Revista Rua

2020-07-25T16:22:32+00:00 Cultura, Em Destaque, Música

Márcia: “Gostava de ser uma espinha dorsal da escrita de canções em língua portuguesa”

"É através da arte que comunicamos entre nós, que comunicamos as nossas emoções. É através da arte que nos curamos!", conta-nos a cantora portuguesa.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira24 Julho, 2020
Márcia: “Gostava de ser uma espinha dorsal da escrita de canções em língua portuguesa”
"É através da arte que comunicamos entre nós, que comunicamos as nossas emoções. É através da arte que nos curamos!", conta-nos a cantora portuguesa.

Num final de tarde quente, sentámo-nos à conversa com Márcia em Vila Nova de Famalicão, horas antes da sua subida ao palco do Devesa Sunset. Com todas as medidas de segurança, conversámos sobre os projetos desenvolvidos durante o isolamento e sobre a necessidade de valorizarmos a nossa cultura. “A música cura-nos! A cultura toda faz-nos sentir vivos!”, diz-nos a cantora portuguesa. Com algumas novidades a caminho, Márcia fala-nos ainda dos seus sonhos: “Gostava de ser uma espinha dorsal da escrita de canções em língua portuguesa”.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Gostávamos de perceber qual é a sensação de voltar aos “palcos verdadeiros” depois de um período de confinamento. Estavas ansiosa? 

É um alívio total! Estava ansiosa por voltar! Eu sei que há coisas mesmo desconfortáveis nesta situação, principalmente o facto de estarmos a usar máscara, de estarmos constantemente a desinfetar-nos… as medidas são desconfortáveis, mas é melhor do que desistir de fazer espetáculos.

Como viveste esta fase de confinamento afastada dos palcos e do aplauso do público?

Consegui manter algum contacto com o público através das redes sociais, mas não tem nada a ver. Quando fazia os lives no Instagram, sentia que era ótimo falar com as pessoas, ter a noção de que as pessoas estavam a ver, mas foi um penso rápido, uma solução rápida que nós criamos para colmatar aquela distância tão grande. Mas nunca foi a solução ideal – e esta também não é a situação ideal. Contudo, esta é a solução mais próxima da solução ideal, porque nós já estamos juntos.

O meu primeiro concerto depois do confinamento foi no Teatro São Luiz e, assim que eu comecei a cantar, foi uma alegria! Porque eu já sentia as pessoas! Só o facto de as pessoas, com máscara, darem-se ao trabalho de ir ver um concerto, de saírem das suas casas, nesta altura, já é um ato de fé e de bravura. Tive pessoas a dizer que choraram. Eu não chorei, mas estava a vibrar! É essa sensação de libertação, de comunhão. Saí do concerto tão feliz, tão viva! É isso que a música nos faz… a música cura-nos! A cultura toda faz-nos sentir vivos! Portanto, eu acho que temos de tomar todas as medidas de segurança, mas não podemos deixar de fazer espetáculos. É importantíssimo voltar a fazer.

“A música cura-nos! A cultura toda faz-nos sentir vivos! Portanto, eu acho que temos de tomar todas as medidas de segurança, mas não podemos deixar de fazer espetáculos. É importantíssimo voltar a fazer”.

Consideras que, depois de tudo isto, as pessoas vão valorizar mais a cultura?

