Revista Rua

2019-07-09T18:13:49+00:00 Cultura, Música

Mafalda Veiga, em cada lugar nosso

Fotografia ©Sorin Opait (com produção de Paulo Gomes)
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira1 Julho, 2019
Mafalda Veiga, em cada lugar nosso

É um dos nomes mais reconhecidos do panorama musical português. Exímia compositora e letrista, Mafalda Veiga está há 30 anos a cantar-nos a banda sonora das nossas vidas. Numa entrevista sobre o passado, o presente e o futuro, Mafalda Veiga mostra-nos o porquê de continuar a ecoar nas nossas playlists: o segredo está na paixão com que, com a sua guitarra, continua a dar voz aos seus (e nossos) sonhos!

Fotografia ©Sorin Opait (com produção de Paulo Gomes)

Depois de 30 anos, o nome Mafalda Veiga já faz parte do nosso panorama musical. Ainda lhe falam da voz doce que surgia com “Planície”, no álbum Pássaros do Sul, de 1987? Tem boas recordações desse início?

Tenho ótimas recordações! Na verdade, quando se começa, a expetativa e os sonhos são tão grandes que, obviamente, é algo que nunca mais se esquece. Por acaso, não quis sempre fazer música, não quis sempre compor canções. Eu pensava que queria ser pintora quando era pequena. A música foi algo que foi acontecendo naturalmente porque me deram uma viola e isso dava para inventar imensa coisa: histórias, canções… Era uma espécie de ferramenta da imaginação. Foi, sem dúvida, o facto de o meu pai me ter oferecido essa viola quando eu tinha 11 anos que fez com que tudo mudasse e eu esteja aqui agora.

De acordo com as informações que recolhemos, a Mafalda aprendeu a tocar guitarra cruzando-se até com o mundo do Fado. No entanto, não é Fado que nos canta…

O meu tio mais novo era guitarrista de Fado e ele é que me ensinou os primeiros acordes. Não me ensinou todos porque ele não tinha assim muita paciência (risos) Ele não era muito mais velho do que eu e tocava mesmo muito bem. Tocou em todas as casas de Fado e acompanhou imensos fadistas com quem eu estou hoje em dia, o que faz com que eu seja recebida pelos fadistas como se fosse família – e isso é uma coisa muito boa. Eu adoro Fado, adoro ouvir Fado, mas compor as minhas canções sempre foi muito mais forte, mais apelativo. Eu nem sequer tinha muito jeito para cantar Fado (risos). Assim que comecei a compor percebi que era aquilo que eu gostava de fazer.

“Eu acho que essencialmente tento ser muito honesta naquilo que escrevo. E tento, em cada disco, continuar à procura”

Falando de inspiração, as letras das suas músicas têm uma carga emotiva, mas sobretudo destacam uma característica que entendemos ser muito sua: a observação. A inspiração vem daquilo que a Mafalda vê ou se cruza?

Completamente… e também é isso que me inspira. Na verdade, é inspirador no sentido em que tudo à nossa volta pode ser uma canção. Uma conversa pode dar uma canção, um filme pode originar uma canção, há coisas que nos provocam nesse sentido de querermos responder-lhes. As canções servem como respostas, acho.

A relação com o público, depois destes 30 anos de carreira, é descrita de que forma?

Eu acho que essencialmente tento ser muito honesta naquilo que escrevo. E tento, em cada disco, continuar à procura. Tento fazer diferente. No fundo, tentar ir ao encontro daquilo que é o meu ideal de um disco ou o meu ideal de uma canção. Mudando um bocadinho o tom na forma como falo do mundo à minha volta. Acho que, por exemplo, o Praia é um disco que tem um tom absolutamente diferente dos outros e foi uma coisa que me deu algum trabalho perceber porque havia canções que eu compus antes e não entraram porque eu já tinha falado daquilo e precisava de mudar. Acho que essa procura em cada trabalho faz com que eu me sinta muito bem na minha pele. Eu tenho feito aquilo que eu acho que devo fazer, como eu sinto que devo fazer, em cada momento. Acho que isso passa de uma forma autêntica para as pessoas. Se calhar, é por isso que as pessoas se identificam com aquilo que eu escrevo. Na verdade, nós não somos assim tão diferentes uns dos outros e passamos todos por coisas muito semelhantes. Vivemos de formas diferentes, mas há coisas que se tocam. Já me aconteceu imensas vezes pessoas dizerem “escreveste esta canção e parece que estás a falar de mim”. Eu acho que, como digo na “Tatuagens”, em muitas coisas tu és igual a mim. A vida é cheia de coisinhas pequeninas que são fundamentais para nos construirmos a nós próprios.

Fotografia ©Sorin Opait (com produção de Paulo Gomes)

Numa das suas canções consagradas, “Restolho”, dizia-nos que “A vida não é existir sem mais nada, a vida não é dia sim, dia não, é feita em cada entrega alucinada, para receber daquilo que aumenta o coração”. Se a vida não é existir sem mais nada, a música é para si o todo que lhe preenche a vida? Como nos descreveria esta entrega alucinada em 30 anos de carreira musical?

