Revista Rua

2020-07-03T14:48:28+00:00 Opinião

Não é que eu tenha medo de morrer

Crónica
Ana Marques
Ana Marques
3 Julho, 2020
Não é que eu tenha medo de morrer

Há cada coisa, vou-vos já dizer, que mereceis que eu me dirija a vós, leitores do meu humilde dizer desinteressante.

O que mais me impressiona são pessoas que arranjam todo um enxoval de motivações para não descairmos fugazmente no abismo da morte. A morte chega direitinha quando a vida dá para o torto. É a única certeza que temos, mais os impostos, como dizem. Então, almofadamos este viver, arrecadamos forças nas mais diversas tarefas, enchemo-nos de pós de arroz para disfarçarmos as tristezas que penduramos no estendal com vista para a vizinhança, e sobrevivemos. No momento de deitar a cabeça no travesseiro, quase que esquecemos que o mundo lá fora nos regressa à cara e aos pés depois de adormecidos por horas. E é aqui que quero chegar.

Enquanto dormimos, os sonhos baloiçam por nós e cobrem-nos, manchando a realidade. É como que fossem comprimidos que se despejam no corpo dorido por causa da consciencialização do mundo, ali se instalam, marinam durante um tempo e apagamos naquela imensidão da qual não controlamos. O mais incrível passa por, uns lembrarem-se (malditos sejam, que são como eu, pois que depois padecem de não conseguir segregar e distinguir o que realmente aconteceu daquilo que foi sonhado) e os que não se lembram de absolutamente nada (e esses, sim, uns sortudos, se bem que, lamentavelmente, não passam pela sensação que pode ser extraordinária, por ser tão estranha e ilusória).

E, bom, como da moeda existe a outra face, o sonho tem o seu opositor – o pesadelo.

Ultimamente têm sido pesadelos atrás de pesadelos. Algo me diz que terei de criar um sindicato para tal, porque, para mim, basta disto! Alguns recordo-me deles, ainda que difusamente. O simples lembrar torna-me tão despida ao ridículo pelo facto de os ter sonhado, na mesma medida em que os tento explicar. Ainda assim, creio que este manto em que nos deitamos quando cerramos olhos e deixamos que o nosso corpo nos leve por caminhos não palpáveis, ficamos distraídos em relação à vida, felizmente.

Há diversas – e demasiadas – metáforas utilizadas para descrevermos o que é isto da vida. São as tais motivações que vos falei anteriormente – e que, de tanta cantiga ser cantada, já aborrece e irrita. E enjoa. Algumas delas: «Oh, mas também o que seria disto da vida, viver, sem uma pitada de sal? Sem o seu lado emocional? Ah, e oh!, e depois que seria de nós se fosse tudo tão fácil? É nas derrotas que sabemos quem são as pessoas do nosso lado. São as vitórias da vida que nos fazem mais fortes,» e blá, blá, blá.

Mas porque raio haveria eu de querer que a minha estadia nisto fosse dificultada, impostos por pagar, dívidas para escoar, instabilidade emocional para acarretar e curar, o trabalho que não pode esperar, moscas para enxotar, entre outras artimanhas preparadas, se nem fui eu que quis vir aqui parar? Aliás, se nem eu tive voto na matéria para me terem metido no mundo? Se ainda me tivessem questionado anteriormente, com antecipação, do género: «Olha, passa-se assim e assado, com isto e aquilo e tal, de maneiras que a questão é se queres ou não entrar.»

E resposta a isto tenho-a como água que escorre da ribeira sem esforço: «Deixe estar, fica para a próxima». Seria desdenhar a proposta, como aquele desdenhar de quando pegamos em determinada peça de roupa e até ficamos pálidos com o preço estampado.

É evidente que isto não se sucederia, porque a resposta – caso ninguém nos aldrabasse nestas questões burocráticas que isto da vida envolve – seria unânime. E, depois, obviamente que nos tentariam aliciar com a cartada na manga, a última jogada, o oásis do deserto: «Olha que podes, se tiveres sorte e se tudo correr bem, sentir o amor – e fazê-lo.»

E nós, como que analfabetos ignorantes, acéfalos ingénuos, principiantes de algo que fica na incógnita de uma hipotética situação, diríamos: «Que é isso?»

As explicações seriam por poucas palavras, porque nestas coisas antes que sejam menos as palavras que as ilusões.

Algo me diz que só os tolos é que se arriscariam a entrar na piscina sem conhecer se têm pé, se não. Quando esse pé, juntamente com o corpo, começasse a afundar, a afogar, como o Titanic, seria um arrependimento tardio. Mas, ah!, benditos sejam os sonhos que vamos tendo para nos iludir mais um poucochinho!

Sobre o autor:

Estudo Ciências da Comunicação. Sou uma espécie de Camilo Castelo Branco: escrevo coisas aborrecidas e poucos reconhecem o meu talento. Há quem diga que tenho algum humor, eu digo que emano comédia

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