Eu quero ressalvar aqui uma ideia: a cultura não acaba porque a cultura vem de quem cria – e quem cria, acaba sempre por criar. Ou seja, nós, os músicos, podemos sempre fazer música. Mas, numa situação de isolamento, a cultura não passa para o resto da sociedade. Precisamos de toda a entourage de pessoal e meios técnicos que em Portugal demorámos a conquistar, para que a cultura seja apresentada ao vivo – e seja vivida em sociedade. E o que é que a cultura faz a uma sociedade? Dignifica-a! Faz com que a sociedade cresça. Dá oportunidade às pessoas de libertarem as suas emoções. Por isso, acho que o papel do artista é um papel dignificante. Não só dos músicos, mas de todos os artistas. Eu gostava que esse tivesse sido um ponto valorizado pela pandemia porque percebeu-se a falta que fazia a arte, a falta que fazia a música… Porque é através da arte que comunicamos entre nós, que comunicamos as nossas emoções. É através da arte que nos curamos. Nós sentimos emoção em palavras que alguém escreveu numa canção. Aí, sabemos que alguém sentiu o mesmo que nós. Somos ouvintes uns dos outros. E isso promove uma cura que eu acho que é essencial. Se não existir este espaço de comunicação, surgem muitas doenças mentais, como a depressão. O isolamento faz isso! Considero mesmo que o papel comunicativo da arte é muito importante. O contributo da arte é muito mais do que ter, simplesmente, uma pessoa a fazer uns gatafunhos ou a tocar uns acordes. É unir o lado humano das pessoas. Diria que quando, de facto, não há saúde mental, não há necessidade de cultura porque a pessoa anda tipo zombie, a sobreviver só. A partir do momento em que tu vives, a cultura é essencial. A cultura é o teu sinal de vida, é a tua manifestação de vida!

Para muitos artistas, esta foi uma fase de reflexão, de criatividade até. Como foi para ti?

Não posso dizer que sim, nem que não (risos). Não quero dizer que sim porque corro o risco de passar a ideia de que a crise é uma oportunidade – e a crise nunca é uma oportunidade! Um artista quando cria em crise, significa que criará muito melhor se não estiver em crise. Isto foi (e ainda está a ser) um período horroroso da nossa vida coletiva, mas não podemos dizer que daqui advém uma ótima oportunidade para compor ou para criar. Não, de todo. Porquê? Porque aí estás no modo de sobrevivência, como eu mencionava há pouco. Mesmo que estejas seguro, em casa, com os teus filhos (como era o meu caso), numa vida estável, não há nada de positivo em sentirmo-nos ameaçados. Não é um momento furtuito para a criação.

No entanto, tenho de admitir que aproveitei esta fase para mergulhar muito em textos que tinha escrito, coisas que nem tinha percebido nas minhas próprias canções. Escrevi mais sobre isso, até. O início da quarentena coincidiu com um convite que recebi para fazer um livro e, por isso, aproveitei para escrever, escrever, escrever… Penso que me virei para aí porque não conseguia fazer música. Não foi um período muito criativo. Fui buscar alguns textos que tinha e pus-me a escrever mais, a juntar poemas, a ilustrar…

És considerada um dos talentos maiores da composição em língua portuguesa. Para ti, como é ser reconhecida desse jeito? É uma responsabilidade?

(risos) Ai, eu acho um ótimo título! Não vou dizer que não gosto de o ler! (risos) É um título que me deixa super lisonjeada. Sempre senti muita responsabilidade. Eu escrevi milhares e milhares de textos e só pus cá fora aqueles que eu já tinha depurado muito. Eu sempre fui muito exigente com o meu trabalho, por isso, essa responsabilidade sempre a tive. Não é por me dizerem isso que eu sinto mais responsabilidade. Fico só contente e orgulhosa por alguém reconhecer o meu talento! (risos)

Fotografia ©Nuno Sampaio

Podemos falar do teu disco Vai e Vem (editado em 2018)? O que tentaste fazer neste álbum?

É um disco um pouco romântico. Eu acho que é um disco feminino e assertivo. Convém realçar “feminino e assertivo” porque, às vezes, temos a tendência de assumir o feminino como um lado mais fraco. Não é! É o lado forte do feminino que eu trago neste disco. São, sobretudo, canções que falam muito de superação e de resiliência. O amor e o desamor. É um álbum de força, de poder. De força feminina! É um trabalho muito inspirado numa mulher que precisa de refazer a sua vida: houve vezes em que ficou, houve vezes em que foi embora e recomeçou tudo; houve dias em que tudo mudou e ela sabia que seria capaz… É um disco, então, muito feminino e muito forte. 

Nesta fase, para além do livro que mencionaste que estás a preparar, há novidades musicais que já possas revelar?

