Revista Rua

2020-09-01T14:06:16+00:00 Opinião

Mente sã em corpo sono

Humor
João Lobo Monteiro
João Lobo Monteiro
1 Setembro, 2020
Mente sã em corpo sono

Já devem ter reparado que sou uma pessoa com muitas implicâncias. Quando não tenho implicância com alguma coisa, arranjo maneira de implicar na mesma. Mas é mais para efeitos de (tentativa de) humor, eu até sou boa pessoa. Só que, para arranjar tema para estas crónicas, às vezes tenho de ver o ‘lado lunar’ – música de Rui Veloso em que aprendi a palavra “eufemismo”.

Falando em música, uma coisa muito irritante é que eu ouço as músicas e não sei quem são os artistas, porque a música é praticamente toda igual e os nomes dos artistas são passwords de internet. E há sempre uma password de internet “featuring” outra password de internet, o que duplica o problema. O único que se safa é o Jason DeRulo, que já leva a vantagem de ter aquela música do Tiktok, mas também tem a gentileza de se introduzir no início das canções todas, seguindo a tradição do Pitbull, mas sem o “ya, tu sabé”. Ainda bem.

Fazendo uma cronologia das implicâncias, outra coisa que tenho para vos contar é que o meu pediatra dizia que eu era um menino tranquilo por fora, mas um vulcão por dentro. Calma! É com todo o respeito. Não é no sentido “uma lady na mesa, uma louca na cama”, da música do Marco Paulo; é no sentido de parecer calmo, mas ter muita ‘nervosidade’ dentro de mim. ‘Nervosidade’ é nervosismo com ansiedade. Ainda não tenho a patente do conceito, mas tentarei, por todo um povo que sofre disso.

Ora, chegado aos 29 anos, o que é que me aconselharam fazer para levar melhor a minha vida? Não foi meter-me nas drogas, até porque já sou suficientemente viciado em futebol, já chega; também não foi meter-me no álcool, que eu não aguento mais que um Pisang Ambon. E deu jeito eu falar em Pisang Ambon, para todos descobrirmos como se escreve, porque a gente diz “pisangambon”, tudo seguido, e nem reflete sobre como é que se escreve. Mas a grafia é importante na vida, assim como a pontuação. Pensem sempre nisso.

Tudo isto para dizer que, sim, meti-me na meditação. Pior: meti-me no mindfulness. Eu, que não gosto de estrangeirismos, meti-me numa coisa que, pelos vistos, não tem tradução literal e exata do conceito em português.

Explicando um pouco o que tem sido a minha vida nas últimas semanas: durante 10/15 minutos (dois lusco-fuscos, portanto), é respirar, enquanto uma voz, de uma app, fala comigo, a dizer para eu respirar. É muito isto, é respirar. Não sei que vos diga, é respirar. É encher a barriga até me sentir muito gordo e, depois, expirar até ficar anorético. É respirar e concentrar-me nisso.

Na primeira vez em que me pus a meditar, sentei-me como devia ser: no chão, em cima de um tapete, com perninhas à chinês. Salvo seja, que isto agora das perninhas à chinês deve vir com bicho. A primeira coisa que a voz me diz é para eu me sentar ou deitar numa posição confortável. Claramente, aquela não era uma posição confortável, mas, caramba, é assim que fazem nos filmes, eu pensava que tinha de ser sempre assim. No dia seguinte, comecei deitado e a voz disse que era melhor eu sentar-me. Pá, decidam-se! É para eu me acalmar e estão sempre a contrariar o que eu faço? Não dá. Mas o pior de tudo foi eu passar dias com dores no ouvido e a voz me ter dito, num desses dias, para eu me concentrar nos ouvidos – nos sons, mas eu só pensava nas dores. Menina, tudo o que eu não queria era concentrar-me nos ouvidos, por que é que és assim comigo?

Depois desse módulo inicial, com a voz portuguesa, passei para um conjunto de sessões com um sueco a falar em inglês. Passei a ter de respirar em inglês, é outro nível. Não, é igual. Só aprendi que “narinas” se diz “nostrils”. “Nostrils”, que parece o nome de um comprimido, que me poderia acalmar mais do que estar a respirar em inglês.

A verdade, sem brincadeiras, é que realmente ando mais tranquilo, é um processo que me tem ajudado e que 8/10, recomendo. Ainda pode ser que chegue a 10/10. Consigo deixar ir as expectativas, deixar ir o que não é importante ou o que não controlo, e focar-me no momento presente. Mas também é verdade que o futebol ainda não começou, preciso de testar se isso de ‘deixar andar’ vai funcionar nos momentos de maior tensão: quando a defesa do Braga cometer erros infantis.

Sobre o autor:
Tenho dois apelidos como os pivôs de telejornal, mas sou o comunicador menos comunicativo que há. Bom moço, sobretudo.

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