim, que fui desclassificado do concurso, não foi um final feliz, mas fiquei muito contente em ter participado e orgulhoso com o resultado do meu trabalho.

Cada vez mais, assumimos a arquitetura de reabilitação como a arquitetura do futuro. O Luís concorda?

Depende do que entendemos por reabilitação. Obviamente que existe um parque construído, principalmente nos centros históricos das cidades, que merece toda a nossa atenção, mas não acho que nos devamos reduzir a manter fachadas e acrescentar mansardas nos telhados. A análise deve, na minha opinião, ser feita caso a caso, e deverá ser apenas mantido o que tem qualidade arquitetónica/histórica/etc., indiscutível para ser mantido, porque senão estamos a promover um discurso de “fachadização” nas nossas cidades com interiores novos e sem qualquer ligação programática e temporal à própria fachada e, consequentemente, à cidade.

Reabilitar pode ser também demolir e construir de novo. Se, com isso, conseguirmos melhorar a rua onde estamos a intervir, acrescentar qualidade habitacional ao imóvel e revelar o nosso tempo (século XXI) estamos também a reabilitar.

Na Casa Triangular, em Lisboa, fizemos exatamente isto. De uma ruína sem qualquer valor arquitetónico, não mantivemos nada. E não tenho dúvidas que a rua, o largo, neste caso, ficou melhor e se reabilitou!

Nesta fase, o Luís tem um importante projeto em mãos: a Ampliação da Sede da Ordem dos Arquitetos, cujo concurso público o Luís venceu. Pode explicar-nos melhor o objetivo deste projeto?

O Concurso para o projeto de ampliação da sede da Ordem dos Arquitetos era especial. Para os arquitetos, pela possibilidade de verem crescer a “sua” Casa, consolidando-a no espaço público e incrementando visibilidade à profissão, mas também, pela oportunidade de participação ativa num debate de arquitetura que vai, seguramente, ser amplificado.

Para a cidade, pela possibilidade de reabilitar um edifício bastante degradado, num local epicentral da história de Lisboa e sem ter como destino mais uma operação imobiliária, mas um equipamento aberto e potencializador da vida comum.

O projeto que apresentei, e do qual fui vencedor, tenta honrar esta oportunidade.

Quais os principais desafios neste projeto e qual a sua abordagem (que acabou por ser a vencedora)?

Existia (e existe) uma ruína no local da intervenção em eminente colapso. A degradação do conjunto levou-me a questionar sobre a mais valia da sua demolição integral. Porém, o conhecimento da sua classificação, como Conjunto de Interesse Público, desencorajou tal pensamento.

Assim, aceitei o essencial da fachada pré-existente, a sua materialidade, na estima da sua essência, com os seus vãos de cantarias de arco completo, as suas deformações do tempo.

A resposta deste projeto foi a recusa de uma mera “fachadização” procurando uma leitura crítica do existente, mantendo só o essencial e necessário, a esta nova realidade que se propôs.

Estas paredes deverão ser mantidas, pelo exterior, no seu estado atual, sem pinturas, limpezas ou liftings (apenas garantindo tecnicamente a sua não desagregação). Elas transportarão consigo as suas memórias, os cartazes colados, os grafitis ou pinturas antigas e modernas, reforçando uma ideia clara de um edifício novo, pousado em cima.

Considera que este projeto ajudará a dar nova vida a esta zona sensível da cidade de Lisboa, o Cais do Sodré? Qual é a sua visão?

O contexto em que este edifício se insere, a zona do Cais do Sodré, tem sofrido uma rápida e expressiva requalificação do edificado: os prédios passaram quase todos a ter “cara lavada”. Hoje são hotéis e apartamentos de luxo e as pessoas “transformaram-se” em turistas, que, entretanto, despareceram com a pandemia… A cultura popular e underground que sempre povoou o Cais do Sodré foi rapidamente sendo afastada, resultado de um processo especulativo incorporado pelas políticas urbanas que levou a uma clara higienização social.

Este projeto tenta, nas suas possibilidades, contrariar isso, seja pelo programa seja pela ideia de “manter” a ruína reconhecível nas suas várias histórias, nos seus vários tempos.

Luís Pedro Pinto ©Daryan Dornelles

Para um arquiteto, ter a oportunidade de mudar “a vida de uma zona sensível” de uma cidade é algo capaz de estimular e até, quiçá, impulsionar carreiras? Como vê esta oportunidade?

Pois…. impulsionar “carreiras”…. Isso já não sei! Mas que o desafio de trabalhar e vir a construir naquele lugar, ainda para mais o edifício Sede da Ordem dos Arquitetos, é, sem dúvida nenhuma, uma enorme oportunidade!

É impossível não terminarmos esta entrevista sem perguntar os anseios que o Luís tem para o seu futuro profissional. Há já projetos na manga? Anseios que possa divulgar?

Gostava muito que este projeto da Ordem dos Arquitetos se venha a concretizar, construir, pois estou convencido que será um projeto feliz! Um bom projeto catalisador para uma Lisboa pós-pandemia!

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