Revista Rua

2020-07-09T16:44:09+00:00 Cultura, Música, Personalidades

Manuela Azevedo: “Deveria existir um Sistema Nacional da Cultura como existe para a Saúde”

Manuela Azevedo subiu aos palcos com Bruno Nogueira para o "Deixem o Pimba em Paz", o espetáculo que marcou o regresso da cultura aos palcos depois da pandemia.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto9 Julho, 2020
Manuela Azevedo: “Deveria existir um Sistema Nacional da Cultura como existe para a Saúde”
Manuela Azevedo subiu aos palcos com Bruno Nogueira para o "Deixem o Pimba em Paz", o espetáculo que marcou o regresso da cultura aos palcos depois da pandemia.

Voz do grupo musical português, os Clã, Manuela Azevedo sobe ao palco com Bruno Nogueira – e com tantos outros artistas portugueses convidados – com os espetáculos do Deixem o Pimba em Paz. Do inusitado traçaram um percurso de estrada de sucesso e têm vindo a provar que o “pimba” tradicional é unificador de uma cultura marcada por expressões que nos definem e temas impossíveis de esquecer.

Manuela Azevedo está de regresso aos palcos, neste que foi o espetáculo escolhido para assinalar a reabertura das portas destas salas que durante uns tempos ficaram circunscritas ao silêncio e à escuridão. Também com os Clã já em digressão, a artista portuguesa fala-nos dos obstáculos inerentes ao futuro das artes performativas e do valor incalculável da cultura, enquanto motor de uma sociedade mais culta, justa e atenta ao que realmente importa.

Fotografia ©Nuno Sampaio

É importante que as pessoas continuem a consumir os produtos culturais, mas os cuidados exigidos poderão dificultar este acesso à cultura. Concorda? Da sua experiência de regresso aos palcos, de que forma tem sido recebida pelo público?

As pessoas, embora estejam com medo, estão desejosas de o fazer. Nestas cinco ocasiões em cima do palco em frente a pessoas – nos quatro espetáculos do Deixem o Pimba em Paz e do concerto dos Clã em Almada – houve em todas elas aplausos que não foram para os artistas, foram para o momento. Estamos ali juntos e pensamos: “É disto que a vida é feita.” É isto que faz falta e dá sentido aos nossos dias. Espero que as pessoas consigam vencer o medo e voltem (aos poucos) aos espetáculos.

Falando nos espetáculos do Deixem o Pimba em Paz, este ano foi especial, uma vez que foi o espetáculo escolhido para marcar a abertura das salas. Começo por perguntar-lhe, Manuela, como é que foi este regresso aos palcos com tantos cuidados inerentes?

Estava à espera que fosse uma experiência mais surreal, ainda que tenha sido um bocadinho, claro. Para já, pelo facto de chegar à beira dos meus colegas e não os poder abraçar ou estarmos no palco afastados uns dos outros. Mas, por outro lado, foi interessante perceber que rapidamente conseguimos ultrapassar isso, as coisas normalizam e o trabalho faz-se. Obviamente, é estranho vermos as pessoas de máscara, mas os olhos são o espelho da alma. Conseguimos ver que as pessoas estão ali, estão a gostar, estão emocionadas ou eufóricas. Esse encontro acontece, mesmo que não consigamos ver a cara toda das pessoas.

“A cultura é algo mesmo muito importante. É saúde mental e deveria existir um Sistema Nacional da Cultura como existe para a Saúde, com mais injeção de meios e orçamentos. É terrível ver que continuamos a pedinchar por mais dinheiro para a cultura.”

Tivemos quatro sessões esgotadas num ápice. Considera que as pessoas estavam ansiosas por voltar a consumir cultura?

Eu acho que se deve a duas coisas. Primeiro, pelo Bruno (Nogueira), que criou este espetáculo e que muita gente gosta de ver e rever. O segundo motivo, talvez o principal, teve muito a ver com o impacto do Bicho e dos diretos que ele fez durante o confinamento, que eu acho que criou um laço muito forte com as pessoas e elas queriam muito ir lá agradecer-lhe pessoalmente pela companhia diária que ele garantiu durante tempos tão estranhos. Claro que para uma coisa que corre bem, há sempre uma dúzia de más línguas, que neste caso invadiram as redes com uma data de coisas alarmistas. O que foi um disparate, porque não houve mesmo nenhuma insegurança. O que se esteve ali a fazer foi, em primeiro lugar, uma coisa legal. Depois de tanta gente andar a dizer “Ai coitadinhos dos artistas que não podem trabalhar e fizeram-nos tanta companhia durante o confinamento”, quando, realmente, os artistas podem voltar a trabalhar já ouvimos “Para eles podem tudo”. Não se compreende! O que se esteve ali a fazer foi, de facto, dar um sinal de que as pessoas podiam voltar a trabalhar, não apenas os artistas que estão em cima do palco, mas também muita gente que está nos bastidores. É toda uma economia que está por detrás de um trabalho que é de valor – e de um valor incalculável, como o cultural.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Neste sentido, arriscamo-nos a perguntar à Manuela: de que forma vê o futuro da cultura em Portugal? Quais serão os maiores obstáculos daqui para a frente e que adaptações serão necessárias?

Não sei mesmo. Essa pergunta já fazia sentido e já tinha uma resposta difícil há muitos anos. Nos dias de hoje, é absolutamente importante que as pessoas sejam mais cultas, não tem a ver com serem mais eruditas, mas terem mais contacto com o que se escreve, o que se compõe ou o que se leva a cena, porque a experiência da cultura é algo que nos transporta para outros universos, para outras histórias, realidades, dificuldades e maneiras de ver o mundo. Quanto mais tu tiveres isso, melhor entendes as pessoas à tua volta e mais as respeitas. Ou seja, quanto menos cultura houver, mais as pessoas estarão desarmadas, vulneráveis e serão presas fáceis de coisas difíceis como as que vemos à nossa volta: discursos de violência, falsidade ou lançar o medo dos refugiados, de uma raça diferente ou de uma orientação sexual. A cultura é algo mesmo muito importante. É saúde mental e deveria existir um Sistema Nacional da Cultura como existe para a Saúde, com mais injeção de meios e orçamentos. É terrível ver que continuamos a pedinchar por mais dinheiro para a cultura. É triste, porque é algo que vai gerar muita riqueza, não só económica, mas enquanto povo e comunidade. Isso dá saúde a tudo e traz sucesso a todos. Se calhar, estou a ser demasiado idealista, mas acredito que o futuro da cultura é difícil desde sempre e, agora com estas dificuldades, mais tramado é.

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