Revista Rua

Mais respeito que eu sou… o Joaquim Monchique!

O comediante Joaquim Monchique está em entrevista à RUA!
Mais Respeito Que Sou Tua Mãe! ©Joana Linda
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira14 Novembro, 2020
Mais respeito que eu sou… o Joaquim Monchique!
O comediante Joaquim Monchique está em entrevista à RUA!

É um dos nomes mais queridos da comédia em Portugal e, entre as gargalhadas que nos proporciona, vive agradecido pelo carinho de um público que não esquece as suas mais icónicas personagens, da Pilita em Herman SIC à Vizinha do Porto em Donos Disto Tudo. Com mais de 30 anos de trabalho em teatro e televisão, Joaquim Monchique é sinónimo de um talento que não diminui. Numa entrevista que antecede a subida ao palco do Altice Fórum Braga, a 20 de novembro, com Mais Respeito Que Sou Tua Mãe!, Joaquim Monchique fala-nos de um percurso que o deixa feliz e que o instiga a continuar, de êxito em êxito, sem perder o ânimo. “Nunca fiz nada que não gostasse. Nunca fiz nada em que me sentisse contrariado”, conta-nos.

©D.R.

Vivemos numa altura tão caótica para a cultura e para a vida em sociedade. Como tem vivido esta fase?

Têm-me perguntado muitas vezes o que é que eu tirei de bom desta pandemia e eu respondo: nada! Mantenho-me preocupado porque vejo com apreensão toda esta minha classe. Por exemplo, neste espetáculo que estou a fazer, o Mais Respeito Que Sou Tua Mãe, são 14 pessoas diretamente envolvidas, fora os trabalhadores indiretos. Não temos linha nenhuma de apoios. Ou trabalhamos ou não trabalhamos. O que, ao mesmo tempo, também me dá liberdade para escolher e fazer o que me apetecer – e isso eu gosto. Não me estou a queixar por causa disso, tanto é que, ao longo destes últimos dez anos, com as propostas que eu tenho feito e com a minha lógica, consegui mais de dois milhões de espetadores em teatro – o que é um orgulho para mim! Em caso de população de Portugal é quase como toda a Lisboa se tivesse sentado num teatro a ver-me.

Mas, ao mesmo tempo, fico muito preocupado com isto tudo. Esta pandemia não trouxe nada de bom. Estas coisas que as pessoas dizem, que a pandemia nos vai tornar melhores seres humanos, é mentira! Continuamos a poluir as coisas, continuamos a não retirar ensinamento nenhum. Cada vez estamos mais burros! Eu, na minha altura, se tivesse estas armas que os miúdos têm agora, como o Google, eu tinha 20 a todas as disciplinas! E parece que, mesmo com todas estas janelas abertas para o mundo, as pessoas são cada vez mais porteiras. O mundo tornou-se uma entrada de um prédio. As pessoas só sabem utilizar a internet de uma maneira que não é educativa. É uma maneira de exaltarem os ódios e as fraquezas que têm. Portanto, as coisas boas que podia, alguma vez, a pandemia ter trazido… não trouxe absolutamente de maneira nenhuma!

Apenas foi bom, durante o período de isolamento, eu descobrir uma cidade completamente calma. Eu moro numa zona em Lisboa onde passam os aviões transatlânticos, principalmente. Normalmente, eu acordava de manhã e pensava “está a chegar o São Paulo, o Miami, o Rio de Janeiro…” e, de repente, consegui dormir melhor porque não havia barulho. Mas esta pandemia não trouxe nada bom para nós porque todos temos pessoas de família mais debilitadas e nós preocupamo-nos muito com isso.

“Cada vez estamos mais burros! Eu, na minha altura, se tivesse estas armas que os miúdos têm agora, como o Google, eu tinha 20 a todas as disciplinas! E parece que, mesmo com todas estas janelas abertas para o mundo, as pessoas são cada vez mais porteiras. O mundo tornou-se uma entrada de um prédio”

Gostaríamos de conhecer melhor o percurso do Joaquim. Convido-o então para uma viagem no tempo. Está novamente em 1988 e prepara-se para um casting no Teatro Aberto. Que Joaquim era esse desses tempos? Era um Joaquim que tinha noção que era este o percurso que queria?

Era um Joaquim que tinha na cabeça uma meta. Nesse mesmo ano, eu tinha feito a minha candidatura para entrar na Católica para tirar Direito. Quando soube que, no meio de 300 e tal pessoas, eu fui o escolhido do casting, cheguei a casa e disse aos meus pais que não ia estudar Direito e que ia para o Teatro. Provoquei uma revolução em casa! (risos) Ainda por cima eu sou neto e filho único e a minha família queria que este menino tivesse um Dr. à frente do nome. Hoje também não há profissões seguras, mas na altura era completamente diferente. Hoje em dia os pais ficam mais deslumbrados por os filhos serem conhecidos, mas naquela altura não era assim.