(risos) A música é o meu todo, completamente! Tem sido fascinante! Eu não considero carreira porque eu acordo e deito-me a ser sempre aquela pessoa que escreve canções… e o meu trabalho estrutura-me tanto que eu não tenho uma vida pessoal e uma carreira:  o que eu tenho sou eu! E acho que a música que eu faço corresponde também aos meus altos e baixos pessoais. A música é mesmo a minha expressão preferida. É a forma como eu consigo dizer aquilo que eu sou, que eu penso do mundo à minha volta. No fundo, eu cada vez mais fui sendo esta pessoa que se construiu porque escreve canções.

 

Ao longo destes anos construiu uma carreira sólida, com vários discos e duetos com outros artistas. Esta ligação com outros artistas é algo que valoriza? A música é feita para ser partilhada?

A música é a coisa que mais convoca os sentimentos coletivos. Há uma canção da Madonna que diz “music makes the people come together” e é verdade: a música faz mesmo as pessoas juntarem-se. Por exemplo, se nós ouvirmos uma plateia a cantar, soa afinadíssima. Provavelmente nem toda a gente é afinada, mas uma plateia a cantar é a coisa mais extraordinária do mundo. É muito, muito gratificante para quem escreve canções estar em cima de um palco e ter as pessoas a cantar aquela canção que nós fizemos em casa sozinhos no quarto. Aquele momento é quando tudo faz sentido. De facto, a música é também um grande instrumento de comunicação, para além de ser arte. Cantar com colegas é muito enriquecedor porque toda a gente tem um carisma diferente, uma forma diferente de interpretar e aprendemos muito uns com os outros quando tocamos juntos.

“O meu trabalho estrutura-me tanto que eu não tenho uma vida pessoal e uma carreira:  o que eu tenho sou eu!”

Cantar para uma sala esgotada depois de 30 anos ainda lhe faz sentir o friozinho na barriga?

Claro, isso não passa nunca! E, às vezes, não tem a ver com estar esgotada ou não, tem só a ver com ir tocar. É sempre uma responsabilidade enorme.

Há uma música que, por muito que não se conheça a carreira da Mafalda, é conhecida por grande parte do público: “Cada lugar teu”, do álbum Tatuagem. É uma música de 1999. Como se sente ao saber que, por muito que o tempo passe, a sua música acompanha as gerações?

É maravilhoso! É uma sensação que não sei descrever, sinceramente. É uma coisa muito forte estar em palco nesse momento. “Cada lugar teu” especificamente é a canção de muita gente.  Há pessoas que se encontraram, namoraram, casaram ao som da canção. Há tantas histórias que já me contaram! É maravilhoso como uma pequena canção se torna enorme assim. Para mim, é um privilégio enorme.

 

Tem por hábito acompanhar o percurso dos novos artistas portugueses?

Costumo, conheço e sou super fã! Eu estou sempre a tentar descobrir o que está a sair, aqui e lá fora. Há imensos músicos que eu adoro e há muita coisa boa a fazer-se cá.

Avizinha-se música portuguesa de boa qualidade?

Sim, eu acho que sempre houve. Houve alturas em que as pessoas estiveram mais de costas voltadas para a música portuguesa do que estão agora, mas sempre houve pessoas a escrever muito bem em português. Nós temos uma escola extraordinária! Estas pessoas não aparecem do nada. Vêm do Zeca Afonso, do Fausto, do Jorge Palma, do Sérgio Godinho, ou seja, temos uma escola de compositores extraordinária. Eu acho é que muitas vezes nos esquecemos de olhar para trás e a memória é muito importante nestas coisas. Nós temos de facto uma grande, grande escola! Em Espanha, por exemplo, não há esta quantidade de compositores. É um grande motivo de orgulho termos um património incrível de compositores e escritores de canções ao longo deste tempo todo. É um legado importantíssimo!

Fotografia ©Sorin Opait (com produção de Paulo Gomes)

Durante 2019, o que vamos conhecer de Mafalda Veiga?

Vou estar a fazer espetáculos de comemoração com banda e um espetáculo a solo que se chama Crónicas da Intimidade de uma Guitarra Azul, que sou eu sozinha em palco com guitarras e teclados. Tenho estado a compor para novo disco, mas não sei ainda datas (risos).

 

Depois de uma odisseia de 30 anos, quem é esta Mafalda Veiga?

Eu não sei descrever-me (risos) Eu faço música porque eu adoro. Tenho sabido preservar, ao longo destes anos, esta paixão que sinto pela música… e as paixões são coisas que se alimentam também, que precisam de ser cuidadas. A maneira como eu me relaciono com a música é muito cuidadosa, no sentido em que eu sei que a música é importantíssima para mim. E gosto de sentir que aquilo que faço me dá prazer! Portanto, tento sempre fazer de uma forma muito honesta o meu trabalho, de coração.

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