Revista Rua

2019-02-04T14:28:24+00:00 Opinião

Memórias do calor soviético

Humor
João Lobo Monteiro
João Lobo Monteiro
4 Fevereiro, 2019
Memórias do calor soviético

Estamos em fevereiro, mas ainda não nos tínhamos visto, portanto desejo-vos um bom ano. Já é um bocado tarde, não é? É a ver se aprendem. Temos de ter critérios acerca de até quando devemos desejar bom ano às pessoas.

Falando em critérios: à hora em que escrevo este texto, ainda não choveu em 2019, pelo menos na minha zona. Só que, como sabe quem teve Geografia no 10.º ano, quando está sol no inverno, o tempo fica mais frio, porque há cenas que sobem e não sei quê, já não me lembro. A meteorologia também precisava de ter umas aulas de noção, mas acho que agora já não vamos lá, temos de aguentar.

Concentremo-nos, então, em transmitir noção a quem ainda podemos salvar – a humanidade portuguesa em geral (embora seja bastante complicado, nalguns casos, como vamos ver).

Primeiro, há gente que não tem termóstato próprio, então vai na onda do que vê quando olha para o céu. Se chove durante vários dias, mas depois vem sol, a pessoa coloca logo menos uma peça de roupa, não querendo saber da sensação térmica. Está sol, é o que interessa. Isto acontece em várias estações, não só no inverno – até é mais no outono e na primavera -, mas como não vou estar a escrever um texto para cada estação, fica já feita a reflexão. Eu tenho de partilhar estas coisas convosco, senão rebento. Desculpem.

Bom, mas estava eu a dizer que há pessoal que prefere o estilo à saúde. Pode estar frio, mas se está sol, cai bem um calção e uma t-shirt com decote em V, ou um vestido com uns botins.

Dentro desta categoria das pessoas sem termóstato, encontramos os jovens e as jovens (assim não discrimino ninguém) que preferem o estilo à saúde. Voltando ao que eu disse no início, quem come passas e pede desejos na passagem de ano, penso eu, não pede estilo para si e para os seus, mas em muitos casos pede saúde. A não ser que se trate da Pepa Xavier, que desejou uma mala Channel preta para 2013. Pesquisem no YouTube esse clássico das polémicas nas redes sociais. Voltando ao que dizia, em algumas situações, dependendo da idade, até se pede “saudinha da boa”, que não é uma espécie de saúde qualquer e é muito sobrevalorizada em relação à “saudinha da má”.

Bom, mas estava eu a dizer que há pessoal que prefere o estilo à saúde. Pode estar frio, mas se está sol, cai bem um calção e uma t-shirt com decote em V, ou um vestido com uns botins. Sempre sonhei escrever botins, já está. A pessoa bate o dente e treme muito? Sim, mas exercita a musculatura, como fazem aquelas máquinas dos tremeliques das televendas. A pessoa fica com gripe? Sim, mas assim também emagrece. Mas a pessoa também tem estilo, ou pensa que tem, que é o essencial.

No outro extremo, temos os idosos. Os idosos têm de se proteger mais do frio, é certo. Mas também se têm de proteger do calor, pelos vistos, porque andam sempre todos agasalhados, seja inverno ou verão. A temperatura já dá calor, mas olhar para um senhor com camisola de lã, camisa e calças de bombazine, em agosto, faz-me transpirar bastante. Mas verdade seja dita: durante todo o ano, eles têm expetoração para deitar cá para fora, num lenço de pano, e fazem questão que toda a gente saiba e ouça isso a acontecer.

Portanto, para 2019 e para todos os anos que hão de vir, desejo que haja regras sobre como lidar com as temperaturas e as suas idiossincrasias, para não vermos tanta discrepância nas ruas. E que me deixem apertar o kispo até acima. Obrigado, Polícia da Moda!

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