Esse Joaquim tinha a meta de permanecer naquele mundo uns três ou quatro anos. Se não conseguisse as coisas que eu tinha na cabeça, abandonaria e ia fazer outras coisas. Tive uma professora, quando tinha seis anos, que disse uma frase à minha mãe que é um conselho que eu levei para a vida: “Ele pode fazer o que ele quiser”. Se eu meter na cabeça que faço, eu vou fazer bem de certeza!

Olhando para esta carreira que já vai longa, o Joaquim guarda boas recordações desse início?

Guardo boas memórias porque, de repente, comecei a trabalhar com as pessoas que admirava quando era pequeno. A televisão formatou, principalmente, a minha geração de atores. Também porque não havia nada! A televisão abria às 18h e fechava à meia-noite. Portanto, eu era pequenino e ficava fascinado por ver os atores, os apresentadores e os programas da altura. Com 18 anos, estava a contracenar com pessoas que, até aí, só via na televisão. Foi um embate – tanto aí como quando comecei a trabalhar com o Filipe La Féria – por ver todas as pessoas que eu admirava estarem ali ao meu lado. Desde os 18 anos que nunca mais parei de trabalhar até hoje. Portanto, foi bom! Foi exatamente como eu pensei que seria se corresse bem (risos).

Ao longo dos anos, o Joaquim esteve envolvido em projetos diversos que marcaram não só o teatro, mas também a televisão. Que projetos considera que, de facto, marcaram a sua carreira?

O momento de viragem foi, certamente, quando fiz televisão pela primeira vez com o Filipe La Féria. Tanto eu como o João Baião fizemos o programa Grande Noite e ficamos conhecidos de um dia para o outro. O programa estreou numa quinta-feira e na sexta as pessoas já sabiam o nosso nome na rua. As televisões privadas tinham uma audiência muito residual, mas a televisão pública toda a gente via. Ainda hoje, na RTP Memória, Grande Noite já passou imensas vezes e as pessoas continuam a ver com muito carinho. Considero que esse é um projeto de viragem, que me tirou do anonimato.

Depois, destaco os anos do Herman SIC, que era uma sala de visitas para as estrelas internacionais que vinham a Portugal. Tive o privilégio de conhecer Julio Iglesias, Ricky Martin, Gloria Estefan, Diana Krall, Tom Jones… todos passaram por Portugal quando o nosso país começou a estar no mapa das digressões europeias. De facto, nós tínhamos um programa que as pessoas esperavam para ver ao domingo à noite. Tantas vezes ouvi na rua: “Vamos lá ver o que é que vocês vão fazer no domingo!”. Era um tipo de programa e um tipo de espera que hoje em dia já não existe. Também a informação já é muita e as rotinas mudaram. Nós apanhamos o sucesso do primeiro Big Brother e um dos meus maiores êxitos, em termos de personagem, foi o Telmo, um concorrente desse reality show.  Também a personagem Pilita, que nasceu do nada e que as pessoas adoraram! Todos os anos com o Herman foram especiais! Continuam a ser, porque eu continuo a trabalhar com ele passados estes anos todos.

Talvez possa ainda salientar a novela que fiz na Globo porque, para os atores, ir à Globo é como ir à DisneyWorld de Orlando. É realmente um mundo à parte! Mais uma vez, o fator memória foi importante para mim: de um dia para o outro, estava nos corredores da Globo com pessoas que me entretinham quando eu era pequenino. Ver aqueles atores das novelas e, de repente, tê-los como amigos foi especial. Tudo isso foi, como eu costumo dizer, pontos no cartão.

A verdade é que eu fiz muita coisa em televisão: eu apresentei programas, eu fiz séries, fiz tudo e mais alguma coisa! Nunca fiz nada em televisão que não gostasse. Nunca fiz nada em que me sentisse contrariado. Aliás, como em nada na vida! Porque eu acho que a minha profissão não suporta isso. Quando um ator não está satisfeito, tanto a fazer teatro ou televisão, o público percebe isso. Portanto, temos de estar a 100%.

“Quando soube que, no meio de 300 e tal pessoas, eu fui o escolhido do casting, cheguei a casa e disse aos meus pais que não ia estudar Direito e que ia para o Teatro. Provoquei uma revolução em casa! (risos)”

O Joaquim é reconhecido como ator, encenador, comediante e é inegável o carinho do público. Aliás, o Joaquim é muitas vezes apelidado como um dos grandes nomes da comédia em Portugal. Considera que vivemos numa boa fase para os trabalhos de comédia em Portugal? A nossa sociedade continua a dar muito sumo para programas como o Donos Disto Tudo?

A Comédia, ou melhor, o Teatro é o espelho da sociedade. Qualquer comediante retrata e espelha a sociedade que está a viver. Agora, nestes tempos, eu noto que o público, depois destas tormentas, precisa muito mais de diversão. O público quer divertir-se! E ainda bem que eu estou neste tipo de área de entertainment porque eu noto que as pessoas estão com vontade de rir. Pelas mensagens que recebo através das redes sociais, noto que as pessoas me agradecem. Dantes também agradeciam com uma frase que eu gosto imenso: “obrigada pelas duas horas em que me fez feliz”. Mas é muito mais importante agora quando me dizem: “obrigada por me ter feito esquecer isto tudo!”. A comédia também tem esse lado placebo de fazer com que as pessoas se esqueçam do dia a dia… muito mais agora com a pandemia.

