Revista Rua

Luísa Sobral e as perspetivas do amor

"Até já tenho uma ideia de como gravar o próximo disco! (risos). Somos seres criativos e temos sempre essa necessidade de explorar coisas que gostássemos de fazer".
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira20 Setembro, 2019
Luísa Sobral e as perspetivas do amor
"Até já tenho uma ideia de como gravar o próximo disco! (risos). Somos seres criativos e temos sempre essa necessidade de explorar coisas que gostássemos de fazer".

A voz é delicada, como uma rosa. A postura é serena, como uma mãe que vê um filho dormir. Luísa Sobral é melodia tranquila, embalada por amor. E é esse amor que nos traz no seu novo trabalho, chamado Rosa. Numa fase de plena consciência do tipo de música que quer fazer, falamos com a artista que vê na família um abrigo que a desperta, que a acompanha na saga de contar histórias em forma de canções.

Esta entrevista é parte integrante da Revista RUA Printed Edition #33

Fotografia ©Nuno Sampaio

Falar com a Luísa Sobral faz-nos sentir que a primeira pergunta tem mesmo de ser: a música está nos genes da família? Qual foi a razão que a fez entrar neste universo da música?

Sim, podemos dizer que há um gene familiar (risos) O meu pai sempre ouviu muita música, mas até hoje não sei bem o que nos fez, a mim e ao meu irmão [Salvador Sobral], seguir a área. Até gostava de perceber, para fazer o mesmo com os meus filhos (risos). Mas não sei bem. A verdade é que eu e o meu irmão somos músicos e o meu pai nunca pensou nisso, simplesmente tocava música em casa. Ele toca bateria, mas não é profissional. Foi tudo algo muito natural, sempre cantamos juntos. Portanto, não houve assim nenhum segredo. Eu, apesar de tentar, com toda a força, incutir a música aos meus filhos, percebo que não foi assim comigo – e segui este caminho. A minha mãe também ouvia música, naturalmente, e ouvia coisas que eu considero muito boas: Maria Bethânia, por exemplo. Esse lado, que eu também gosto muito, acabou por vir muito dela. Mas diria que, em estilos diferentes, as influências vieram dos dois.

A sua formação levou-a além-fronteiras, mas, de alguma maneira, encontrou sempre o caminho de regresso a Portugal. É aqui que gosta de estar?

Sim! Apesar de todas as colaborações que possa procurar fora, nomeadamente a nível de produção, eu quero mesmo viver aqui. Gosto de viver em Portugal. É aqui o sítio onde quero educar os meus filhos, onde quero passar o tempo que tenho livre e desfrutar da vida com a minha família. É engraçado porque ainda há pouco tempo eu estava a conversar com um amigo meu que estudou comigo nos EUA e ele contava-me que tinha voltado à cidade da nossa universidade. Dizia-me: “tens de voltar cá, para tocar aqui!”. Eu disse que não sabia se tinha assim tanta vontade de voltar lá. Não fiquei com uma ligação super forte aos EUA. Há outros sítios que gosto mais. Quero muito ir à Ásia tocar, por exemplo. Não fiquei com vontade nenhuma de viver noutro sítio sem ser aqui.

 

Fotografia ©Nuno Sampaio

“Estamos a passar uma fase de amor à língua. Acho lindíssimo!”

A Luísa tem trilhado um percurso de sucessos, seja como compositora ou como cantora. É óbvio que não podemos esquecer a fase ótima de participação com o Salvador Sobral na Eurovisão, mas gostaríamos de entender que fase vive hoje Luísa Sobral. Este novo trabalho Rosa apresenta-nos uma Luísa diferente?

