Revista Rua

2019-09-09T12:19:20+01:00 Opinião

Não estou para cerimónias

Humor
João Lobo Monteiro
8 Setembro, 2019
Não estou para cerimónias

E aquelas pessoas que vão na rua, em par ou em grupo, estão a falar e param… para continuar a falar? E depois continuam a caminhar e a falar, algo que já estavam a fazer e deviam ter continuado a fazer, sem terem parado, porque não havia razão para tal. Não é sobre isso que venho aqui escrever, mas é uma dúvida que me assola, quis partilhar.

Então, no fim de setembro, vou a um casamento, batizado e aniversário. Tudo no mesmo dia e no mesmo espaço, o que me facilita a vida, principalmente a vida do meu estômago. Por outro lado, dificultou-me a vida, porque tive de comprar um fato. Já aqui contei, há uns meses (não me dei ao trabalho de ir procurar quando, mas sei que contei), que raramente vou às compras e não gosto de ir às compras, isto quanto a roupa normal. Comprar fatos é mais raro e desgostoso ainda.

Posto isto, precisei de ajuda. Primeiro, para escolher o tom, até porque sou um bocado daltónico – isto é, mais do que o homem padrão costuma ser daltónico – e porque precisava de aprovação social para poder escolher um fato azul, confirmando a ideia que eu tinha de que preto-funeral e cinza-bancário não eram boas escolhas. Consegui a aprovação de duas pessoas e meia, isso bastou-me.

A meia pessoa calha de ser alguém de 1,82 metros, que é o meu pai. Portanto, o “meia pessoa” não é uma referência ao facto de ser pequeno, é sim referência ao facto de ele não ter concordado totalmente, que é um costume que ambos desenvolvemos há uns anos, mais propriamente desde que tenho idade para ‘arrebitar cachimbo’.

“Outra situação em que levei a minha avante foi em não ter de usar gravata. No entanto, fui metido noutro caminho da moda, com o qual não contava e que ainda estou para perceber se é pior do que a gravata (em termos de style, não em termos de passar calor em festas em setembro), que é usar lenço no bolso.”

Desde o início que eu sabia que seria arriscado e que me podia arrepender desta escolha, mas mesmo assim, segui em frente: pedi-lhe para me dizer onde comprar e ir lá comigo. Este processo, entre ele decidir onde ir e efetivamente irmos, durou cerca de um mês, o que é bom, tendo em conta os padrões de “com calma, isso resolve-se” do meu pai.

Lá fomos, então, a um estabelecimento de roupa. A minha referência era “aquele tipo de azul que a Seleção usou nos fatos para o Euro 2016”, a referência do meu pai era um azul aparentemente mais claro – “aparentemente” porque, lá está, sou um bocado daltónico. O final desta história pouco rocambolesca é que eu consegui não só encontrar “aquele tipo de azul que a Seleção usou nos fatos para o Euro 2016”, como consegui convencer o meu pai de que aquele tom era melhor. Venci na vida. E a Seleção venceu o Euro 2016, nunca é demais lembrar. É melhor do que vencer na vida.

Outra situação em que levei a minha avante foi em não ter de usar gravata. No entanto, fui metido noutro caminho da moda, com o qual não contava e que ainda estou para perceber se é pior do que a gravata (em termos de style, não em termos de passar calor em festas em setembro), que é usar lenço no bolso. Não colheu a minha argumentação de que são acessórios e, por isso, nada disso é obrigatório.

Agora, enfrentarei mais uma batalha, que é comprar o calçado. Desde logo, o senhor da loja, sem o saber, juntou-se à “minha equipa”, dizendo que umas sapatilhas vão bem. Disse também que umas sapatilhas, de uma cor que eu já tenho, também vão bem. No entanto, vou ser obrigado a comprar, porque, aparentemente, o que tenho não serve. O mesmo aconteceu com a camisa. Talvez seja por isso que há pessoal que troca várias vezes de parceiro/a: é porque, ao que parece, não se pode levar nada repetido a estas cerimónias.

Sobre o autor:
Tenho dois apelidos como os pivôs de telejornal, mas sou o comunicador menos comunicativo que há. Bom moço, sobretudo.

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