Revista Rua

2019-08-01T10:29:29+00:00 Opinião

“Monsieur Bonjour”

Crónica
Estefânia Barroso
Estefânia Barroso
1 Agosto, 2019
“Monsieur Bonjour”
Imagem representativa

Apesar de ser um corpinho com sangue 100% português, com pai e mãe saídos da Beira, quis o destino que viesse a abrir os olhos, pela primeira vez, em território francês. E por lá permaneci durante alguns anos. Contudo, e ainda durante a minha infância, bem jovem, vim viver para Portugal. Assumo que o Portugal dos anos 80 era bem diferente do país que eu conhecia. Em muitos aspetos considero que sofri um choque cultural. Basta dizer, a título de exemplo que, quando vinha de férias, só achava que estava verdadeiramente em Portugal quando via as estradas de terra batida carregadas de pó! Diga-se, em abono da verdade, que vinha passar férias para o interior de Portugal. Um interior que ainda hoje possui diferenças flagrantes com o litoral. Mas, o certo é que foi para aqui que vim viver e foi a esta zona do país que tive de me adaptar. Sobre as grandes diferenças encontradas falarei outro dia. Do que quero falar hoje é de um dos hábitos mais comuns que este país apresentava e que muito me agradou:

O hábito das pessoas passarem na rua e de se cumprimentarem!

Para quem vinha de uma cidade com uma dimensão considerável em que os cidadãos se comportavam de forma mais fria e menos humana, esse hábito foi para mim algo de magnífico. E, como seria de esperar de uma conversadora como eu, abracei este hábito como se o tivesse tido desde o primeiro dia do nascimento e passei a dizer “Bom dia” ou “Bom dia, como está?” (na versão que utilizava para as pessoas que me pareciam mais idosas – o que, na época, era toda e qualquer pessoa que tivesse ultrapassado os 40 anos…) a toda a gente que se cruzava comigo no meu caminho para a escola. E ainda eram algumas pessoas, tendo em conta que caminhava uns bons dez a 15 minutos!

Foi nessas minhas caminhadas que conheci aquele que viria a batizar de “Monsieur Bonjour” (Senhor Bom Dia – diga-se de passagem que a língua francesa ainda estava muito marcada na minha memória). Monsieur Bonjour era um senhor com quem me cruzava todos os dias de manhã. E todos os dias o senhor, que tinha alguma dificuldade em caminhar, parava, quando se apercebia que eu vinha lá, preparando o seu “Bom dia”. Todos os dias, durante muitos anos, este cenário se desenrolou da mesma forma. Por isso o batizei como Mr. Bonjour. E todos os dias ficava com a sensação que aquele “bom dia” era importante para ele. Como caracterizar o Monsieur Bonjour?

Poderia dizer que era uma excelente pessoa. Que trazia rebuçados nos bolsos para as crianças… Mas não era o caso. Era um homem que parecia zangado com a vida, dono de um olhar sem brilho… Quando atuávamos em bando, correndo pelas ruas, perturbando simultaneamente a paz das ruas e o lento caminhar de Mr. Bonjour não raras vezes éramos brindados com um chorrilho de asneiras… Era um solitário… talvez o olhar vazio se devesse a essa solidão. Penso que seria viúvo… nunca lhe conheci família… nem sequer um animal de companhia. Vivia sozinho, num casebre tão inseguro nos seus alicerces quanto o Mr. Bonjour nas suas pernas… Casa e dono apresentavam o mesmo ar miserável e abandonado.

Fui estudar para fora e deixei de fazer aquele percurso a pé. Deixei de ver o Senhor Bom dia. Não sei o que foi feito dele… sei que o casebre dele já não existe. Foi destruído e deu lugar a um estacionamento para um carro… Em tempos ouvi que o tinham levado para um lar. Sei que deixei de o ver nas ruas. Sei que a casa foi cedendo, lentamente à passagem do tempo e ao abandono.

Apesar de pouco simpático no geral, sempre sentia que Mr. Bonjour aguardava pelo meu “Bom dia”. E todos os dias eu o fazia. Porquê? Porque esse hábito se tinha enraizado em mim. Tinham-me dito que devia cumprimentar as pessoas quando passava por elas e eu cumpria religiosamente – Acho que jogava na altura mais pelas regras do que propriamente agora. Sendo a criança que era, não penso que fosse por achar que ia dar um sentido diferente ao seu dia… Não pensava sobre isso… como disse, era uma criança de pouco mais de sete anos.

Contudo, hoje, olhando para trás, sei que, com a inocência da criança que eu era na época, tornei o mundo do Mr. Bonjour mais simpático e mais aceitável. Dei-lhe uma outra luz (pelo menos nos ínfimos momentos entre o passar por ele, olhar para ele, dizer bom dia e ouvir a resposta). Ofereci-lhe o olhar de um ser humano, tornei-o menos transparente (alcoólico e zangado com a vida, tinha tendência a ser ignorado pelas “pessoas de bem”). Eu não desviei o olhar como grande parte das pessoas faziam e fi-lo merecedor de um bom dia. Sim, foi pouco. Não foi nada. Mas sempre senti que, para ele, aquele bom dia vindo de uma criança de pouco mais de sete anos, era uma esperança no futuro e na humanidade. Sempre senti que o Mr. Bonjour aguardava ansiosamente por esse bom dia. Hoje percebo que o tornei mais pessoa e menos coisa. Mostrei-lhe que era um homem digno do olhar de uma criança, para além do idoso consumido pelo álcool e pela amargura. Sem querer, sem pensar nisso, agi corretamente… E hoje, quando penso no assunto, fico satisfeita por, na minha inocência, ter abraçado um costume tão nosso e assim ter tornado, ainda que de uma forma tão ténue, a vida do Sr. Bonjour mais doce.

Fui estudar para fora e deixei de fazer aquele percurso a pé. Deixei de ver o Senhor Bom dia. Não sei o que foi feito dele… sei que o casebre dele já não existe. Foi destruído e deu lugar a um estacionamento para um carro… Em tempos ouvi que o tinham levado para um lar. Sei que deixei de o ver nas ruas. Sei que a casa foi cedendo, lentamente à passagem do tempo e ao abandono. Àquele a quem tantas vezes disse bom dia não foi possível dizer até já… nem adeus… À época em que tudo isto se passou não tenho grandes dúvidas que o Sr. Bonjour já terá abandonado este mundo. O que desejo? Desejo que naquela nova casa que ele descobriu (o lar), quando abandonou as ruas da minha “vilinha”, possa ter encontrado alguém que, todos os dias, ao passar por ele, lhe dissesse “bom dia, como está?”. Espero que tenha encontrado por lá pessoas que o não “coisificassem” e que o tivessem tratado como uma pessoa, para além do olhar frio e do mau feitio. Desejo que tivesse encontrado alguém que lhe adoçasse o olhar.

Gosto de pensar assim. Gosto de pensar que, na hora em que abandonou este mundo, seguiu para o outro mundo uma alma bem mais feliz. E gosto de pensar que, na memória dele terá ficado aquela menina pequenina e rabina que não se assustou com os seus maus modos e que tantas vezes lhe disse “bom dia!”

Sobre a autora:
Estefânia Barroso é professora e, nas horas vagas, cronista e contista.
Gere o blog steff’s world – a soma dos dias.

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