Acho que sim! Acho que vivo uma fase em que quero fazer só exatamente aquilo que eu quero fazer, da maneira como eu quero fazer. Já não sinto que tenha de ter canções que passem na rádio. Não é que eu antes as fizesse de propósito para isso, mas tentava arranjar uma maneira de elas se tornarem um bocadinho isso, para me ajudar também na minha carreira. Ouvia o disco e pensava nisso, em qual canção seria para a rádio. Hoje em dia não. Neste disco não. Quando fiz as canções deste disco tinha plena noção que nenhuma delas era radiofónica – e estava tranquila com isso! Não tomo decisões na minha vida para ter mais sucesso, não quero ser júri de programas de televisão, não quero fazer coisas que me trariam mais visibilidade só porque me trariam mais visibilidade. Eu só quero fazer aquilo em que eu acredito mesmo! E isso aconteceu-me muito com este disco. Tive a serenidade de ser capaz de perceber que, se calhar, vou chegar a menos pessoas, mas que isso não faz mal. Não tenho vontade de tocar em sítios enormes, cheios de gente. Não! Tenho vontade de dar aquilo que eu tenho às pessoas que me querem ouvir. Acho que as minhas ambições mudaram um bocadinho também. Vejo a vida de uma forma mais serena. Na verdade, dá-me muito prazer tocar e partilhar as minhas canções e, então, não me importo de tocar em sítios pequeninos. Aí vejo a cara das pessoas! Com este disco, até queremos fazer uma mini tournée por terras onde normalmente não chegamos. Fazer concertos para 50 pessoas ou algo do género. Eu quero mesmo que a minha música chegue às pessoas, sem ter o objetivo de ser famosa – eu nunca quis isso! Não tento mudar nem fazer as coisas de forma diferente para ter mais sucesso. Não quero mais sucesso do que aquele que tenho. Estou em paz.

Podemos falar deste novo trabalho em concreto? É um álbum de histórias, correto?

É um disco que fala de vários tipos de amor, na verdade. Tenho uma canção para o meu filho sobre a minha filha que nasceu. É uma canção em que eu lhe explico o que é ter um irmão (antes de saber que seria uma menina, pensava que teria um rapaz). Tenho uma canção que fala sobre dois velhinhos que conheci há uns meses, um casal que se apaixonou mais tarde na vida. Eu quis contar a história deles! Tenho uma canção que seria para a minha filha que eu achava que era um rapaz. Tenho uma canção que fala sobre a forma como eu vejo o amor. Ou seja, tenho várias perspetivas – histórias que não são minhas também -, mas sempre de amor. Porque eu gosto de falar de amor. Acho que há amor em todas as coisas, não é necessário ser um amor romântico. Há o amor de irmãos, o amor de mãe… É disso que eu gosto de falar.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Por falar no amor de irmãos, este disco traz também um dueto com o seu irmão, Salvador Sobral. Chama-se “Só um beijo”. É uma canção especial?

Sim, claro que sim, até porque nós nunca tínhamos gravado nada juntos. Sempre cantamos juntos a vida toda, aprendemos muito um com o outro. Ainda há dias estávamos a ensaiar e é impressionante porque não é necessário olharmos um para o outro para percebermos quando é que vamos terminar a frase. Nós ouvimos a respiração um do outro e sabemos quando é que o outro vai entrar outra vez. Eu posso cantar com ele de olhos fechados! Sei exatamente o que ele vai fazer. Sabemos perfeitamente encaixar as vozes uma na outra. Eu acho que não é possível isso acontecer de uma forma tão perfeita sem ser com irmãos.

A nível de influências neste novo álbum, tentou trazer uma nova identidade às canções?

Cada disco que eu faço é inspirado por aquilo que eu estou a ouvir de momento. Isso faz com que eu componha de forma diferente. Primeiro, tenho ouvido muito mais música portuguesa. Ouço muito Márcia e o António Zambujo, que são duas grandes inspirações para mim. Depois, ouço muito música brasileira, como Chico Buarque, Os Tribalistas. A Mayra Andrade faz sempre parte das minhas playlists também. Ou seja, muita música em português! Acho que tem a ver com isso e também com aquilo que eu leio no momento – nesta fase, maioritariamente escritores lusófonos. Essas são sempre as minhas principais influências.

Concorda que estamos a atravessar uma fase em que há uma maior predisposição para ouvir música em português?

Sim, acho que estamos a passar uma fase muito positiva em que já é normal para os jovens quererem ouvir música portuguesa. Acho que é um bocadinho aquilo que falta no mundo do cinema. Aquela coisa de nós irmos ao cinema ver um filme português ainda é um bocadinho estranho para nós. No outro dia fui ao cinema ver o filme Snu e estava a sala cheia. Eu pensei “uau!”. É um passo! Se calhar, daqui a uns anos, tal como é normal hoje ouvir música portuguesa, tal como se ouve muita música portuguesa nas rádios, vai ser normal ir ver um filme português. Penso que estamos a passar uma fase na música em que as bandas que escrevem em inglês já quase não têm tanto sucesso e tentam também escrever em português. Estamos a passar uma fase de amor à língua. Acho lindíssimo!