Eu estou super concentrada em terminar o livro. São poemas que eu sempre quis editar, mais algumas canções e poemas novos. Juntei também textos e crónicas que eu senti necessidade de escrever para explicar poemas ou canções. Encontrei um espaço novo ali, porque dava para me libertar num discurso que eu não estava habituada a fazer. É uma coisa bem íntima, bem aprofundada. Por isso, é um projeto que vai ser bom para aquelas pessoas que querem mesmo conhecer um pouco mais do que está por trás das canções, porque, às vezes, em sessões mais intimistas, as pessoas perguntam-me algumas coisas. Nesse livro vão ter essas respostas. É esse tipo de livro.

Para além disso, a verdade é que quando chegamos à quarentena eu estava a preparar um disco novo, por isso, tenho muitas canções gravadas, ainda em produção. Não sei o que vai acontecer, mas o disco ficou a meio porque peguei no livro. No entanto, eu já lancei, no dia do meu aniversário, a 19 de fevereiro, uma canção que fará parte do disco que estou a preparar. Podem “apanhá-la” no meu Instagram! (risos)

“Eu escrevi milhares e milhares de textos e só pus cá fora aqueles que eu já tinha depurado muito. Eu sempre fui muito exigente com o meu trabalho”

Já tens feito vários duetos ou escrito para vários artistas portugueses. Se pudesses escolher alguns artistas, nacionais ou internacionais, para colaborações, quem escolherias? Que anseios tens?

Têm que ler o meu livro! (risos) Se fosse a sonhar? James Blake. Adorava! Também gostava muito de conhecer o Nick Cave, a Cat Power e a Joni Mitchell.

Aqui, no nosso país, já fiz muitos duetos e adoro a energia que se cria em palco. A última pessoa com quem partilhei um dueto foi o Tiago Bettencourt. Ele é muito divertido! Temos uma boa energia em palco. Adoro também a voz da Sara Tavares (e já tive oportunidade de cantar com ela uma vez) e do Camané, mas também já temos um dueto juntos, que podem ouvir online. Ainda não cantei com o Dino Santiago! (risos) E eu adoro o Dino! Eu gosto de toda a gente, na verdade… Não tenho nada contra ninguém (risos).

 

Fotografia ©Nuno Sampaio

Tens pessoas que te inspirem na música portuguesa?

Admiro imenso o Jorge Palma. Já cantei com ele! Quando Palma canta, eu conheço as músicas todas! Ele, num documentário, disse que a carreira dele foi sempre “passinho a passinho”, ou seja, ele acha que nunca fez um grande sucesso. Mas, se calhar, todas as canções dele foram sucesso! Ele é muito importante na espinha dorsal da música portuguesa. É uma grande referência para mim, como é o Sérgio Godinho, o Zeca Afonso e poucos mais. Se me perguntares o que é que eu gostava de ser no futuro era isso: gostava de ser uma espinha dorsal da escrita de canções em língua portuguesa.

Se repararem, quanto mais velhos ficamos na música, mais facilmente ficamos para trás. Porque há muitas coisas novas, há modas… Vais sendo passado para trás, é perfeitamente normal. Mas, depois, há estes casos especiais – como Jorge Palma, Sérgio Godinho, Ary dos Santos, Zeca Afonso e outras pessoas de quem nós temos a sorte de ser descendentes -, que eu acho que ainda serão mais importantes um dia. Porque essas pessoas mudaram a música em português… e nós precisávamos dessa mudança! Senão andávamos sempre a imitar o que ouvíamos. E o que é que ouvíamos? Música em inglês. Eu, pelo menos, ouvia música em inglês. Ouvia Tracy Chapman como uma maluca! (risos) Foi quando eu aprendi a tocar guitarra. Mas não podemos ser macaquinhos o resto da vida. Temos de ter a nossa identidade! Esta geração da FlorCaveira, como B Fachada ou Samuel Úria, contribuíram muito para essa revolução da música portuguesa – e ainda bem!

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