Revista Rua

Maria João de Almeida: “Devíamos valorizar mais os nossos vinhos”

Maria João de Almeida é a presidente da nova Associação Portuguesa de Enoturismo (APENO) e fala-nos sobre o estado do setor em Portugal.
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira21 Julho, 2020
Maria João de Almeida: “Devíamos valorizar mais os nossos vinhos”
Maria João de Almeida é a presidente da nova Associação Portuguesa de Enoturismo (APENO) e fala-nos sobre o estado do setor em Portugal.

O percurso de Maria João Almeida há muito que se cruza com o enoturismo. Reconhecida wine writer e consultora de vinhos, Maria João Almeida é a mulher dos mil ofícios e, fazendo-se valer da sua paixão pelos vinhos, fez nascer a primeira associação dedicada exclusivamente ao enoturismo. Numa entrevista sobre os desafios e oportunidades do setor do enoturismo em Portugal, Maria João de Almeida dá-nos a conhecer a APENO – Associação Portuguesa de Enoturismo.

Maria João de Almeida

Em primeiro lugar, gostaríamos de conhecer melhor a Maria João de Almeida. Pode descrever-nos o seu percurso?

Sou jornalista de formação, trabalhei primeiro como freelancer em várias revistas e jornais, depois na TVI, e ainda no jornal Expresso, durante 12 anos. No início deste percurso fiz uma reportagem na escola de hotelaria do Estoril sobre as primeiras formações que estavam a surgir em Portugal na área do vinho para consumidores e foi isso que me despertou para o vinho e o enoturismo. Assim, ao longo dos anos, ao mesmo tempo que fazia artigos generalistas, fui-me especializando aos poucos no mundo do vinho. Fui aprofundando cada vez mais estas matérias e acabei por escrever vários livros, um deles de enoturismo que ganhou o prémio nos Gourmand Awards de Melhor Livro de Enoturismo do Mundo, dei o primeiro curso de pós-graduação de Marketing do Enoturismo na Universidade Lusófona, fiz programas sobre vinho e enoturismo para a TAP, onde também sou consultora dos vinhos a bordo, coordeno viagens premium de enoturismo… Enfim, sou a mulher dos mil ofícios, estou sempre metida em projetos nesta área.

 

Em termos gerais, que análise faz a Maria João do vinho português? Considera que o vinho português merece o bom nome que tem em todo o mundo? Somos, mesmo, sinónimo de qualidade, correto?

Claro que sim, o vinho português é excelente, não fica atrás de nenhum outro no mundo. Tem uma excelente qualidade e a vantagem de ter bom preço. Às vezes barato de mais, na minha opinião, se compararmos com vinhos de outros países nas suas diferentes gamas de preço. Devíamos valorizar mais os nossos vinhos, mas é um caminho que ainda estamos a percorrer…

“Temos já bons exemplos de enoturismos que têm conseguido acompanhar o boom turístico que se verificou nos últimos anos em Portugal, mas ainda há muito trabalho a fazer. Nota-se ainda uma grande necessidade de profissionalização…”

Ao longo dos últimos anos, as atividades de enoturismo têm ganhado força. Temos conseguido acompanhar as exigências turísticas?

Temos já bons exemplos de enoturismos que têm conseguido acompanhar o boom turístico que se verificou nos últimos anos em Portugal, mas ainda há muito trabalho a fazer. Nota-se ainda uma grande necessidade de profissionalização, o enoturismo é um sector que precisa ainda de se organizar. No entanto, apesar das lacunas que existem, há gente a fazer bem. Muito bem. E, tal como acontece com os vinhos, temos enoturismos que não ficam atrás de nenhum outro no mundo.

A Maria João fez nascer a primeira associação dedicada exclusivamente ao enoturismo, a APENO – Associação Portuguesa de Enoturismo. Pode contar-nos quais os motivos que levaram à criação desta associação?

Como me dedico ao mundo do vinho há muito tempo, a ideia de fundar a associação surgiu há alguns anos, mas só começou a tomar forma o ano passado porque se reuniram as condições para avançarmos. Com esta associação queremos organizar e construir um setor, regulamentar a atividade e orientar quem se quer dedicar a esta área, porque, na verdade, o setor não está formalizado, nem em Portugal nem lá fora. Por essa razão encaro este cargo de presidente da APENO com um forte sentido de missão, sinto que podemos fazer um trabalho que inspire outros países a fazer o mesmo.

Equipa da APENO

Considera que há lacunas que importam resolver no setor? Quais?

Há muita coisa a fazer. Por exemplo, a inexistência de uma CAE específica para as empresas do setor ou de um código de IRS, assim como a falta de benefícios fiscais ao investimento no enoturismo ou linhas de apoio diretamente criadas para empresas de enoturismo, entre outros pontos onde ainda se inclui o código laboral.

Que estratégia adotará a APENO para promover o enoturismo como um setor de relevo na economia portuguesa? Que planos já existem?

Para a equipa da APENO, o importante agora é começar já a trabalhar, unir esforços e fazer parcerias nacionais e internacionais, provar a sustentabilidade do enoturismo e a sua importância como fator dinamizador das exportações, entre outras medidas.

 

“Há muita coisa a fazer. Por exemplo, a inexistência de uma CAE específica para as empresas do setor ou de um código de IRS, assim como a falta de benefícios fiscais ao investimento no enoturismo…”

Serão ainda organizadas algumas atividades para os apreciadores de vinho, correto? Considera importante a ligação do produtor ao consumidor, numa dinâmica de partilha de experiências?

Temos já planeadas algumas atividades pensadas para o associado até ao final do ano, como a realização de wine talks, um gabinete de serviços que apoia projetos de enoturismo nas áreas Financeira, Legal, Tecnológica, Marketing e Comunicação, assim como uma bolsa de emprego que apoiará as empresas na área de recursos humanos específicos para esta área. A ligação do produtor ao consumidor é algo que também não descuramos e por isso vai ser criado um clube dedicado ao enoturista que organizará atividades diversas que vão surpreender.

Qual é o principal anseio de futuro para a APENO e, consequentemente, para o enoturismo em Portugal?

Ansiamos tornar o enoturismo português uma marca de referência mundial.

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