Revista Rua

2018-12-17T14:56:37+00:00 Opinião, Património

Memórias perecíveis: a Arte Rupestre também é património (parte I)

Património
Hugo Aluai Sampaio
Hugo Aluai Sampaio
17 Dezembro, 2018
Memórias perecíveis: a Arte Rupestre também é património (parte I)
Fotografia com luz rasante de pormenor do penedo gravado de Breia 5 (Cardielos, Viana do Castelo) com representação de eventual ídolo.

Já aqui assumi a minha paixão pelo património. Estreito um pouco mais esse amor para algo que é (quase) do desconhecimento comum, a Arte Rupestre. Ainda que em Portugal estejam registados diferentes “estilos”, concentro a atenção no Noroeste português falando de uma expressão designada no meio académico como Arte Atlântica. Enquanto manifestação “artística” que remontará ao IV milénio a.C., a sua designação prova, claramente, os contactos suprarregionais do Noroeste da Ibéria com as ilhas britânicas e a Bretanha. Além de se mostrar, igualmente, como a materialização simbólica e cognitiva resultante da ocupação do espaço – e de uma mesma percepção de, e interação com, esse espaço – pelo homem do passado, desmistificando o erróneo pré-conceito modernista da monotonia intelectual das comunidades pretéritas.

O caso nacional mais badalado, quiçá recordado por alguns, ocorreu em 1994. Por altura da construção da barragem da EDP no Côa, peritos, aficionados e moradores uniram-se e conseguiram, durante o governo de António Guterres, em outubro de 1995, a suspensão da obra. Circunscritos os quase 17 km do Parque Arqueológico do Vale do Côa, classificados como Monumento Nacional, o seu mais alto reconhecimento pela UNESCO aloca-o, em 1998, à elite do Património Mundial. Era, nada mais, nada menos, do que o maior museu a céu aberto datado do Paleolítico.

A maioria do cidadão comum não sabe o que tem porque falta todo esse trabalho de esclarecimento junto das populações.

O que trago aqui, porém, é algo com menos visibilidade. Falta de visibilidade é, na realidade, o que mais assola esta manifestação do passado, a par desse nefasto fenómeno que é, anualmente, a cada vez maior temporada dos incêndios florestais. Se muitos destes lugares gravados são imperceptíveis aos investigadores mais experientes, quanto mais ao cidadão comum. Aliada a esta invisibilidade, a sua difícil interpretação leva a que este recurso patrimonial seja (bastante) menosprezado. Munícipes e fregueses desconhecem o que têm. Mais uma vez, e enquanto profissional da área do património, tenho (também) que me penitenciar por esta lacuna. O elitismo exacerbado de especialistas alimenta o ego com discursos científicos proferidos em congressos para uma casta de escolhidos, desembocando em narrativas complexas intangíveis ao comum mortal. Se é certo que a investigação e o conhecimento científico são engrenagens essenciais ao desenvolvimento, não é menos certo que preservar as nossas memórias, raízes e passado é, igualmente, um sinal claro de “progresso”.

A maioria do cidadão comum não sabe o que tem porque falta todo esse trabalho de esclarecimento junto das populações. Estes lugares caiem no esquecimento, quais memórias pétreas perdidas no tempo, ditados ao abandono em meios ruralizados longe do comodismo citadino. E, numa altura em que se fala tanto, no âmbito da Geografia do Turismo, em questões de fundo da gestão sustentável de recursos e visitantes, canalizar turistas para fora dos grandes centros urbanos será uma – entre muitas outras – das potenciais valências da Arte Rupestre.

Sobre o autor
Arqueólogo, professor universitário, investigador integrado do Lab2PT e colaborador do CiTUR.

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