Revista Rua

2018-11-08T14:55:44+00:00 Cultura, Pintura

Manecas Camelo: a música da pintura

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Helena Mendes Pereira6 Agosto, 2018
Manecas Camelo: a música da pintura
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Ainda que o verão continue discreto, os concertos e os festivais proliferam-se pelo país, recordando-nos o papel da Arte no nosso tempo de ócio e a força, nomeadamente da música, enquanto catalisadora de energias, interesses e igualdades. Manecas Camelo (n.1964) exalta alguns dos seus ídolos, carregadinhos de rock&roll e que imortalizam a ideia de que a eternidade existe para todos aqueles que conseguirem, através da criação artística original, não deixar ninguém indiferente. Da série, de 2017, identifica-se quem é quem e evidenciam-se as competências e as características de um artista plástico, pintor, que tem na experimentação a sua base de trabalho, partindo de um processo permanente de construção e de desconstrução gestual, fortemente expressionista e de corrente figurativa. A mancha é rápida e a ação deixa-se invadir pelo acaso que a experiência controla, fazendo emergir as imagens, neste caso, rostos que mais do que apresentar, representam a mística de cada uma das lendas. Mais do que música, ouvem-se os murmúrios interiores, refletindo a “impermanência do mundo, num olhar de transitoriedade não depressiva”, nas palavras do pintor bracarense.

Manecas Camelo pinta como é livre, num gesto solto, de excesso, mas que procura quebrar o ciclo de uma sociedade em crescente abundância, em que a vigia que fazemos uns aos outros, mais do que pequeno e pecaminoso voyeurismo, é ausência de autoconhecimento e procura obcecada de viver a vida alheia. Com a sua pintura, Manecas Camelo combate o espetáculo da passividade, propondo-nos observar o real a partir do seu entorno acrílico, da sua energia complexificada de múltiplas vozes, numa produção plástica que tem sido constante ao longo dos últimos 30 anos e que itinera entre os domingos no corpo e os sábados no vislumbre da paisagem. Da paisagem, destaca-se, ainda, a série Cávado numa paleta de azuis, verdes e emaranhados de nuvens que faz correr o rio sem a nostalgia e apenas com a alegria. “Considero que a vida são momentos que não podem ser desagregados dos sentidos”, escreve o também professor de Artes Visuais. E é por essa não desagregação que Manecas Camelo sente, ouve e saboreia cada pincelada até ao exercício do extravasamento e da catarse máxima, mantendo-se fiel às suas dúvidas e excluindo as certezas do processo plástico.

Manecas Camelo, simultaneamente, como se disse, artista plástico e professor, começou a sua formação académica pelo Design Industrial na Escola Superior de Artes e Design do Porto, optando ainda, na mesma instituição, pelo desenho e pela pintura. Completou o Master Ibérico em “Dibujo e sus técnicas de espresión” pela Universidade Politécnica de Valência (Espanha) e já realizou dezenas de exposições nacionais e internacionais, que correspondem à dispersão da sua obra um pouco por todo o mundo. Um mundo em que estas suas obras atingem um grau de perceção universal: são música na e da pintura e são pequenos pedaços anti a efemeridade de tudo o que é dos nossos dias.

Sobre o autor:
chief curator da zet gallery

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