É muito revigorante esse carinho do público, correto?

Eu fico muito comovido porque o público tem um carinho avassalador por mim. Principalmente quando vou para o Norte, porque as pessoas do Norte veem-nos muito menos vezes e eu apercebo-me do carinho. Eu considero o público do Norte o meu público-alvo porque é para quem eu mais gosto de trabalhar. O público do Porto e de Braga, por exemplo, têm um carinho enorme por mim! Braga esgota sempre as salas dos meus espetáculos! Eu devo isso aos Deuses! Tenho histórias absolutamente maravilhosas desse carinho. Já disse várias vezes: se amanhã me passar um carro por cima, eu morro com o dever cumprido! (risos)

Mais Respeito Que Sou Tua Mãe! ©Joana Linda

Sobre o espetáculo Mais Respeito Que Sou Tua Mãe, que chega a Braga a 20 de novembro, um espetáculo já visto por mais de 500 mil espetadores, pergunto: este é um espetáculo que lhe enche as medidas? Como tem sido levar este espetáculo a cena?

Tudo começou de uma forma muito engraçada, exatamente quando eu estava a gravar a novela na Globo. Como Buenos Aires fica muito perto do Rio de Janeiro, a cerca de duas horas de avião, e é uma das minhas cidades favoritas por ser uma cidade maravilhosa com uma vertente cultural muito grande, dei lá um saltinho. Em Buenos Aires, as pessoas adoram teatro – e o teatro lá é muito eclético, desde o teatro de revista que ainda continua com mulheres nuas em escadarias até às grandes peças de repertório do Shakespeare! É uma cidade multicultural, tem de tudo! Fui então passar um fim de semana a Buenos Aires e chego à Avenida Corrientes, que é a avenida dos teatros, e vejo ao fundo um cartaz e uma fila de pessoas a dar a volta ao quarteirão para entrar na sala. Os teatros são como os restaurantes: quando um restaurante está cheio às 20h e há pessoas cá fora à espera, quer dizer que é bom! Quando um teatro está cheio quer dizer que alguma coisa se passa. Vejo então um cartaz que diz “Más Respeto Que Soy Tu Madre” com um dos grandes atores cómicos de Buenos Aires e, mesmo antes de ver a peça, decidi que queria fazer aquele espetáculo. Fui ver a peça duas vezes no mesmo dia e, na segunda visualização, já estava a planear o elenco, já estava a transportar a peça para a realidade portuguesa, já estava a ver como é que ia fazer o cenário… Embora tenha estreado esta peça há dez anos, de vez em quando volto a colocá-la em cena. Mais uma vez, saí de Lisboa, do Porto e de todas as cidades onde estive com as salas esgotadas! Quer dizer que daqui a uns anos vou voltar a repô-la porque é realmente um êxito.

“Já disse várias vezes: se amanhã me passar um carro por cima, eu morro com o dever cumprido! (risos)”

Para quem ainda não viu, que convite faria o Joaquim?

É um espetáculo que é uma comédia completamente rasgada do princípio ao fim! Uma das coisas que as pessoas me dizem é que ficam cansadas de rir. Depois, tem o fator que garante o êxito: todas as cenas que estamos a ver no palco já vimos em casa. Já ouvimos as nossas mães a dizerem-nos aquilo! Porque a realidade da relação das mães com os filhos é igual aqui como no Bangladesh ou no Peru. É igual! A peça passa-se nos subúrbios de Lisboa, na zona da Baixa da Banheira, e traz a história de uma família problemática com três filhos adolescentes e com muita falta de dinheiro. O que quer dizer que, ao fim e ao cabo, é como quase 90% da população portuguesa: debater-nos com falta de dinheiro, com um marido desempregado, um avô que vive na nossa casa… As pessoas vão ver esta peça quatro e cinco vezes, levam os filhos, os pais, os avós… É uma peça que marca as pessoas!

Mais Respeito Que Sou Tua Mãe! ©Joana Linda

A nossa última pergunta tem a ver com os planos que o Joaquim tem para o futuro. Vamos poder vê-lo em novos projetos (ou a dar continuidade ao que tem feito) durante o próximo ano?

Agora, depois da despedida do Mais Respeito Que Sou Tua Mãe, vou voltar a fazer um espetáculo que já fiz. Na verdade, quando fiz 30 anos de carreira decidi que queria voltar a fazer as peças em que tive maior êxito e, por isso, vou voltar a fazer agora um dos meus maiores sucessos: Paranormal, do meu colega Miguel Falabella. Paranormal foi o monólogo mais visto da história do teatro português! Vou voltar a repor esta peça porque tenho de a fazer enquanto tiver saúde porque é um espetáculo tão violento! São quase duas horas em que estou sozinho em cena. Interpreto um paranormal que recebe 17 entidades, ou seja, são 17 personagens! Foi um dos meus maiores êxitos e eu quero muito repor este espetáculo. Vou estrear em janeiro em Lisboa e, obviamente, irei também ao Norte!

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