Revista Rua

Maria João Luís: “Não nos sentirmos completamente realizados obriga-nos a pensar mais. Instiga-nos!”

Maria João Luís estará com "A Última Refeição" nos próximos dias 9, 10 e 11 de dezembro na Casa das Artes de Famalicão.
Fotografias de divulgação ©Alípio Padilha
Andreia Filipa Ferreira6 Dezembro, 2021
Maria João Luís: “Não nos sentirmos completamente realizados obriga-nos a pensar mais. Instiga-nos!”
Maria João Luís estará com "A Última Refeição" nos próximos dias 9, 10 e 11 de dezembro na Casa das Artes de Famalicão.

Maria João Luís é uma das atrizes mais reconhecidas do mundo do teatro, televisão e cinema em Portugal e, mesmo com uma carreira tão diversa, vive numa procura constante por papéis que a instiguem, por projetos que a motivem, por novas formas de surpreender o público. Numa entrevista focada no seu mais recente trabalho, A Última Refeição de António Cabrita, uma coprodução do Teatro da Terra, Casa das Artes de Famalicão, Teatro Municipal de Bragança e São Luiz Teatro Municipal, a RUA falou com a atriz sobre o presente do mundo das artes em Portugal e sobre os anseios para o ano de 2022.

Fotografias de divulgação ©Alípio Padilha

Em primeiro lugar, gostaríamos de perguntar à Maria João Luís como tem passado este contexto de pandemia. Tem sido difícil para si?

Eu penso que esta pandemia é algo que afeta toda a gente. Acho que ninguém pode dizer que está bem com isto. É evidente que é uma preocupação enorme… sobretudo na nossa área: ver colegas aflitos, sem trabalho, com problemas económicos muito graves. A própria instabilidade que tudo isto nos cria. Portanto, é evidente que não passo muito bem isto, mas há que ter esperança e continuar a trabalhar. Foi o que eu fiz sempre.

A verdade é que este contexto de pandemia colocou em maior evidência as fragilidades da cultura em Portugal. Continuamos sem apoios suficientes e sem dar a devida prioridade às nossas artes. Qual é a sua visão? Considera que Portugal trata bem os seus artistas?

Eu diria que não, porque efetivamente estava toda a gente com esperança de que houvesse um aumento no orçamento, o tal 1% – se bem que eu acho que deveria ser o dinheiro que fosse preciso, fosse 1% ou 1,5%. De uma vez por todas era necessário resolver a situação dos artistas em Portugal e os seus direitos. Sobretudo perceber quais são os seus direitos e que isso ficasse definido na lei de uma forma clara. Infelizmente, isso não acontece e tem provocado um descalabro na vida das pessoas.

Para além dos projetos em televisão e em cinema, a Maria João é também uma alma do teatro. Correto? Sente-se bem em palco?

(risos) É muito engraçado esse termo: alma do teatro! Sim, eu sou uma alma do mundo, em primeiro lugar, e depois, com a minha profissão, procuro fazer mais do que só interpretar os papéis. Procuro um teatro que chegue às pessoas e que as faça pensar a vida. Talvez eu seja uma alma do teatro, sim. Sou, com certeza!

Fotografias de divulgação ©Alípio Padilha

A Última Refeição de António Cabrita é a peça que Maria João está a levar a cena. Pode explicar-nos que trabalho é este?

É um espetáculo que fala sobre a vida de um casal muito conhecido: Bertolt Brecht e Helene Weigel. A Helene era quem fazia toda a produção do Berliner. Era uma mulher incrível de força e, de alguma forma, fica num segundo plano relativamente ao Brecht. E, como eu acho que temos que defender as mulheres, decidi fazer a história da Helene Weigel. No fundo, trata-se de uma espécie de ajuste de contas entre a Weigel e o Brecht, embora ele esteja incapaz de responder porque está morto. Ela vai contando peripécias da vida deles e, ao mesmo tempo, vamos contando ao público o que era aquela relação, o que era aquela gente, naquele tempo. As suas lutas políticas, as suas vontades, os seus princípios (que não os largaram nunca). Portanto, eram pessoas de uma força inigualável. Hoje precisamos de falar dessa gente, até para criarmos aqui alguma provocação, no sentido de fazer com que o público conheça a história destas pessoas para lá daquilo que era a obra delas. Para isso, falei com o António Cabrita, que é um grande entendido e estudioso de Brecht, assim como de outras matérias e outros autores. Ele próprio é um autor que eu admiro muito. O António fez um texto absolutamente espantoso! Estou muito feliz com o resultado do espetáculo, estou convencida que vai ser um espetáculo que vai agradar ao público.

“Eu penso que a realização ou a sensação da realização pode ser redutora. Quando nós nos sentimos completamente realizados, pode não ser tão produtivo. Às vezes, não nos sentirmos completamente realizados obriga-nos a pensar mais, a procurar mais. Instiga-nos!”

É uma encenação de António Pires. Quais os principais desafios de interpretação para a Maria João?

Foi extremamente desafiante para mim. Eu entreguei-me completamente nas mãos do António. Eu sou uma atriz que gosta de se entregar aos encenadores quando está a trabalhar. Gosto muito de perseguir a ideia do encenador e de procurar colocar em cena aquilo que ele me pede. O António Pires é, talvez, das pessoas com quem melhor eu me entendo em termos de relação pessoal e profissional. Entendo-me extremamente bem com ele e percebo bastante bem aquilo que ele pede. Foi um trabalho de uma enorme paz, de uma enorme felicidade. Foi uma simbiose interessante entre todos os criativos. Estamos todos muito contentes com o resultado. Para mim, um dos maiores desafios era decorar este texto todo, porque é um texto intrincado, complexo. Mas, para além de o decorar, fazer com que ele chegasse às pessoas de uma forma simples, para que seja de um entendimento transversal, que não seja preciso conhecer a história do Brecht para perceber todo o texto. Esse foi realmente um dos maiores desafios.

Há pouco falou-nos de uma “provocação”. Se lhe pedirmos que lance o convite aos nossos leitores para assistirem a esta peça, considera que usar a expressão “vão sentir-se provocados” é correto?

Eu penso que sim! Pelo menos é essa a minha esperança.

Fotografias de divulgação ©Alípio Padilha

A Maria João Luís tem uma carreira imensa e é um dos rostos mais conhecidos do nosso teatro e televisão. Olhando para este percurso, a Maria João sente-se realizada?

Eu penso que a realização ou a sensação da realização pode ser redutora. Quando nós nos sentimos completamente realizados, pode não ser tão produtivo. Às vezes, não nos sentirmos completamente realizados obriga-nos a pensar mais, a procurar mais. Instiga-nos! Portanto, não posso dizer que me sinta realizada. Estou à procura. É uma procura constante!

Existem já planos para o próximo ano? Onde vamos ver a Maria João Luís?

Eu tenho planos sobretudo no teatro. O Teatro da Terra é aquilo que me ocupa de momento. A nível de televisão, resolvi fazer uma pausa de, pelo menos, mais um ano. Por isso, terei muito teatro para o ano. Já nem poderia aceitar qualquer outro trabalho em televisão porque já tenho outros projetos. Por exemplo, com o fadista Hélder Moutinho. Tenho ainda duas encenações para fazer… Bem, tenho muita coisa para fazer! (risos) É uma agenda já muito preenchida para 2022!

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