Revista Rua

2020-03-26T14:40:56+00:00 Opinião

Mundo: uma ervilha a cada esquina

Sociedade
João Rebelo Martins
João Rebelo Martins
26 Março, 2020
Mundo: uma ervilha a cada esquina

Entrei no caos do meu escritório e disse: basta!
Uma colecção de livros do Almada, ainda embalada, taças e troféus, uns binóculos, selos, facturas, papelada burocrática, uma gaveta cheia de telemóveis e carregadores dos anos 90 para cá, um chapéu que irá para o OLX, mapas, credenciais de corridas, convites, mais facturas e papelada de seguros, automóveis em miniatura, livros de caricaturas, e mais um panóplia de coisas que o Craft iria adorar.

Arrumei tudo. Fiz uma pilha de revistas do Rotary e mais uma papelada para o Ephemera, emoldurei – finalmente! E sorri com o resultado – três fotografias do Alfredo Cunha, tiradas a 25 de Abril de 1974.

Prateleiras com livros de política, prateleiras com poesia do século XX, prateleiras com poesia anterior ao século XX, uma prateleira dedicada ao Le Carré, duas ao Lobo Antunes, outra ao Damásio. A Geração Orpheu e livros sobre sociedades secretas ocupam quatro prateleiras. Eça, como não poderia deixar de ser, também tem lugar de destaque. Os clássicos. Agostinho da Silva, Eduardo Lourenço, José Pacheco Pereira e outros pensadores contemporâneos.

E uma prateleira que, seguramente, vai ser aumentada, dedicada a viagens. Com esta arrumação toda revi notas, artesanato, talões e facturas, fotos e mapas da Austrália, da Europa toda, de S. Tomé, do Peru, Marrocos.

Com isso, lembrei-me de uma das muitas estórias das viagens.

Cheguei ao final da tarde a Hamburgo, num voo da Ryanair. Dias antes, ao conversar com uma amiga, ela dizia que quando eu relatava viagens apenas referia pessoas e quase nunca o país.

Falava do Drew, da Jasmin, do Dave e pouco do Egipto em relação a eles. Respondi que os países estão e estarão lá, as pessoas tornam-os especiais. E foi isso que aconteceu.

Tinha combinado ir buscar uma moto, e disse que chegava às nove da noite, já que o avião aterrava às oito. Contudo, as malas demoram e eu estava a ver que não chegava a tempo ao local. Telefonei e atendia um fax…

À porta do aeroporto de Hamburgo apanhei um táxi para me levar ao local. Era o terceiro da fila; não sei porquê, mas escolhi aquele.

O taxista, com ares orientais, moreno, com uma camisa azul de seda e uns óculos da RayBan que bem poderiam ser falsos, assim como o relógio, falou-me num inglês fluente. Indonésio reformado da Siemens, onde trabalhou mais de trinta anos como engenheiro, disse-me que adorava Portugal. Sim, tá bem, pensei eu; conversa para turista ouvir.

Porto, Aveiro, Lisboa, Sintra e Cascais. Nada mais óbvio! E S. Jacinto, que seguiu por uma estrada entre o mar e a ria e que, para atravessar para Aveiro, teve que apanhar um ferryboat. Antes do embarque tinha comido enguias num tasquinho em frente ao cais.

Captou a minha atenção!

Afinal não era conversa para turistas! Porque ninguém conhece S. Jacinto; e sim, em frente ao cais há três tasquinhos que servem enguias.

Sorri. Foi simpático e esperou que me entregassem uma Triumph linda, azul escura, que me levaria até à Suécia.

Sem cobrar nem mais um cêntimo, fez de guia por entre as ruas de Hamburgo até ao hostel onde dormi.

Como escrevi acima, Hamburgo continua lá no sítio: uma cidade fantástica, no verdadeiro termo de cidade e de fantástico. Não fica atrás de outras cidades mundiais, misturando a sua pomposa idade com a arquitectura moderna, dando-lhe uma robustez, uma vida, que nem todas se podem gabar. Uma cidade de piratas que se reproduz a cada dia!

Mas foi esta pequena estória de trinta minutos com um emigrante indonésio que me fez recordar.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

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