Revista Rua

2021-05-17T09:47:31+01:00 Opinião

Microclima pandémico

Humor
João Lobo Monteiro
17 Maio, 2021
Microclima pandémico

Passei quase dois meses sem aparecer aqui, porque passou-se isto assim e assim, de maneiras que. E digo mais: é a minha despedida da Rua (ou é um “até já”, vamos colocar assim), portanto aproveitem bem esta viagem final.

Queria trazer-vos um tema recente, que é a pandemia geográfica desportiva. Poderia também falar sobre a pandemia geográfica migrante, que apanhou de surpresa cerca de zero pessoas. Não Odemira que Almograve tenha acontecido com a comunidade nepalesa. Tinha de ser dito. Abraço, Eduardo Cabrita!

Então, a pandemia desportiva já existe desde março de 2020, teve a interrupção de apenas duas semanas, em outubro último. Sou dos que não se podem queixar tanto, porque pude aproveitar essa brecha europeia e fui ao estádio ver o meu clube. O que é certo é que o desporto, em particular o futebol, parece um bicho de sete cabeças, dentro do próprio bicho, no que toca a desconfinamentos. Restaurantes, teatros, cinemas, alguns concertos, tudo já desconfinou, mas o desporto ainda não. E como é que vai desconfinar? Aos encontrões e só para alguns. Eu amo Portugal, a sério que amo!

Ora, durante semanas, a polícia teve de controlar (muitas vezes, só com os olhos) os adeptos do Sporting, que recebiam a equipa nos vários estádios onde ia jogar. Tudo normal, eu entendo, as emoções à flor da pele, mesmo com a inconsciência que é fazer essas coisas durante uma pandemia. Mesmo com este histórico de semanas, foi com grande surpresa que as autoridades políticas – e mesmo as policiais, apesar de estas até terem alertado as primeiras – receberam o que se passou no potencial e concretizado jogo do título. Houve ecrãs gigantes fora do estádio, houve autocarro a percorrer a cidade até às 4h da manhã, houve ajuntamentos indevidos, desmascarados e travestidos de direito à manifestação e houve, naturalmente, porrada em gente mais ou menos alterada. Não era bem mais seguro ter organizado as coisas e as pessoas dentro do estádio, sentadinhas, com espaços entre elas? Era. Mas ‘tá quieto.

Outro microclima pandémico desportivo bastante interessante é o do próximo dia 29, no Porto. Acontece o seguinte, para quem não está por dentro do assunto: há duas equipas inglesas que vão jogar a final da Liga dos Campeões. A final da Liga dos Campeões ia acontecer em Istambul, mas a Turquia está na lista vermelha do Reino Unido, o que ia obrigar a uma quarentena, no regresso, para adeptos, jogadores, jornalistas e todos os que lá fossem. Pelos vistos, também não se podia fazer a final inglesa na própria Inglaterra (que já permite adeptos nos estádios), porque há jornalistas de outros países que também teriam de fazer quarentena. Então, o que é que a UEFA e o sempre prestável Governo português decidem, pelo segundo ano seguido? Acolher a final em Portugal. Sem prémio para os profissionais de saúde, desta vez, mas com 12 mil adeptos ingleses. Num país que, já devem ter lido lá em cima, mas eu volto a dizer-vos, não permite adeptos nos estádios desde março de 2020, porque é perigoso, com as emoções e tal.

É importante referir que os adeptos ingleses vão estar, supostamente, numa “bolha sanitária”, mas a gente sabe como uma bolha se rebenta rapidamente com pessoas bêbedas. Muito bom para a economia, muito bom para a saúde.

Tudo isto para chegar ao fim (ainda mais) sem sentido disto tudo: a última jornada da Liga já vai ter alguns adeptos nos estádios, mas só oito equipas é que vão beneficiar disso. Uma decisão tremendamente espontânea, que surgiu depois das duas situações que relatei acima. Agora, o que é que não pode? Final da Taça de Portugal com público. É por lá estar o Braga que eu fico tão indignado com isto tudo? É um bocado. Mas eu até nem iria ao estádio, provavelmente. Só queria um critério uniforme, regado com uma pitada de noção. E que me deixem voltar a casa, que eu estou a ressacar muito!

Sobre o autor:
Tenho dois apelidos como os pivôs de telejornal, mas sou o comunicador menos comunicativo que há. Bom moço, sobretudo.

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