Revista Rua

2019-01-28T11:06:53+00:00 Opinião

Minimalism: A Documentary About The Important Things (2015)

Cinema
Carolina Nelas
Carolina Nelas
28 Janeiro, 2019
Minimalism: A Documentary About The Important Things (2015)

Minimalism: A Documentary About The Important Things apresenta-nos um conceito muito especial – mais do que uma questão de estética, apresenta-nos o minimalismo enquanto estilo de vida que se aplica a todas as vertentes da nossa rotina e não só à forma como decoramos a nossa casa ou como nos vestimos em tons neutros. Porém, a questão que eu coloco é se este será um estilo de vida realista para as massas.

Ao longo do documentário, Joshua Fields Millburn e Ryan Nicodemus (que começaram a aderir ao movimento minimalista em 2010), mostram-nos como abraçaram esta forma de viver com cada vez menos bens. Joshua Fields e Ryan têm um site, autodenominam-se de The Minimalists, dão conferências, partilham as vantagens daquilo que defendem e oferecem dicas válidas a quem pretende mudar os seus hábitos de consumo e postura diante do seu próprio quotidiano. O objetivo? Ser mais sustentável e valorizar aquilo que é realmente importante, recorrendo a cada vez menos recursos.

Em Minimalism: A Documentary About The Important Things, Joshua e Ryan viajam durante seis meses e levam apenas uma pequena mala cada um com meia dúzia de peças de roupa. Em simultâneo, outros minimalistas explicam a razão para terem decidido reduzir ao máximo o espaço que ocupam e terem mudado por completo a sua vida a nível pessoal, social e profissional. Estará tudo isto relacionado?

Minimalism cativou-me por ser de 2015 (quando este tema era ainda muito pouco falado) e vi-o com um objetivo claro: perceber como poderia modificar as minhas rotinas de forma a viver um dia a dia mais tranquilo, menos ansioso, mais consciente, mais sustentável. A surpresa? Minimalism apenas nos mostra o lado mais radical do movimento e não nos dá dicas práticas para atingir esse patamar.

Há já vários anos que evito os sacos de plástico no supermercado, que privilegio qualidade em detrimento de quantidade, que tento reduzir a minha pegada ecológica através das minhas rotinas, que sou mais consciente nas minhas compras e ações. Ainda tenho um longo caminho a percorrer, é certo, mas também não me imagino a viver apenas com meia dúzia de cuecas e soutiens, calças de ganga e camisolas básicas. Vivo num T1 (na nossa pequena caixinha de fósforos, como carinhosamente lhe chamo) e não tenho grande espaço para tralhas que não me tragam memórias felizes ou que não sejam realmente úteis. Concordo com a ideia de que mais espaço e mais bens materiais serão, inevitavelmente, sinónimo de mais chatices e ansiedade, mas não posso concordar com a ideia de que só serei boa pessoa e boa cidadã se viver numa casa onde apenas a funcionalidade é valorizada.

Acredito que a corrente minimalista possa fazer sentido na vida de muita gente, mas eu não quero viver num contentor de madeira (nem numa vivenda ou mansão). Na verdade, esperava que o documentário fosse mais acessível às massas. Não que condene o Ryan ou o Joshua – que são verdadeiramente felizes desta forma, e que realmente fazem a diferença no mundo em que vivemos – mas será realista aplicar esse estilo de vida a uma grande escala? Seríamos realmente mais felizes se as nossas casas tivessem apenas uma cadeira, uma mesa, uma cama e uma cozinha equipada? Se a ideia é conseguir um dois-em-um vencedor (sustentabilidade e felicidade), será este modelo viável para as massas?

Sejamos, então, mais conscientes e sustentáveis. Façamos o que está ao nosso alcance para sermos mais felizes e para precisarmos de menos coisas, mas não caiamos no erro de nos tornarmos radicais e infelizes se este modo de vida não fizer sentido na nossa vida ou na etapa em que nos encontramos.

Numa sociedade que ainda está a aprender a reciclar (vergonhosamente!) ou a não utilizar plástico descartável para tudo e mais alguma coisa, mostrar que seríamos todos mais felizes em salas mais vazias ou cabanas de madeira e com negócios próprios parece-me um pouco irrealista – da mesma forma como não gostamos todos do mesmo, também não podemos viver todos da mesma forma.

Minimalism: A Documentary About The Important Things não é aplicável às massas, mas é um ponto de partida – não vamos todos despedir-nos ou vender/doar todos os nossos bens, mas podemos todos ser menos apegados a materiais; o nosso carácter não se avalia pela quantidade de coisas que temos ou coleções que fazemos, mas sim pela forma como alteramos as nossas rotinas de maneira a sermos mais eficientes (a todos os níveis) enquanto lutamos para sermos felizes.

Sejamos, então, mais conscientes e sustentáveis. Façamos o que está ao nosso alcance para sermos mais felizes e para precisarmos de menos coisas, mas não caiamos no erro de nos tornarmos radicais e infelizes se este modo de vida não fizer sentido na nossa vida ou na etapa em que nos encontramos. Minimalism é um bom abre-olhos e talvez seja, também, o empurrão que a nossa sociedade precisa para refletir; para modificar comportamentos e rotinas; para perceber se os bens materiais que nos rodeiam são realmente especiais e/ou essenciais na vida de cada um.

Sobre autor
Carolina Nelas é a autora do blog Thirteen.
As suas aventuras podem ser acompanhadas em Instagram.com/carolinanelas

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