Revista Rua

2020-01-14T15:05:12+00:00 Opinião

Mais do que monumentos ou sítios… protejam-se os territórios!

Património
Hugo Aluai Sampaio
Hugo Aluai Sampaio
14 Janeiro, 2020
Mais do que monumentos ou sítios… protejam-se os territórios!
“Castro” de Sabroso, Guimarães: pormenor do estado atual da placa identificativa de classificação do local como Monumento Nacional (cortesia Luís Coutinho)

Em muitos casos é difícil, se não impossível, delimitar de forma tão simples e linear algumas formas de Património Cultural. Veja-se o exemplo de um monumento histórico edificado. A legislação preconiza que este, uma vez classificado (Imóvel de Interesse Nacional, Público ou Municipal), implica, obrigatoriamente, a definição de uma Zona Especial de Proteção (ZEP). Esta serve, precisamente, para assegurar a integridade de eventuais vestígios invisíveis a olho nu e que a construção nas imediações possa colocar em causa. A proteção via classificação, obviamente, tem uma relação direta com a natureza desse património: interesse histórico, científico, cultural, social, pedagógico ou meramente simbólico. Mas nestes casos a materialização da classificação e, por inerência, da proteção, vê-se facilitada pela monumentalidade da generalidade destes edifícios.

E todo aquele património material que não goza de tal grandeza e que não se encontra classificado?  Se a classificação não assegura, por si só, a proteção integral e efetiva, ela é uma ferramenta que, convenhamos, facilita em muito o processo. Já antes assumimos que somos incapazes de proteger o que desconhecemos. E a verdade é que a iliteracia no âmbito do Património Cultural é imensa. Desde logo, sob o primado da não monumentalidade. A modéstia de certas expressões culturais edificadas é (vista como) desinteressante e enfadonha. Outrossim, não haverá caso de património arqueológico que não tenha que lidar com este dilema: parcial, em ruínas, alterado, destruído, mostra-se difícil de interpretar. Por consequência, e enquanto parte de um pútrido círculo vicioso, vê-se privado de investimento que incentive a sua valorização. Não sendo valorizado, não será visitado. Não sendo visitado, nunca será compreendido. Não sendo compreendido, não será transmitido. Não sendo transmitido, não será valorizado. E volta-se ao mesmo. A sua decadência acaba pior do que o seu estado aquando da sua escavação e colocação a descoberto: o degredo toma conta dessas ruínas e carcome os seus restos frágeis de historicidade.

Cabe aos arqueólogos serem coerentes com alguns dos seus princípios, (no mínimo) a dois níveis distintos: se, por um lado, os arqueólogos devem empenhar-se em traduzir estes vestígios do passado para a generalidade do público (e, com isso, potenciar o seu caráter turístico-pedagógico) e deixar os discursos técnico-aborrecidos-nada-atrativos para a nata que ocupa os assentos de congressos e seminários da especialidade, por outro têm o dever de gerar narrativas práticas e simples que atinjam a grande franja da população. Ao mesmo tempo, esses mesmos arqueólogos devem ter a verdadeira noção das implicâncias destrutivas inerentes aos trabalhos de escavação. E, na generalidade das ocasiões, aqueles grandes projetos académicos de investigação financiados que põem a descoberto esses restos do passado, findados esses mesmos projetos e na falta de financiamento, tornam esses lugares fantasmagóricos e abandonados à sua sorte (e aos maus usos que alguns lhes dão). Querem um bom exemplo? A Citânia de  Sabroso, em Guimarães, está classificada como Monumento Nacional… tentem visitá-la!

Sobre o autor
Arqueólogo, professor universitário, investigador integrado do Lab2PT e colaborador do CiTUR.

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