
Melhor não contar é o novo livro de Tatiana Salem Levy
Introspetivo e revelador, “Melhor não contar” é a escolha de Tatiana Salem Levy perante a revelação da verdade.
Numa tarde de verão, Tatiana sentiu a sua privacidade e intimidade invadidas. Um primeiro alerta. Anos mais tarde, um ataque, enquanto estudava em casa. A origem era a mesma, a figura do padrasto, companheiro da mãe, também ele um ser tóxico.
A dúvida instala-se: será ela uma jovem precoce, que procura relações e relacionamentos com homens mais velhos, ou será mais madura do que esses homens? Será que houve algo que tivesse estimulado a má interpretação do outro lado? Seja como for, será que deve contar à mãe o que aconteceu? Nunca o fez. A progenitora acabaria por falecer sem conhecer estes episódios.
Anos-luz mais tarde, em Lisboa. Tatiana descobre-se grávida. E, ao contrário do que acontece no Brasil, aqui, consegue realizar uma IVG – interrupção voluntária de gravidez. Sem questões além das tecnicamente necessárias, sem moralismos, ou devassa da vida privada. E ao mesmo tempo que vai escrevendo sobre os abusos sofridos, discorre também sobre a gravidez, o aborto, o relacionamento que tem. Ao que lhe é várias vezes questionado: para que escreves isso? Para quê contar?
Muitas vezes o papel da Mulher é este. O da sombra, ou do silêncio. O recato da invisibilidade, sem opinião, ou, como é mencionado várias vezes ao longo do texto, se escrito, guardado em chave, na forma de um diário que, certamente alguém, um dia, talvez possa ler. Ou não. Mas é preciso ter-se voz, ser-se exemplo, fazer-se o alerta.
Tatiana decidiu não contar à mãe a situação pela qual passou, como uma forma de não a magoar. Mas outras pessoas souberam. E todas lhe opinaram o mesmo: não fales, não reveles, não contes.
É uma história em contínuo, redigida em várias camadas, com uma beleza nas palavras que não as torna cruas, mas sim, as transforma em experiências verdadeiras.
