Revista Rua

2019-07-26T15:07:36+01:00 Opinião

.Matilde, a bailarina.

A Civilização do Espectáculo
Cátia Faísco
26 Julho, 2019
.Matilde, a bailarina.

Matilde. Matilde. Matilde. Matilde. Matilde.
Matilde. Matilde. Matilde. Matilde. Matilde.

Repito o nome uma e outra vez, como se o som me fizesse regressar a ela. Mas, na verdade, a repetição é apenas uma sombra da memória que ficou gravada na pele junto às minhas tatuagens.

Conheci-a num sábado por volta da hora do almoço, em Lisboa, enquanto caminhava pela zona de Saldanha. Ia a ouvir música, como faço tantas vezes, completamente distraída, e não a ouvi imediatamente. Apercebi-me de alguém a gesticular, quase a atravessar-se no meu caminho e tirei os auscultadores. Era a Matilde. Não demorou mais de um segundo a abordar-me e a explicar tudo como se estivesse habituada a resumos ultra rápidos. Disse-me que eu era a primeira pessoa que finalmente parava numa manhã que tinha começado às 9h.  Queria pedir-me uma moeda ou duas para sopa e pão. Nada mais do que isso. Só sopa e pão. Pão às fatias para racionar, e sopa para dividir entre o jantar e o pequeno-almoço. E porque é que falo disto numa crónica dedicada ao mundo das artes? Bem, lá chegaremos.

Dir-me-ão que há muitas histórias como a da Matilde, principalmente numa cidade como Lisboa que acentua essas clivagens. Mas em vez de lhe dar o dinheiro e de seguir caminho, como, confesso, já o fiz outras vezes, tirei os auscultadores e fiquei a falar com ela. Matilde, a bailarina, ofereceu-me o braço para juntas atravessarmos a passadeira e contou-me a história dela.

Durante mais de 35 anos, Matilde foi bailarina clássica e, nas suas palavras, correu quase o mundo todo a dançar. Aprendeu línguas diferentes da sua. Conheceu países diferentes do seu. E durante mais de 35 anos foi muito feliz. Reforça-o com um ‘mesmo muito feliz’ para que essa emoção chegue até mim. Agora, com 82 anos, já não se sente assim tão feliz. Quase que se arriscaria a tirar inclusive o ‘tão’. Não tem família, não teve filhos e, com um sorriso malandro, diz-me que, embora tenha amado, nunca se casou. Fala do passado com uma força que perde logo a seguir quando regressa ao presente.  Acha que caminho demasiado rápido e eu abrando o ritmo. Por ela e por mim. Para a ouvir.

“As fotografias da Matilde e dos espectáculos em que participou perderam-se nas mudanças de casas, ou melhor, de quartos. Porque casa, em Lisboa, é impossível. Diz que se lembra de todas, que estão todas na cabeça dela.”

Faço as perguntas habituais de quem quer alcançar o outro. Pergunto-me como terá chegado a este ponto e depois, sem precisar de elaborar muito, penso na quantidade de testemunhos que surgem frequentemente na imprensa acerca de artistas que vivem na miséria. Que em tempos idos eram grandes estrelas e quando passou o momento de glória foram absolutamente esquecidos. Que retrato é este de um país que ignora tantas vezes a memória, que consegue apagar a felicidade do rosto de quem já trabalhou tanto, que faz dos últimos anos de vida um autêntico suplício? E não estou a apontar o dedo a X ou Y, mas a todos nós. Porque é que reciclamos com tanta facilidade a noção de quem merece trabalho ou a nossa atenção?

Falam muitas vezes no amor à arte, mas se o amor à arte for o meio de sustento, também deve poder gerar dinheiro. Temporário, instável, guardar de uns meses para dar para os outros (…), são tudo palavras ou expressões que já ouvi de amigos próximos que trabalham nesta área. E depois quem não está na área diz coisas tão intrigantes quanto: “ah, mas é tão fixe trabalhar assim no teatro, na música, não é?”. Sim, é, principalmente se não tiveres de fazer contas ao final do mês. No rosto da Matilde vi o medo de uma geração inteira, de envelhecer assim, de terminar uma carreira assim e de tudo o que acontece no entretanto.

As fotografias da Matilde e dos espectáculos em que participou perderam-se nas mudanças de casas, ou melhor, de quartos. Porque casa, em Lisboa, é impossível. Diz que se lembra de todas, que estão todas na cabeça dela. Digo-lhe que quero ser a memória dela e ela ri-se como se eu estivesse a meter-me com ela. Mas, não estou. Quero mesmo. Visito-a quando posso. E o nome dela já faz parte das páginas da minha próxima peça.

Não conto tudo isto para fazer de mim a salvadora da pátria. Mas, de repente, ouvir uma mulher com 82 anos a dizer-me que bebe água para encher o estômago e que se vai deitar mais cedo para não pensar na fome, corta o coração de todas as maneiras possíveis.

Matilde. Matilde. Matilde. Matilde. Matilde.
Matilde. Matilde. Matilde. Matilde. Matilde.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Dramaturga, professora, investigadora, yogui.

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