Revista Rua

2019-10-30T15:53:01+00:00 Cultura, Teatro

Marcos Caruso e Vera Holtz: “No mundo atual, a tolerância é o mais essencial”

Uma conversa íntima e indecente com Vera Holtz e Marcos Caruso, a propósito do amor. Sempre o amor.
Marcos Caruso e Vera Holtz, Intimidade Indecente ©D.R.
Cláudia Paiva Silva14 Outubro, 2019
Marcos Caruso e Vera Holtz: “No mundo atual, a tolerância é o mais essencial”
Uma conversa íntima e indecente com Vera Holtz e Marcos Caruso, a propósito do amor. Sempre o amor.

Após 18 anos da estreia no Brasil e após duas temporadas em Portugal, em 2004 e 2005, Intimidade Indecente, de Leilah Assumpção retorna ao território nacional, numa encenação exclusiva para os espectadores portugueses. Neste regresso, volta também o ator Marcos Caruso acompanhado pela atriz Vera Holtz, que substituiu e assumiu a responsabilidade de interpretar a personagem antes retratada por Irene Ravache.

Coincidindo com a comemoração dos 50 anos de carreira da dramaturga Leilah Assumpção, a produtora Palco 6, responsável pelas peças exibidas no palco do Teatro Tivoli até 3 de novembro, voltou a esta obra da autora brasileira, fazendo o pedido especial e exclusivo ao conhecido ator e também encenador Guilherme Leme Garcia para revisitar o texto, trazendo-o novamente a solo luso. A história, que segundo aos atores provoca as lágrimas ao público mais jovem e os risos aos mais velhos, traz o exemplo de Mariano e Roberta, que se separam aos 50 anos após uma vida em comum. Durante o texto, vemos os seus encontros e desencontros, a sua intimidade sendo dissecada, falando de tudo, e sem nunca cair a cortina, a sua evolução até perto dos 90 anos. A história de amor é a de um casal que simplesmente nunca deixa de acreditar nem desiste um do outro.

Vera Holtz, Guilherme Leme Garcia e Marcos Caruso, na Livraria da Travessa, em Lisboa

“Se você cultiva bons hábitos, você tem bons hábitos. Hoje em dia estamos criando robots, gente insensível…”

A Revista RUA, aproveitando a conversa informal que os atores e o encenador Guilherme Leme Garcia tiveram com o público lisboeta na recém-inaugurada Livraria da Travessa, também “bateu um papo” com o ilustre trio, falando de teatro, cultura, sociedade e redes sociais, e claro, o sentimento universal que une todas as pessoas: o amor, a única coisa pela qual vale a pena viver e que não tem barreiras ou idade. Ao longo da conversa com os presentes, numa “Travessa cheia” que durou mais de duas horas, Marcos Caruso assumiu que teve dúvidas em retornar ao personagem Mariano, após tantos anos de interpretação – e também muitos de afastamento com o texto. Contudo, assumiu que ao pegar novamente na obra compreendeu que a experiência anterior e a passagem do tempo lhe possibilitaram um novo fôlego: “18 anos depois, a encenação é completamente diferente. Tem uma nova roupagem, foi feita outra leitura do texto. Quem se separa aos 50 anos não é igual a quem se separa aos 65 ou aos 70 anos. O tesão muda, o respeito cresce, além de ser um texto intemporal e universal. É uma questão humana, que também vai sendo atualizada pelo próprio público. A peça retoma a indecência de uma intimidade num mundo, atualmente, rápido, de consumo rápido, “tabletizado” [Caruso faz aqui referência ao uso de smartphones, tablets, etc.]. Dentro do contexto, Vera Holtz esclarece e exclama entre aplausos da audiência: “A peça tem vida, eu quero falar de amor, do presencial!”. Explicou também que quando substituiu Irene Ravache na personagem Roberta, a audiência brasileira se ressentiu. “Durante a minha primeira semana, senti que o sucesso da peça poderia sair prejudicado. Depois, logo no fim de semana seguinte, tivemos a opinião de uma das maiores críticas de teatro da rede Globo, uma mulher muito feroz nas suas apreciações, mas que felizmente foi muito positiva. Na altura foi quando senti que não tem problema um ator ficar no lugar de outro ator, mas a personagem nunca foi inteiramente minha – era da Irene e eu estava fazendo como a Irene fazia. Nesta encenação para Portugal, retomamos o texto com muito mais calma, com um ensaio maior e foi criada uma “nova” personagem”, conta-nos.

[A transcrição desta entrevista manteve o Português do Brasil]

Em relação à peça e em relação ao que vocês apresentam, explicando de uma forma tão pura o que ela representa, qual acham que é o segredo para manter a paixão viva ao final de tantos anos, será o sexo mais importante do que o amor até determinada idade, ou será o amor que passa a ser mais importante? Qual acham que é o ponto que faz as pessoas continuarem juntas após tantos anos?

Marcos – A essência é saber ceder. Se você ficar preso ao conceito de que o que você acha que é o mais certo e bom para você e para os dois, em seu nome ou em nome dos dois, então vai dar com “os burros na água”, porque o outro também vai defender o seu ponto de vista. E aí é uma briga que não tem fim.

Guilherme – Aí é tolerância!

