Revista Rua

2019-02-22T00:03:44+00:00 Opinião, Património

Memórias perecíveis: a Arte Rupestre também é património (parte II)

Património
Fotografia noturna a pormenor de motivo (idoliforme?) da Breia 1, Cardielos, Viana do Castelo
Hugo Aluai Sampaio
Hugo Aluai Sampaio18 Janeiro, 2019
Memórias perecíveis: a Arte Rupestre também é património (parte II)
Património

Falava eu de arte rupestre, na parte I, até ir de encontro ao que realmente interessa. Esta manifestação do passado não é menos importante que outras evidências da agência humana pretérita. É, antes sim, algo incompreendido e desvalorizado aos olhos mal informados da generalidade dos stakeholders.

Da finalização do projeto ENARDAS (Espaços naturais, arquitecturas, arte rupestre e deposições da pré-história recente da fachada ocidental do centro-norte português: das ações aos significados) resultou o Corpus Virtual de Arte Rupestre (CVARN), no qual orgulhosamente participei. Orgulhosamente não por projeção própria, mas por ter o privilégio de ter contribuído (qual gota no oceano!) para a inventariação e valorização patrimonial. Trata-se de uma base de dados que regista um conjunto já deveras significativo de lugares gravados que se situam na fachada Atlântica do Centro e Norte de Portugal. Mais do que uma ferramenta social e académica, é um mecanismo de registo: registo de um passado que se perde à luz da construção; registo de um passado que se perde à luz do primado do eucalipto; registo de um passado que se perde à luz da predação das pedreiras e dos menos informados, dos interesses pessoais, dos incêndios florestais, do desprezo… tantas vezes, da ignorância propositada.

Salve-se, para a posteridade – pelo menos – o registo deste passado! Vulgares, irresponsáveis e mesquinhos atentados ao património que sobrepõem lobbies e interesses económicos a preocupações éticas e morais inatas à correta e verdadeira política de proteção e salvaguarda do passado.

A arte rupestre é parte integrante da nossa memória. E, até porque a memória tem a capacidade de perpetuar o passado no tempo e no espaço, sob a forma imaterial ou material, torna-se agente de identidade, de diferença, de singularidade. Proteger a memória é proteger o passado. Atentar contra a memória é atentar contra esse passado, é tentar negá-lo, é tentar apagá-lo.

Qual slogan ativista, o “CVARN continua na luta”. Mais do que permitir o acesso à localização e à descrição destes lugares gravados, esta base de dados – atualmente em processo de adição dos levantamentos digitais (através de fotogrametria) das rochas inventariadas – visa, precisamente, fazer prevalecer a memória sob a forma tridimensional e digital, tirando partido das Novas Tecnologias de Informação. Com isto não quero dizer que a questão da destruição daquele património gravado está resolvida. Longe disso. A questão está mais na capacidade de sermos pró-ativos, tentando estar uns passos à frente da inequívoca e, por vezes, concertada destruição perpetrada contra estas evidências, na ânsia de minimizar os seus impactos negativos. Salve-se, para a posteridade – pelo menos – o registo deste passado! Vulgares, irresponsáveis e mesquinhos atentados ao património que sobrepõem lobbies e interesses económicos a preocupações éticas e morais inatas à correta e verdadeira política de proteção e salvaguarda do passado. E porque tal postura (de proteção e salvaguarda) não combina com todos, é preciso preservar a singularidade; é preciso valorizar o passado; é preciso perceber a sua importância e mostrar inteligência. Creio ser preferível a ignorância por desconhecimento que o ruído encapotado do assobio para o ar com conhecimento de causa. A ignorância pode ser combatida; a falta de integridade não.

Sobre o autor
Arqueólogo, professor universitário, investigador integrado do Lab2PT e colaborador do CiTUR.

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