Fotografia ©Nuno Sampaio

“Eu faço sempre, no início do ano, uma lista de coisas a melhorar em mim. Há uns dias olhei para a lista e reparei que, em nenhum ponto, vinha alguma coisa profissional – e não que eu ache que não precise de melhorar. É só porque eu dou sempre primazia à minha vida pessoal”

Com cinco álbuns lançados, um período de estudo nos EUA e um regresso às origens portuguesas, qual é a sensação de ser reconhecida hoje como uma das mais importantes cantoras e compositoras da nova geração de músicos portugueses?

Uau! (risos) Eu aprendo muito com os meus colegas e se alguém pode aprender comigo eu fico muito feliz! Eu acho que, para mim, está a ser incrível esta fase de explorar a minha própria língua. Acho que isso tem a ver com os meus filhos, principalmente com o mais velho: o facto de ele estar a aprender a falar e de eu, de repente, perceber que a língua que eu falo com ele é o português. É a língua que está ligada ao meu coração! Se eu quero dizer “gosto muito de ti” ou “não chores”, é em português! Quando estou em concerto, estou a contar histórias e, por muito mais que as pessoas percebam a letra em inglês, às vezes já não estão a ouvir ou até se perdem um bocadinho. Já não há tanto sentimento. Em português, sinto que cada palavra entra direta no coração. Por isso é que quis que este disco fosse tão despido, para que as pessoas ouvissem cada palavra das histórias que estou a contar. Mas tem sido engraçado porque, quando eu vou tocar lá fora, eu conto um pouco da história da música e, mesmo não percebendo o que estou a dizer, as pessoas emocionam-se com a música. O facto de eu explicar às pessoas em que viagem vão entrar tem ajudado. Tem sido muito bonito!

Tem planeado algo especial com esta digressão de concertos com o Rosa?

É uma formação [de banda] nova, há algumas coisas que adicionamos agora quando estivemos a tocar fora e que vamos começar a fazer cá também. O concerto para mim é todo especial. Tem vários momentos diferentes. Eu tento tirar de cada um dos elementos da banda o seu melhor, para mostrar o quão incríveis eles são. Tem sido muito bom para mim tocar com uma formação diferente porque há sete anos que estava com a mesma formação. É um bocado estranho para as pessoas que ouvem no início porque são duas guitarras e três sopros clássicos. Mas, de repente, quando começamos a tocar, faz todo o sentido!

Fotografia ©Nuno Sampaio

Para terminarmos, gostaríamos de perceber os anseios da Luísa em termos de carreira. Já existem planos, cartas na manga, objetivos…?

Em primeiro lugar, gostava muito de fazer outro disco para crianças. Mas não é já. Agora que sou mãe, tenho outra perspetiva e acho que seria engraçado fazer outro disco para crianças. Depois, quero continuar a compor para outras pessoas, começar a fazer mais isso lá fora também. Acabei de escrever uma canção para Espanha e tenho outra para Itália. Quero, ainda, fazer parcerias no Brasil, escrever para artistas brasileiros. Viajar para o Brasil neste ano ou no início do próximo para me encontrar com compositores e compor com eles é um objetivo. Mas, claro, quero muito compor para mim também – já estou a imaginar um próximo disco! (risos) Mas quero que este viva a sua vida longa. Quero muito ir à Ásia com o Rosa. Estamos também a marcar uma tournée na Austrália.

A Luísa não para então?

Até já tenho uma ideia de como gravar o próximo disco! (risos). Somos seres criativos e temos sempre essa necessidade de explorar coisas que gostássemos de fazer. Não quer dizer que o vá fazer agora, mas tenho essas ideias. Mas quero muito também ter tempo para a minha família! Sempre que estou com eles quero mesmo estar com eles, fazer coisas, viajar… Quero ter tempo para as duas coisas. É engraçado porque eu faço sempre, no início do ano, uma lista de coisas a melhorar em mim. Há uns dias olhei para a lista e reparei que, em nenhum ponto, vinha alguma coisa profissional – e não que eu ache que não precise de melhorar. É só porque eu dou sempre primazia à minha vida pessoal. Enquanto eu for feliz na minha vida pessoal, eu vou ser feliz na minha vida profissional – e ao contrário eu não acho que isso aconteça. Sermos felizes na nossa vida pessoal é o primeiro passo para o resto correr bem, para termos um apoio para fazermos aquilo que quisermos. O meu objetivo é dar todo o tempo que possa à minha família e, ao mesmo tempo, ir pensando nestas pequenas coisas que também me deixam feliz, como compor.

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