Marcos – No mundo atual, a tolerância é o mais essencial para que qualquer relacionamento se dê, seja homem-mulher, homem-homem, mulher-mulher, seja governo-povo, patrão-empregado, se você souber ceder, pedir desculpa, a coisa vai.

Vera – Até o planeta e o homem – e a multiplicidade que temos hoje, não é a dois apenas, é coletiva, é planetária, terráquea – as minhas relações sempre foram mais passageiras, mas a amizade que continuamos a ter, profunda, têm uma chama. É uma questão de admiração e da surpresa constante em relação ao outro, é uma chama que se mantém e é uma coisa importante.

Em relação a relacionamentos numa época de globalização. Estará a continuidade de relações associadas a questões culturais? Numa sociedade fechada, onde um casal já não se ama ou possivelmente tenha respeito sequer, poderá manter-se junto apenas por uma pressão social ou familiar?

Vera – Sim, claro! O modelo inicial do casamento é isso, mas nem um homem ou mulher podem ter nascido para serem casados, esposo ou pai, esposa ou mãe ou terem necessidade de constituírem família. Podem querer ter um papel mais importante na sociedade. Uma relação com filhos é igual. Há tanta gente que se separa cada vez mais velha e algumas pessoas até perguntam “mas eu podia fazer isso?”. E, às vezes, só separam com a morte do parceiro. E ouvimos dizer: que bom estar sozinha/o. Mas foi preciso alguém falecer, desaparecer naturalmente. Cada vez mais há tanta gente que estuda o comportamento humano, jovens que têm uma capacidade tão impressionante para auxiliar nessas questões, que é preciso aprender e a reaprender e pedir ajuda.

Marcos – “Engana-se aquele que pensa que pela felicidade se alcança a liberdade”. Na verdade é a liberdade que traz a felicidade. Eu tenho de ser livre para ser feliz. Quanto mais a sociedade controla, fecha, culpa, mais as pessoas se sentem infelizes. A felicidade está inteiramente ligada à palavra “liberdade”.

Marcos Caruso e Vera Holtz, Intimidade Indecente ©D.R.

““Engana-se aquele que pensa que pela felicidade se alcança a liberdade”. Na verdade é a liberdade que traz a felicidade. Eu tenho de ser livre para ser feliz. Quanto mais a sociedade controla, fecha, culpa, mais as pessoas se sentem infelizes”, afirma Marcos Caruso.

Vocês sentem isso no Brasil?

Marcos – Não é apenas cultural. Nós somos é todos cristãos. Então a culpa vem daí, da religião também. E não é do Brasil de hoje. É o complexo de sempre. O Brasil culpado, colonizado, é um peso. E noutros países também. Por exemplo, a sociedade cultural de Portugal sofreu imenso com a culpa, com o conceito de culpa, pela Inquisição, pela presença da Igreja. Quem se conseguiu libertar – e não de uma forma hipócrita -, é mais feliz. Eu vejo a sociedade norte-americana, por exemplo, que se diz feliz, mas é totalmente hipócrita – podem sentir-se felizes, mas eu acho que não. Estamos em busca da liberdade, galgando degraus múltiplos em busca da felicidade.

Sobre as conversas que geralmente vocês têm com o público no Brasil, após as peças que são realizadas, como é que vocês explicam o facto de haver tanto desrespeito entre as pessoas? Será uma questão cultural também, de educação? Poderá haver algum extremismo em termos de opinião quando as classes podem ser menos letradas, menos tolerantes?

Guilherme – Eu acho que é mesmo uma questão de educação, de boa-educação. Porque a gente conhece muitas pessoas com um nível cultural elevado e que não são educadas, que é intolerante, intransigente.

Marcos – Se você cultiva bons hábitos, você tem bons hábitos. Hoje em dia estamos criando robots, gente insensível, por causa de maus hábitos. Estamos assistindo a uma crise de baixa-estima no Brasil, social e cultural.

Vera – Nós estamos a deslocar as pessoas do seu habitat natural quando há o debate. É uma távola redonda e o princípio da mesa é que não há uma cabeceira, são todos iguais. Há sempre quem lança a provocação, mas há sempre quem não responda, havendo respeito. O teatro é também isso. Por exemplo, na rede social, não há filtro, mas tem de haver limite.

E dentro de um Brasil tão multicultural…

Vera – Tem de haver educação. E deveria haver educação regionalizada no Brasil. Todos deveriam conhecer os costumes e culturas de cada um dos estados e dos estados vizinhos.

Vera, última questão, completamente diferente do que temos estado a falar: a sua página de Instagram, onde menciona que as fotografias servem para reflexão. A Vera quer pôr as pessoas a pensar?

Vera- Exato. Pensem e sintam. O que eu gosto é da dinâmica da resposta. A interação através das palavras, dos comentários de um que chama o outro e esse chama o outro seguinte e a outra. A imagem é imagem – e eu não tenho dinâmica com a palavra, eu sou mais oratória. Mas a intenção é ação-reação, mais nada além disso. Não faço intervenção verbal. Apenas provoco com a imagem, a imagem é limpa e é cirúrgica. E aí as pessoas têm de pensar sobre o que veem.

Intimidade Indecente estará em cena no Teatro Tivoli em Lisboa até ao dia 3 novembro, iniciando depois tournée pelo país, passando por Leiria, Aveiro, Póvoa do Varzim, Porto, Famalicão, Coimbra, Vila Real e Albufeira.

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